Rui Borges, 44 anos, treinador do Sporting, ao serviço do qual já celebrou Liga e Taça de Portugal - Foto: Imago
Rui Borges, 44 anos, treinador do Sporting, ao serviço do qual já celebrou Liga e Taça de Portugal - Foto: Imago

A hora do especial Rui Borges

Técnico do Sporting escolheu o caminho da simplicidade. Um reflexo natural de quem não precisa de 'mind games' para se sentir insuflado. Cá estaremos para ver se continuará assim... 'Hat trick' é o espaço de opnião semanal do jornalista Paulo Cunha

Pequenos gestos, grandes sinais. Na conferência de imprensa de antevisão da visita do Sporting ao San Mamés para defrontar o Athletic Bilbao, no adeus em glória da fase de liga da UEFA Champions League, Rui Borges não falou apenas do jogo que garantiria o apuramento direto dos leões para os oitavos de final. O homem do leme dos verdes e brancos, quando questionado sobre o trajeto iniciado nos escalões secundários, socorreu-se de um… relógio, um velho companheiro: «Eu sinto-me uma pessoa simples, muito simples, e o Casio está lá, sempre. 20 euros… 19 e 90. Lembra-me aquilo que foi a minha trajetória, lembra-me de onde vim e o quanto me custou chegar aqui. E não é por estar aqui agora que vou ter um relógio de mil euros, ou de 500 euros, ou o que for.»

O treinador moderno parece obrigado a exibir um fato caro, um discurso ensaiado, uma atitude quase de CEO. Rui Borges escolheu outro caminho — o da simplicidade. Não acredito que seja por estratégia de comunicação, antes um reflexo natural de quem não precisa de mind games para se sentir insuflado e de alimentar polémicas para desviar atenções. «Sou simples e humilde qb, porque, às vezes, a humildade em excesso é vaidade», destacou também na sala de imprensa do estádio do clube basco.

A verdadeira autoridade não depende do preço do relógio que se usa, mas da coerência entre o que se é, o que se diz e o que se faz. E essa harmonia nota-se na relação com o grupo, na forma como reage nos bons e maus momentos — sem ruído, sem artifícios, sem culpar os jogadores nas derrotas nem transformar as vitórias em acertos de contas com quem o criticou.

Rui Borges não precisa de converter cada jogo numa tese sobre ele mesmo, nem de criar inimigos imaginários para se sentir relevante. O futebol, digo eu, talvez precise mais deste tipo de liderança. Menos ego, mais substância. Menos imagem, mais essência. O técnico leonino não tenta ser um personagem, é simplesmente um profissional sem mania da perseguição nem arrogância — a prova de que se pode chegar ao topo e ser especial sem perder o chão.

Se a bola vai entrar como na temporada passada — coroada com uma dobradinha do Sporting — ou não, isso é futebol e cá estaremos para perceber se o «Rui de Mirandela», conforme já se autointitulou, manterá o equilíbrio quando o Casio se atrasar.