A Argentina tenta retirar toda a velocidade da sua construção para adormecer o rival enquanto pensa em fazer a bola chegar a Messi — FOTO: IMAGO
A Argentina tenta retirar toda a velocidade da sua construção para adormecer o rival enquanto pensa em fazer a bola chegar a Messi — FOTO: IMAGO

A geometria do talento

Os relatórios da FIFA validam uma nova ditadura tática do Mundial: um xadrez asfixiante onde o drible capitula e o extremo puro segue o número 10 até ao exílio

O Mundial ainda é só um conjunto de tendências, mas a FIFA entende que já dá para concluir qualquer coisinha. A primeira ideia lançada é que o extremo puro is no more, desapareceu, trocado pelo invertido, um punk anarquista que só quer saber do corredor interior para combinar ou rematar. Não é de hoje, já o era assim nas principais ligas e nos grandes encontros da Champions, mas não podemos esquecer a universalidade de um Mundial com 48 países, que carrega cada sentença com um forte sentido de aldeia global. E, no entanto, é preciso que alguém pise a linha para oferecer largura à sua equipa, porque o ouro passou a estar nos meios-espaços, um de cada lado, entre central e lateral. E porquê essa largura? Para que o lateral contrário seja atraído e se afaste do seu central, e se alargue precisamente esse canal para poder ser atacado. E aí o protagonista pode ser qualquer um, dependendo da sua posição em campo, desde que faça esse movimento vertical: um avançado, um médio, até o ala, se foi o extremo que fez de pivot pisando os limites do campo.

E por que razão o ouro passou a estar aí nesse meio-espaço? Porque quem entrar aí de bola dominada fica muito mais perto da baliza do que se corresse ao largo, o que dá de imediato outra contundência ao gesto de cruzar ou rematar.

A outra conclusão do Technical Study Group após as primeiras rondas fala da obsessão pela construção a três. A que mesmo a favorita França, depois de quase fracassar ao tentar sair apenas com os dois centrais, teve de recorrer, ao recuar um médio para evitar a igualdade numérica na pressão feita pelos seus adversários. A construção a 3 é mais difícil de contrariar pelo espaço que pode gerar no miolo do conjunto que avança para o pressing — sobretudo se não o fizer em bloco — e, se se mantiver depois na fase de criação, poderá igualmente ser útil na rest defence, ou seja, na colocação das pedras para a reação à perda.

A primeira fase de construção é cada vez mais importante, ainda que provoque, muitas vezes, erros graves e torne de imediato a partida desfavorável para os menos fortes. O futebol transformou-se em xadrez 2.0, com um menor número de jogadas, e o campo é o tabuleiro em que a saída é estudada para ligar diretamente a um eventual xeque e à possível vitória.

O que outrora era nuance estratégica de equipas audazes transformou-se, entretanto, em paradigma. As seleções passam os primeiros minutos de cada jogada numa coreografia hipnótica e defensiva, em que um leva a bola e os outros dois jogam com os rivais à apanhada. A ideia é fixar um dos que pressiona, com o passe praticamente no último momento, o que irá libertar depois um ataque rápido e vertical, que pode ser de facto muito perigoso. Ou, pelo contrário, funcionará como no futebol americano, em que se ganham jardas, mas só com uma tentativa. Não há segundo down. Pelo menos nisto, os ianques são quatro vezes mais tolerantes. A não ser que tudo volte a cenário semelhante segundos depois, devido a nova paragem, por falta ou a bola sair do terreno. Quando há qualidade no passe e sobretudo uma boa tomada de decisão, ganha-se segurança, é verdade, e pode desequilibrar-se o jogo, mas reduz-se a vertigem. Se não houver qualidade nessas características, nem sempre o risco compensa, bem pelo contrário.

A campeã do mundo Argentina tem-se mostrado particularmente interessada em retirar o máximo partido desse momento. A ideia é sempre fazer a bola chegar a Messi entre linhas, à frente da linha defensiva, contudo, não necessariamente de imediato. No melhor momento, sim, para que possa desequilibrar. E como tem desequilibrado!

Diante da Áustria de Ralf Rangnick, por exemplo, no jogo que a qualificou para os 16 avos de final, a Albiceleste sentiu dificuldades por culpa da pressão imposta pelos europeus — havia um especialista sentado no banco dos rivais —, mas quando a ultrapassava acumulava situações de golo. Ainda que não tenham sido muitas. Com o baixar do bloco austríaco, na posse da Scaloneta viu-se um autocontrolo incrível, uma gestão da vantagem sem soluços, à espera da estocada final. Ou do gongo. Ninguém tem praticado melhor esse adormecer antes de ferir como a Argentina. Mesmo que corra riscos quando o faz perante margens curtas.

Já perdemos o 10 maestro, que tinha sempre um trono à sua espera na meia-lua, e praticamente o segundo avançado quando a maior parte dos conjuntos joga apenas com um, e agora deixamos fugir o extremo que corre e dribla pelo corredor. Temos o que parte daí em diagonais, seja porque é realmente forte no 1x1 ou por ser aí onde se esconde, o que acontece com os poucos que ainda se parecem com os Maradonas, Platinis, Francescolis, Zicos e Zidanes de antigamente.

Claro que o futebol fica menos romântico, mas segue a sua própria lógica. Se não estivermos a discutir com Pelé nos balneários dos Aliados no 'Fuga para a Vitória' não há dúvidas de que o caminho mais rápido para a baliza é uma reta que atravessa todo o campo. Mesmo que seja o sítio onde estaciona mais gente ou aí se movimenta em permanente hora de ponta. De frente para o golo, para isolar um companheiro ou atirar. Só precisa pensar rápido. Ou mais rápido do que os outros.

O jogo afunilou de forma asfixiante. Trocam-se passes curtos, tabelas milimétricas e rotações mecânicas numa densidade humana que retira qualquer clareza às jogadas. E que muitas vezes as destrói. Expulsámos a largura com bola — já que da outra não se pode abdicar nunca —, chegar à linha de fundo já parece feito de herói. Um miúdo da infantaria que decidiu desafiar as probabilidades. Diabolizámos o cruzamento tenso de largo e transformámos o relvado num labirinto onde o drible individual, tirando algumas exceções, foi banido por decreto dos que tentam anular primeiro o rival, em vez de ultrapassá-lo. O jogo sofre de claustrofobia tática que esmaga o talento. Hoje, até o Brasil é operário — deixem-me esquecer 1994, pelo menos do meio-campo para trás. Um pouco cínico também. E teve de ir ressuscitar Neymar para ter um pouco da fantasia dos velhos tempos.

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