José Mourinho disse que quer continuar no Benfica na próxima época — Foto: IMAGO
José Mourinho disse que quer continuar no Benfica na próxima época — Foto: IMAGO

De Romário a Aldair, de Mourinho a Ríos

A ligeireza com que se desvaloriza o que fez Mourinho, nos últimos anos e no Benfica, contrasta com a preguiça ou desinteresse em perceber o que fez quem o sucedeu.

É sempre interessante, para lá de divertido, ouvir Romário, na qualidade de entrevistado e, mais recentemente, de entrevistador. Numa de algumas noites mal dormidas, mergulhado no mundo riquíssimo do futebol brasileiro — passado e presente, de todas aquelas personalidades fascinantes, do campo à pena — o baixinho respondeu de primeira, logo sem precisar de pensar muito, como se estivesse a rematar para um golo, sobre muitos assuntos.

Se não evitei sorrir quando disse que era «disparado» melhor na noite que Renato Gaúcho e o melhor avançado do Brasil, deixou-me a pensar quando elegeu Aldair — campeoníssimo compatriota que passou uma época fugaz e, provavelmente, sem o reconhecimento que merecia no Benfica — como um dos defesas mais difíceis de enfrentar, ao lado de Baresi, Maldini ou Ricardo Rocha, que, para nós, portugueses, infelizmente, também só esteve uma época no Sporting.

Vem esta introdução a propósito do apreço, ou talvez falta dele, que Aldair teve no Benfica, ou melhor, dos benfiquistas, bem habituados a uma dupla — Mozer e Ricardo Gomes — cuja qualidade talvez seja difícil replicar na Luz. Aldair substituiu Mozer e, passada uma temporada, saiu para a Roma, para construir uma carreira gloriosa. Se bem me lembro, muitos benfiquistas torceram o nariz ao zagueiro brasileiro.

Não tanto como, mais recentemente, aconteceu com Richard Ríos, de quem José Mourinho já disse jogar com o peso de €27 milhões nas costas. Não sei se alguma vez Ríos fará carreira como Aldair, é muito provável que não, mas esta idiossincrasia do Benfica, mantém-se viva. Mourinho conhece-a como poucos e a desvalorização desse património (e de outros) do treinador, a começar pelos adeptos do Benfica, custa entender. É mais fácil perceber daqueles que procuram atenção, em cliques de notícias ou redes sociais, ou têm agenda escondida com o rabo de fora.

Mourinho, como provou na conferência de antevisão do jogo com o Nacional, continua a perceber tudo o que se passa à volta dele, a dominar o uso da palavra e, com isso, condicionar o contexto. Não é pouco. A ligeireza com que se desvaloriza o que fez, nos últimos anos e noutros clubes, contrasta com a preguiça ou desinteresse em perceber o que fizeram aqueles que o sucederam.

Mesmo aquilo que está a fazer agora no Benfica será, seguramente, avaliado de outra forma dentro de algum tempo. Não consigo ainda dizer que está a ser extraordinário, um desastre ou meio termo — nem alguma vez poderemos concluir o que teria acontecido se Bruno Lage continuasse. Mas atrevo-me a arriscar que poderá haver muita gente a recorrer a um provérbio que todos conhecemos: «Atrás de mim virá quem de mim bom fará.»

Depois das declarações de Rui Costa e de Mourinho na última semana, parece pacífico acreditar que o treinador continuará. E será justo que possa fazê-lo, construindo, dentro das limitações do Benfica, uma equipa à imagem dele. Continuaremos, sem o lastro de 27 títulos, livres para criticá-lo positiva ou negativamente, mesmo que ele se esteja borrifando para o que pensamos.

Rui Costa não encontrará alguém melhor para o atual momento de tensão que o Benfica vive, apesar de nem meio ano ter passado das eleições que venceu sem margem de contestação. Mais do que anúncios de projetos desportivos o Benfica precisa de acertar nas contratações — é mais fácil dizê-lo, sim, mas o FC Porto, numa situação extrema de constrangimentos financeiros, conseguiu-o e construiu equipa competitiva. E, curiosamente, com um forte investimento numa época de Liga Europa, que o Benfica arrisca jogar na próxima temporada.

Ríos está mais que a tempo de justificar o investimento. Como os jovens da formação que Mourinho foi premiando — não são apostas declaradas, nem a circunstância, ignorada por quem gosta de atirar umas postas de pescada, favorece que sejam lançados às feras sem a proteção de uma equipa equilibrada e num bom momento. Ao Benfica faltam, sobretudo, jogadores como Enzo Fernández —desde a saída do médio argentino quase nunca o Benfica voltou a ser predador, mas foi muitas vezes vítima.