Rui Costa, presidente do Benfica - Foto: MAYCON QUIOZINI
Rui Costa, presidente do Benfica - Foto: MAYCON QUIOZINI

Benfica: o guião de uma época sem controlo

'Mercado de valores' é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

O ano do Benfica foi desastroso. Têm existido tantos episódios que, por vezes, parece que estamos perante uma verdadeira telenovela.

Episódio 1: Supertaça e Champions

A época começou com a conquista da Supertaça e a qualificação para a fase de liga da Liga dos Campeões. Pelo caminho ficou, entre outras equipas, o Fenerbahçe, de José Mourinho. Apesar do sucesso inicial, um empate frente ao Santa Clara (marcado por uma escorregadela de Otamendi) e uma derrota com o Qarabag serviram de argumento para Rui Costa e a sua administração despedirem Bruno Lage. A ideia que ficou foi a de que estes dois resultados foram o pretexto para trazer um trunfo que garantisse votos nas eleições.

Episódio 2: A chegada do salvador

José Mourinho chegou ao Benfica como o homem que devolveria o clube à glória. Foi também o treinador que, enquanto adversário, dizia que o plantel encarnado era riquíssimo. Rapidamente mudou de opinião. O discurso passou de uma equipa recheada de soluções para um grupo limitado e mal construído.

Na apresentação, Mourinho deixou uma frase que incendiou os adeptos: «Alguém pode dizer não ao Benfica?» Naquele momento parecia impossível. Mourinho, muito mais do que um líder de balneário, transmitia a ideia de ser uma figura capaz de devolver exigência, identidade e até estabilidade emocional ao clube.

Episódio 3: A primeira conquista

A primeira e única conquista de Mourinho não aconteceu dentro das quatro linhas, mas fora delas. A sua chegada teve impacto direto na reeleição de Rui Costa e criou a esperança de que finalmente existiria alguém capaz de reorganizar um clube perdido em várias frentes.

No relvado, esperava-se uma equipa vencedora. Na comunicação, aguardava-se uma estrutura mais preparada para lidar com pressão e crises. No planeamento do futebol, exigia-se mais credibilidade e capacidade de decisão. Mourinho passou rapidamente a ser visto como uma solução global. Uma contratação quatro em um, que acabava por concentrar demasiadas expectativas numa única pessoa.

Episódio 4: O exemplo do Dragão

O Benfica foi ao Dragão para não perder. O próprio Mourinho assumiu isso no final do jogo. O problema é que o Benfica raramente entra em campo, em Portugal, apenas para sobreviver. O objetivo era evitar ficar a sete pontos da liderança. Acabou o campeonato a oito, com a agravante de o FC Porto já ter tirado o pé do acelerador nas últimas jornadas. Ficou uma imagem de um Benfica receoso, curto emocionalmente e demasiado preocupado em limitar danos.

Episódio 5: A Taça da Liga e o mercado

Sem grande evolução exibicional e com resultados europeus inconsistentes, a Taça da Liga parecia a grande oportunidade para Mourinho conquistar o primeiro título no clube. Depois da eliminação do Sporting, o SC Braga surgia como o principal obstáculo. Mais uma vez, o Benfica falhou num momento decisivo.

Seguiu-se o mercado de inverno. Depois de tantas críticas ao plantel, esperava-se uma intervenção forte e criteriosa. A realidade foi diferente. Chegaram Sidny e Rafa, um jogador de 33 anos, parado desde novembro e com um dos salários mais elevados do plantel. A ideia de um projeto sustentado deu lugar à sensação de gestão ao sabor do vento.

Episódio 6: A Noite épica e o caso Vinícius

O grande momento da temporada aconteceu frente ao Real Madrid na Champions. Uma exibição memorável, que terminou de forma épica, com um golo de Trubin a garantir a passagem à fase seguinte da Champions, quando poucos acreditavam.

Mourinho voltou ao centro das atenções mundiais e saiu claramente reforçado. Poucas semanas depois surgiu o caso entre Vinícius e Prestianni.

O Benfica teve aí uma oportunidade para mostrar maturidade comunicacional. Voltou a falhar. Em vez de controlar a narrativa, entrou numa discussão pública sobre versões e interpretações, deixando o nome do clube correr o mundo pelas piores razões.

Episódio 7: A Liga Virtual

Sem conseguir acompanhar os rivais na classificação real, o Benfica apostou grande parte da sua comunicação na crítica às arbitragens. Durante algum tempo, muitos adeptos aceitaram essa narrativa. O problema é que chega sempre um momento em a realidade ultrapassa a ficção. Normalmente, quando um clube passa demasiado tempo a discutir fatores externos é porque deixou de conseguir controlar os internos.

Episódio 8: Quem manda no Benfica?

O último episódio talvez seja o mais revelador de todos. Em março, Mourinho colocou-se à disposição para renovar contrato. Rui Costa respondeu lembrando que ainda existia mais um ano de ligação entre as partes. O tema parecia fechado. Entretanto surgiu o interesse do Real Madrid e o discurso mudou. Mourinho passou a adiar qualquer decisão, afirmando estar totalmente concentrado na luta pelo segundo lugar.

Já a três dias do final da temporada, revelou ter recebido uma proposta de renovação — mais tarde descrita pelo próprio como «uma muito boa proposta» — e anunciou que iria analisar no fim da Liga. Mourinho passou a dispor de todos os elementos decisivos: uma proposta formal, uma janela curta de decisão e a possibilidade de condicionar o futuro imediato do clube.

Num grande clube, isto dificilmente acontece. Os grandes clubes não vivem suspensos de uma decisão individual, por mais influente que seja o protagonista. Definem o seu rumo, antecipam o planeamento e controlam o calendário. Aqui, pelo contrário, o planeamento da próxima época ficou inevitavelmente dependente de uma resposta pessoal.

Num verão ainda condicionado por um Mundial e por um mercado que pode arrancar tarde, essa indefinição ganha mais peso. Talvez seja aqui que a temporada volta ao ponto de partida: um Benfica que começou a época a reagir aos acontecimentos e termina a aguardar, novamente, por uma decisão que não controla.

Por fim, para fechar a novela, fica apenas uma última pergunta: será que Mourinho vai dizer não ao Benfica?

A VALORIZAR: BRUNO FERNANDES

Eleito unanimemente o melhor jogador da Liga Inglesa. Uma época fantástica de um jogador excecional. Este feito é ainda maior por o ter sido conseguido num Manchester United em reconstrução. É atualmente o líder indiscutível da nossa Seleção em todas as dimensões: qualidade, personalidade, liderança e exemplo.

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