A época que decide o nosso futuro
No momento em que, esta sexta-feira, se apitar para o arranque da I Liga 2026/27, inicia-se muito mais do que uma época do futebol profissional. Esta não será uma temporada igual às outras. O que fizermos ao longo dos próximos meses irá condicionar-nos durante décadas e a inação deixou de ser uma possibilidade. A época 2026/27 será decisiva!
Por incompetência, falta de coragem e incapacidade de agir coletivamente, o futebol português vem há largos anos protelando oportunidades. Muito à imagem do País, também no futebol vamos empurrando com a barriga, crentes de que há sempre tempo e de que, enquanto tivermos uma elite forte e relevante na Europa, a cadeia de valor está garantida. Pura ilusão!
Julgo que todos me reconhecerão os gritos de alerta que venho deixando há já vários anos. Continuo certo da sua validade e por isso reforço-os, ciente de que a areia já escoou para o fundo da ampulheta: o tempo acabou, adiar deixou de ser uma possibilidade. Tudo o que façamos nos próximos meses terá uma consequência.
Por economia de espaço, restrinjo-me aos grandes temas que o futebol português enfrentará nos próximos meses e às condições que devemos criar para superarmos os imensos desafios que eles nos colocam.
A centralização dos direitos de transmissão conheceu na última época avanços significativos e que muitos julgavam impossíveis de alcançar. Contra todos os prognósticos, e se calhar até contra a vontade de muitos, os clubes foram capazes de se entender quanto ao modelo de comercialização (entretanto validado pela Autoridade da Concorrência) e quanto à chave de repartição. Como então referi, estes importantes passos não encerram o processo. O sucesso da centralização ficará ditado em 2026/27 e dependerá do sucesso dos concursos para a venda dos direitos nacionais, internacionais e de produção.
São processos de enorme responsabilidade e que têm de ser liderados e concluídos por uma Liga absolutamente legitimada, razão pela qual o SC Braga instigou a que as eleições previstas para o final da temporada sejam antecipadas. O futebol profissional tem de se apresentar perante o mercado com uma liderança estável e previsível, seja ela de continuidade ou optem os clubes por um projeto alternativo que venha a surgir. Na minha opinião, esta clarificação é urgente e tem de preceder a venda dos direitos, responsabilizando aqueles que venham a conduzi-la.
Como sempre defendi, a centralização não se esgota no processo comercial. A criação de valor só acontecerá se o futebol definir ferramentas que elevem o standard do nosso produto. É absolutamente imperativo que, nos próximos meses, se aprove e aplique o modelo de controlo económico, vulgo fair play financeiro. O resultado desportivo não pode ser o único fator de acesso e permanência no futebol profissional; não é possível prolongar, por mais um dia que seja, licenciamentos criativos e que apenas adiam colapsos, desvirtuando pelo caminho a própria competição. Os clubes não podem continuar a concorrer com armas desiguais.
O equilíbrio e a responsabilidade da gestão são indispensáveis, como bem sabem aqueles que, via UEFA, já há largos anos jogam consoante as regras da supervisão. Este é o standard pelo qual o futebol português tem de alinhar, num eixo virtuoso do qual são indissociáveis as infraestruturas. Se em 2026/27 não ficar definido um rigoroso caderno de encargos, a curto e médio prazo, para melhoria e requalificação de estádios, bancadas e espaços do público, relvados, balneários, zonas técnicas, áreas de treino e outras, é absolutamente certo que o produto centralizado ficará aquém do seu potencial.
Direitos de transmissão, controlo económico e infraestruturas formam o triângulo perfeito da centralização, bastando que um dos vértices desalinhe para que todo o processo impluda. Os clubes, e a Liga Portugal enquanto bloco, têm ferramentas e responsabilidades que lhes cabe assumir imediatamente, mas não ignoro que estes processos afetam todo o futebol português e por isso recomendam uma abrangência que só a cooperação institucional pode assegurar.
A este respeito, não há como não referir que a anunciada nova era de relacionamento, tão vincada nos processos eleitorais do ano passado, está absolutamente por cumprir. É embaraçoso que as lideranças sejam incapazes de concretizar um caminho comum, sobretudo quando tão assertiva e publicamente o anunciaram, inclusive com metas e objetivos que agora se contornam. Os compromissos sufragados são letra de lei, não são verbo de encher.
O alinhamento estratégico entre a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portugal é crucial, não apenas para construir um edifício comum para o nosso futebol, mas também para concretizar a agenda política que saiu dos processos eleitorais e que elenca anos e anos de legítimas reivindicações tendentes a promover a competitividade do nosso futebol. O apoio político ao futebol não se faz nas tribunas de honra das grandes competições, mas em decisões efetivas que alinhem com a concorrência internacional.
Federação e Liga têm de coincidir na defesa do jogo e do jogador. Investir nas competições e na sua organização tem de coincidir com uma nova era na Disciplina e na Arbitragem, da qual não se conhecem avanços quanto à prometida entidade externa de gestão, submersa na constrangedora espuma das polémicas e das conspirações do dia-a-dia.
Federação e Liga têm de confluir numa ideia para o jogo português, trabalhada da base até ao topo e para a qual convergem todos os agentes, entre os quais devem merecer especial proteção as entidades formadoras: os escalões jovens não podem continuar a ser um habitat predatório completamente desregulado e à mercê da lei do mais forte.
Quando, na sexta-feira, se iniciar a I Liga 2026/27, não se começa a definir apenas quem ganha e quem perde, quem vai à Europa e quem desce de divisão. Esta época, todos nós temos a imensa responsabilidade de decidir o que será do futebol português durante as próximas décadas. Todos seremos julgados, de forma inclemente, pelo que fizermos esta temporada.