Mundial
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A fixação de Martínez que blinda Ronaldo e guarda no banco €60 milhões!
PALM BEACH GARDENS — O futebol moderno vive obcecado pela gestão da fadiga, pelos mapas de calor e pelos índices biométricos que ditam, com precisão científica, quando um atleta de elite deve respirar. Mas na Seleção de Portugal, o tempo parece moldar-se a leis próprias, imunes à rotação da biologia e à lógica analítica dos laboratórios.
Olhar para a folha de serviço da comitiva portuguesa na primeira fase deste Mundial norte-americano é confrontar uma anomalia estatística interessante que assume contornos de dogma inabalável.
No reino de Roberto Martínez e olhando meramente a factos, Cristiano Ronaldo não é apenas o capitão incontestável; é uma instituição com direito a exclusividade total sobre o relógio .
Fixa-se, assim, como a única superestrela do firmamento futebolístico mundial a cumprir integralmente os 270 minutos da fase de grupos — nessa constelação, só o francês Mbappé tem igual registo. A audácia desta opção técnica ganha contornos de verdadeiro assombro quando deitamos os olhos sobre a concorrência direta no xadrez internacional.
Com efeito, nas restantes seleções com atletas da elite estratosférica, o bom senso tático/físico imperou de forma clara. Erling Haaland, por exemplo, soma 245 minutos, ao passo que o inglês Harry Kane geriu o cabedal físico com 264’.
Também as jovens pérolas, o espanhol Lamine Yamal (220’) e o ingles Jude Bellingham (224’), foram poupadas à trituração mecânica do torneio e, até no próprio miolo luso, se viu essa gestão clínica: Vitinha, o motor criativo da equipa, ficou-se pelos 260 minutos para evitar a sobrecarga antes do mata-mata.
Do outro lado do Atlântico, a tendência repete-se sem desvios. O brasileiro Vinicius Jr esgotou-se nos 240’, o colombiano Luis Díaz gastou 255’ a espalhar o pânico e Lionel Messi, gerido com pinças divinas, não foi além dos 201’, ele que já soma 6 golos no torneio. No meio deste desfile de prudência coletiva, Ronaldo surge como o único monumento intocável.
Esta fixação analítica do selecionador ganha contornos curiosos quando olhamos com atenção para as opções de luxo que aguardam uma oportunidade no banco de suplentes. O caso mais evidente dá pelo nome de Gonçalo Ramos. O avançado acaba de agitar o mercado de transferências europeu com uma mudança estrondosa para o Milan, fixada em 60 milhões de euros.
No PSG, mesmo sem estatuto de titular, Ramos habituou o Velho Continente à sua eficácia clínica, funcionando como o verdadeiro ás de trunfo na manga de Luis Enrique sempre que o jogo exigia agressividade, pressão alta e golo na grande área.
A ideia que o grupo português vai passando é a de que, no seio da Seleção, a união é total e o espírito de entreajuda é absoluto, com os avançados a apoiarem-se mutuamente em prol do coletivo.
No entanto, a nível puramente estatístico, neste Mundial disputado sob o bafo quente americano, o novo herói de San Siro somou apenas os sete minutos finais diante da RD Congo, partilhando o palco ao lado de CR7, recolhendo logo de seguida para o banco.
Não se questiona o legado imensurável, a fome competitiva ou a capacidade sobre-humana de Cristiano Ronaldo em decidir lances capitais, mas avalia-se a sustentabilidade de um modelo rígido que adia a oxigenação da frente de ataque.
Se seleções de topo como a Argentina gerem Lautaro Martínez (179’) e o Egito poupa o seu farol Salah (250’), por que razão Portugal insiste em esticar a corda do seu elemento mais veterano de forma tão vincada?
A Croácia espreita no horizonte de Toronto, com um meio-campo comandado pelo eterno Luka Modric que sabe como adormecer e asfixiar equipas previsíveis. Martínez escolheu caminhar sobre o arame, poupando o fulgor de Gonçalo Ramos em nome de uma opção estratégica que intriga os analistas. O desafio das eliminatórias começou e o xadrez luso teima em manter esta engrenagem intocável na frente de luta.