Estádio José Alvalade, 20 anos: três testemunhos importantes

Sporting Estádio José Alvalade, 20 anos: três testemunhos importantes

NACIONAL06.08.202309:51

O Estádio José Alvalade está de parabéns. Faz hoje 20 anos que foi inaugurado com pompa e circunstância, num motivo de orgulho para toda a família sportinguista. Foram muitos os obstáculos a ultrapassar, desde a fase do planeamento, passando pela construção  e respetivo financiamento, num projeto que há muito estava pensado e que era irreversível, ainda antes de José Roquette chegar à presidência do Sporting, a partir do momento em que se tomou consciência que não se poderia recuperar o antigo José Alvalade. Avançou-se, então, para a terceira geração (o primeiro foi o Estádio do Lumiar, mais tarde José Alvalade; o segundo, ao lado do atual, inaugurado em 1956; o terceiro a 6 de agosto de 2003, que ultrapassou os 14 milhões de adeptos no jogo com o Villarreal).


Impunha-se, por isso, ouvir três dos principais responsáveis pela edificação da obra, todos antigos presidentes do Sporting. Com uma ressalva. José Roquette e Godinho Lopes tiveram a amabilidade de aceitar o desafio de a A BOLA. António Dias da Cunha não o pôde fazer, porque os seus 90 anos feitos no passado 13 de julho já não o permitem fazer tudo o que quer. Como o próprio nos explicou.

Por isso, este texto que lhe é atribuído foi retirado de uma publicação do Sporting em abril de 2003, quatro meses antes de ser o presidente em exercício no dia em que o novo José Alvalade foi inaugurado. Uma singela, mas  justa, homenagem de A BOLA, a um presidente que foi importantíssimo quer na construção do estádio, quer da Academia, que também inaugurou em 2002.  

«Atualização do projeto do meu avô»

José Roquette e o diálogo com Jorge Sampaio para a regularização do património do clube 
 

«A construção do estádio foi um tremendo desafio. O Sporting teria sempre construído o estádio com ou sem Euro-2004. Agora precedendo o estádio não nos podemos esquecer da academia porque a academia construiu-se e essa decisão até foi tomada mais cedo. Eu ainda estive na cerimónia da colocação da primeira pedra, porque sempre entendi, e a minha Direção também, que a academia era tão ou mais importante que o estádio. Referi algumas vezes que não joga muito bem ter um bom palco e maus atores. A construção do estádio foi o objetivo final da reestruturação financeira do Sporting, inclusivamente na gestão do imobiliário que o clube tinha e que quando a minha Direção tomou posse estava em zero. O Sporting não tinha qualquer capacidade, nem autorização, nem nenhuma licença para fazer fosse o que fosse e, portanto, tudo isso foi tratado entre mim e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, na altura Dr. Jorge Sampaio, que como sabe foi também um grande Presidente da República, mas também um sportinguista convicto. Nessas conversações que duraram bastante tempo nunca nenhum de nós  se esqueceu o que era realmente importante, tanto para Jorge Sampaio como presidente da câmara, como para mim como presidente do Sporting. Portanto, não houve nenhum tipo de compromisso ou nenhum tipo de, digamos, menor entendimento quanto àquilo que era importante para o Dr. Jorge Sampaio no que se refere à Câmara Municipal de Lisboa, como também para o Sporting a importância fundamental que tinha a reestruturação e a regularização do imobiliário que o clube tinha e que à partida naquela zona podia ir, como autorização de construção, desde zero até aquilo que foi realmente possível conseguir e que permitiu que o Sporting recuperasse financeiramente a estrutura que não tinha quando a minha Direção tomou posse.

Lembro-me da noite da inauguração muito bem. Depois foi o Dias da Cunha foi quem continuou a obra do projeto que nos levou a mim e a ele a assumir as responsabilidades que assumimos no Sporting e foi ele também que terminou e concluiu toda reestruturação financeira e deu estabilidade ao clube, sucedendo-lhe Filipe Soares Franco. O que se seguiu e que começou a correr mal foi por muitas razões que todos conhecem e são de lamentar.

Foi uma obra moderna para um clube que se queria moderno. Mas, para mim, tratou-se mais de uma atualização do que tinha sido pensado pelo meu avô [José Alvalade]. Não veja aí mais do que do que isso mesmo que eu lhe estou a transmitir. Eventualmente o que pode ter sido detetado em termos emocionais da minha parte nesse dia da inauguração tem muito a ver com isso, porque aquilo que me levou ao Sporting não foi querer ser presidente. É importante não nos esquecermos, e eu não me esqueço, que eu nunca quis ser presidente do Sporting. Tive que assumir isso em circunstâncias que, enfim, ainda hoje me deixam desconfortável digamos assim. Agora não se esqueça que o estádio onde foi construído não foi onde estava o antigo, mas em todo o caso significou uma atualização do projeto que o meu avô teve para o Sporting quando o clube estava a nascer. Não se esqueça que o meu avô construiu o primeiro estádio com bancadas não de madeira mas de pedra [Estádio do Lumiar], que só foi seguido pelo Estádio Jamor muitos anos depois. O meu avô era um precursor, uma pessoa com a perspetiva do tempo e daquilo que para ele era importante porque o Sporting era realmente a parte mais essencial da vida dele.»

«Símbolo de uma nova era»

Mensagem de Dias da Cunha (quatro meses antes da inauguração do novo estádio)
 

«O novo Estádio José Alvalade é uma pedra angular do processo de transformação e modernização do Sporting iniciado há oito anos pela equipa dirigente liderada pelo Dr. José Roquette.


Em conjugação com a Academia Sporting, em Alcochete, e com o Edifício Visconde de Alvalade, ambos já em pleno funcionamento, o novo Estádio e as suas múltiplas valências desportivas, lúdicas e comerciais abrem caminho para que o Sporting possa viver a médio prazo pelos próprios meios.

A inauguração simboliza exemplarmente a arriscada aposta estratégica de desenvolvimento do Sporting que é a transformação de um valioso património imobiliário, mas inerte, numa fonte de receitas regulares para o Clube, que assim ficará menos dependente da volatilidade dos resultados desportivos.

O enorme esforço que o Sporting, os seus profissionais e todos os sportinguistas que graciosamente o servem tem vindo a desenvolver para transformar o clube numa entidade moderna com vocação ganhadora, mesmo a nível europeu, não tem afetado a vertente desportiva. Num período em que foi forçado a investir fortemente nas suas obras e nas transformações orgânicas que visam regularizar a vida do clube, o Sporting continuou a afirmar-se como a maior potência desportiva portuguesa. Apesar dos grandes sacrifícios financeiros, nos últimos anos o Sporting conseguiu vitórias no futebol como há três décadas não alcançava, obteve títulos mundiais e europeus em atletismo, vitórias de âmbito nacional em atletismo, andebol, futsal, ténis de mesa, natação e numerosas outras modalidades entre as 20 que se praticam no clube.

Os sacrifícios vão continuar, mas estamos no bom caminho. O Sporting orgulha-se de ter uma vida de relacionamento transparente com o país e a sociedade, de saber o que deve, a quem deve, como e quando paga e, além disso, de manter uma impressionante dinâmica de vitórias desportivas.

O novo Estádio José Alvalade é o símbolo de uma nova era de um Sporting quase centenário mas tão jovem e ambicioso como nos primeiros tempos.»


«A vontade de servir o Sporting»

Godinho Lopes lembra as dificuldades de erguer novo estadio e academia
 

«Vinte anos depois ao receber a chamada de um jornalista a pedir para escrever sobre a construção do Estádio, confesso que fiquei sensibilizado. Primeiro porque, afinal, ter ‘memória’ é a única forma de não apagar a história. Segundo porque nada melhor do que ser recordado como tendo feito parte deste momento marcante da vida do meu clube o Sporting Clube de Portugal.


No final de 1998 fui convidado pelo então membro eleito da Direção João Ribeiro da Fonseca para ser responsável pelo setor Imobiliário e de Construção do SCP. Aceitei sem hesitar e fomos falar com o então Presidente da Direção, José Roquette, na sua casa no Esporão, no Alentejo.
Estava prestes a ser concretizado um sonho: poder enfim servir o Sporting

Consciente desde o primeiro momento de que se tratava de um clube e não de uma empresa, recolhi toda a informação existente com a ajuda do Luís Adão e Silva e da Luzia Almeida.

Desde logo senti a vontade de delegar e nem a contrariedade de o projeto estar adjudicado a um consórcio e de haver já um arquiteto, sem definições concretas da dimensão, conceção, custo e prazo, constituíram problema pois, como escrevi, foi-me dada carta branca, sinónimo de maior responsabilidade.

Estávamos no princípio de 1999 e o objetivo, tal como o designado ‘projeto Roquette era o de atualizar as infraestruturas do clube, estádio e, na altura, centro de estágio; nada tinha que ver com o Euro 2004, pois só em 12 de Outubro de 1999 é que Portugal foi escolhido para receber a importante prova futebolística.

De facto fazer parte de um projeto, numa área de atividade que dominava, adicionado ao facto de também acumular a área de Comércio e Serviços, foi um privilégio que jamais esquecerei. Os tempos dos relatos de Artur Agostinho ouvidos na rádio, na minha terra-natal na Beira moçambicana, fizeram nascer dentro de mim a vontade de servir o Sporting e esse sonho estava agora concretizado.

Trabalhar numa equipa constituída com base nas duas pessoas mencionadas e arregaçar as mangas, dificultando a vida, transformando uma gestão de um projeto com um consórcio numa divisão numa soma de 18 empreitadas, para reduzir os custos em cerca de 33M€, coordenado por duas empresas de fiscalização, com concursos para cada empreitada, foi incrível e extraordinário.

Ao custo do estádio somaram-se o Holmes Place, Alvaláxia, Ed. Visconde de Alvalade e Clínica CUF, cerca de 50M€ e as infraestruturas rodoviárias, tudo num valor superior a 160M€ mais juros. Quando em Outubro de 1999 Portugal é escolhido para realizar o Euro 2004, já estava o nosso clube com o projeto a andar, tendo só que ser introduzidas alterações, fruto das duras exigências da UEFA.

A principal dificuldade foi a qualidade da relva, o que deu origem naturalmente a um conhecimento e especialização nessa área, pois o José Alvalade era um estádio aberto com a relva com igual temperatura e o Alvalade XXI, tinha e tem temperaturas muito diferentes de uma baliza para a outra o que obrigou a um conhecimento diferenciador.

Hoje, volvidos vinte anos, um conjunto de temas são iguais. A saber: criação da Gamebox, lugar de Leão, camarotes e sua gestão, alimentação, gestão do estádio (stwards), torniquetes, manutenção dos cabos que suspendem a cobertura, sala de sócios, auditório Artur Agostinho e outros que têm vindo a ser atualizados, pintura do estádio e mastros, substituição das cadeiras, sinalética, torniquetes, gestão dos lugares e venda, loja Sporting e ainda outros, passados 20 anos merecem atualização, acessos aos diferentes setores, elevadores, rampas, cobertura do fosso com lugares adicionais, etç

Afinal, o objetivo de fazer um estádio novo no final do Século XX era o de trazer famílias ao estádio dando continuidade à transmissão do ‘fervor’ sportinguista de pais para filhos, através dos acessos, conforto e espetáculo, numa missão que tem e deve ser sempre atualizada pelo que a efeméride dos 20 anos com receitas na venda de lugares de Leão, lugares VIP, camarotes, cujas receitas potenciais são importantes e cujo investimento na modernização e atualização do estádio é fundamental. Sendo igualmente bom o exemplo do Ajax de Amesterdão, base e modelo do nosso, e que merece ser seguido pois já foi modernizado.

Alcochete foi outra aventura determinante feita também através de um somatório de concursos, desde o projeto até à construção, campos e mobiliário, precedidos pela visita ao que de melhor havia na Europa; o inicial era um centro de estágio em Torres Vedras, sendo que o construído em Alcochete resultou de um terreno adquirido com 25he, preparado para a formação, equipa B e principal; os 17312m2 construídos permitiram classificar como academia Sporting, hoje Cristiano Ronaldo, verdadeiro símbolo de sucesso da formação do clube.

António Dias da Cunha, que se seguiu a José Roquette como presidente do SCP, tive com ele uma relação especial, de verdadeira amizade, ainda agora lembrada no seu aniversário recente em que completou noventa anos. Verdadeiro defensor do clube, amigo do seu amigo, é um exemplo de uma paixão e amor ao Sporting num verdadeiro espírito de servir.

Esta primeira etapa do meu serviço ao clube foi de uma grande devoção com o sucesso nas construções mencionadas e por termos sido em 1999/2000 e 2001/2002 campeões nacionais de futebol.
Obrigado, Sporting Clube de Portugal!»