Nuno Catarino, diretor financeiro, e Rui Costa, presidente do Benfica, defendem que a centralização não tem condições para avançar — Foto: Miguel Nunes
Nuno Catarino, diretor financeiro, e Rui Costa, presidente do Benfica, defendem que a centralização não tem condições para avançar — Foto: Miguel Nunes

A BOLA revela tudo sobre as medidas do Benfica sobre a centralização

O que foi dito aos grupos parlamentares na Assembleia da República e o que será defendido hoje na Assembleia Geral da Liga

O Benfica apresentou aos grupos parlamentares de Partido Social Democrata, Partido Socialista, Chega e Iniciativa Liberal, em audiências na Assembleia da República (AR), e apresentará hoje, na Assembleia Geral da Liga, um conjunto de propostas relacionadas com a centralização da venda dos direitos televisivos, obrigatória a partir de 2028, no qual, entre outras, se destaca o pedido de adiamento de dois anos da data-limite da entrada em vigor do decreto-lei n.º 22-B/2021.

A Direção dos encarnados defende que o contexto português não é replicável na Europa, que a centralização chega no pior momento possível, que há riscos evidentes para as sociedades anónimas e, por isso, sugere várias medidas que considera essenciais.

Nas audiências na AR, que prosseguem na próxima semana com outros grupos parlamentares, o Benfica procurou sensibilizar os partidos para a necessidade de adiamento da entrada em vigor da centralização, como se disse, prevista para 2028.

O grupo parlamentar do Chega, único que falou após a reunião, através do deputado Pedro Pinto, admitiu o adiamento da venda centralizada dos direitos televisivos, assinalando que «o País e o mundo mudaram», acolhendo, no fundo, os argumentos das águias.

Singularidade nacional

O Benfica entende, pois, que o contexto do futebol português é único na Europa. Desde logo porque mais de 90 por cento dos adeptos nacionais apoiam três clubes — Benfica, Sporting e FC Porto — e porque, noutros países, como Inglaterra, Itália ou França, a base de apoio está mais dispersa. Existe, para o Benfica, outra realidade: há poucos clubes grandes associativos e ecléticos que competem com as SAD detidas essencialmente por acionistas estrangeiros e, logo, com menor ligação aos clubes e adeptos.

O futebol profissional, por outro lado, financia as modalidades — no caso do Benfica implica um investimento de €30 milhões por ano, incluindo o projeto olímpico. É, nessa medida, o futebol profissional que contribui para a formação de atletas. O futebol, por outro lado, considera o Benfica, é uma das indústrias que mais projetam Portugal — o País está no sexto lugar do ranking da UEFA e no 18.º do Produto Interno Bruto per capita da União Europeia.

Momento errado

O Benfica argumenta que a centralização chega no momento errado. Em primeiro lugar, identifica mudança acelerada no futebol, com mais foco, interesse mediático e prémios nas competições europeias em detrimento das provas nacionais. Depois, porque a valorização do produto — combate à pirataria, reforma das competições nacionais e investimento em infraestruturas — não foi realizada.

Para os encarnados, o processo de centralização começou tarde e num formato ultrapassado, mas também está atrasado. Finalmente, apenas a entidade incumbente conseguirá apresentar uma proposta firme — o Benfica considera que a renovação com a NOS até 2028, com melhores condições, aconteceu por ter o produto mais valioso, enquanto outros clubes não têm propostas viáveis para prolongar ou assinar novos contratos, sendo, na perspetiva das águias, o Moreirense (tem contrato com a TVI) caso único.

Riscos

Para o Benfica, verifica-se impossibilidade de decisão racional entre clubes, por haver desalinhamento entre participação na decisão e realidade desportiva, ou seja, cerca de 25 por cento dos clubes tem aproximadamente 80 por cento dos votos, apesar de terem menos de três por cento dos adeptos, contra os top 6 que projetam o futebol português na Europa.

Por outro lado, o cenário mais provável de alienação dos direitos aponta para um valor inferior a €150 milhões, abaixo do valor de há 10 anos (cerca de €180 milhão) e substancialmente inferior ao pressuposto inicial de €300 milhões. O Benfica estima que os clubes grandes tenham de fazer um desinvestimento de €30 milhões por ano para fazer face à perda de receita. Ainda sobre os riscos, a Liga portuguesa perdeu competitividade e baixou no ranking das melhores a nível mundial.

Medidas propostas

O Benfica propõe, como tal, o adiamento da data limite de dois anos da centralização para permitir a todos os agentes, incluindo entidades públicas, a realização do trabalho-base, que implica, como se disse, o combate à pirataria, a reforma das competições, das infraestruturas e da arbitragem. Esse tempo adicional servirá, para o Benfica, para promover um ambiente favorável à entrada de novos compradores e, com isso, estimular a concorrência e a inclusão de novos formatos de consumo no modelo de financiamento do futebol, nomeadamente apostas.

O Benfica acredita que mais dois anos permitem o alinhamento de custos de contexto do futebol com mercados europeus que competem com Portugal. E, finalmente, mas não menos importante, recomenda o que designa de processo de geometria variável, ou seja, a centralização dos pequenos clubes e não a centralização de todos os clubes, com os riscos anteriormente elencados.