«Em 2017 não seria o único a rir se me dissessem que Beste ia jogar no Benfica, mas...»
Jan-Niklas Beste ao serviço do Heidenheim
Foto: IMAGO

Benfica «Em 2017 não seria o único a rir se me dissessem que Beste ia jogar no Benfica, mas...»

NACIONAL11.07.202416:36

Especialista analisa para A BOLA o novo lateral-esquerdo das águias; acredita no sucesso, mas lembra necessidade de adaptação; Atlético, trabalhador, vertical e forte nos cruzamentos é o perfil do reforço

Jan-Niklas Beste é o novo lateral-esquerdo do Benfica. Proveniente do Heidenheim, vai custar entre 8 a 10 milhões de euros aos encarnados, que encontram no país natal de Roger Schmidt finalmente o substituto de Alex Grimaldo. A BOLA tentou perceber melhor quem é Beste e falou com Ábel Meszaros, especialista na Bundesliga e atualmente analista da Liga dos Campeões na RTL da Hungria, que traçou o perfil do novo jogador das águias.

«Jan-Niklas Beste nasceu em Hamm, perto de Dortmund, e era basicamente uma espécie de produto do Borussia. Acho que jogou um jogo da taça em 2017, uma primeira ronda [Rielasingen 0-4, assinou a assistência para o primeiro golo, apontado por Marc Bartra], lançado por Peter Bosz, que era o treinador do Dortmund na altura. Foi quase sempre lateral-esquerdo e, mesmo no escalão de sub-19, não teve muitas oportunidades. Somou épocas com um ou dois golos e poucas assistências e, depois, não teve qualquer hipótese de jogar na equipa principal, pelo que foi emprestado a outros clubes. Foi para o Werder Bremen, mas nunca chegou a jogar na equipa principal. Depois seguiu para o Emmen, nos Países Baixos, porém também não conseguiu ter minutos e foi como se tivesse desaparecido da face da terra. Renasceu no Regensburg, na segunda divisão alemã, mas toda a gente o conhece do Heidenheim, onde se enquadrou bem no esquema de Frank Schmidt [treinador da equipa]. Na época da promoção, foi o melhor jogador da equipa», começou por dizer Meszaros.

Para o analista, o lateral tem «um perfil interessante», embora ainda tenha algumas dúvidas sobre o seu completo enquadramento numa equipa que joga permanentemente ao ataque como o Benfica. «É uma espécie de lateral, quer dizer, acho que agora lhe chamaríamos ala, mas o Heidenheim joga quase sempre em 4x4x2 e, nesse esquema, é um extremo ofensivo. Os seus melhores argumentos são os cruzamentos e a criação de oportunidades, mas não de uma forma fantasista. É um jogador que trabalha muito contra a bola, pressionando, e com esta corre bastante. Foi o jogador com mais sprints na Bundesliga 2 na época em que a equipa subiu. Na Bundesliga, trabalha muito, dá tudo e tem uma técnica de remate muito boa. Finaliza com ambos os pés. Assume muitos lances de bola parada e consegue bastantes assistências, mas o seu jogo é feito à base de intensidade, de corridas dinâmicas e feitas no momento certo, ao receber passes longos, que é como o Heidenheim joga. Tenho quase a certeza de que Roger Schmidt o conhece dos primeiros tempos. O seu pé esquerdo é provavelmente a maior arma. Na altura em que jogou na segunda divisão alemã houve muito interesse de outros clubes. O Galatasaray e a Fiorentina estiveram interessados, por isso pode adaptar-se muito bem a outras ligas fora das big five. Tenho algumas dúvidas sobre o seu contributo para o Benfica, porque ele nunca jogou numa equipa dominadora. O Heidenheim não tem muito a bola, joga à base de muitas bolas longas, duelos, uma intensidade muito alta e essa parte encaixaria muito bem, porque é o que o Roger Schmidt quer, mas, em termos de passes certos ou progressivos, ou passes um pouco atrás das linhas, o primeiro toque dele não é muito bom, não é um tipo que desbloqueie blocos baixos, já que nunca teve de o fazer.»

Lateral ou ala para Schmidt?

Mas será que Roger Schmidt o quer para lateral ou se prepara para voltar aos três centrais, a fim de poder fazer subir alas pelos flancos. «Não tenho visto muito do Benfica, mas do que me lembro Schmidt tem usado muito laterais ofensivos, ou seja mais médios do que laterais, e nesse sentido Beste faz muito sentido. Tentou fazer o mesmo com Jurásek, alguém com um perfil mais físico. Não há grandes diferenças entre o ala e o lateral, porque, na maior parte das vezes, ele só usará um jogador nesse lado e depois alguém nos meios-espaços [Aursnes, por exemplo, na primeira época]. Por isso, Beste começará como lateral, mas depois com a bola alguém como Florentino ou João Neves recuará para playmaker-baixo, formando uma linha de três, e ele poderá subir no terreno. Nesse sentido, não interessa muito. É interessante que ele tenha sempre jogado com um lateral no flanco nas suas costas, mas não será preocupante, porque ele defensivamente é muito sólido, trabalha muito, muito atlético. Numa liga como a portuguesa, em que o Benfica dominará a maior parte dos jogos e não terá que fazer muito trabalho defensivo. Ele está habituado ao pressing no Heidenheim e não deverá ser exposto a muito trabalho defensivo individual a maior parte das vezes. Não vejo muita utilidade em usá-lo com extremo ou como ala, vejo-o mais como um lateral que faz o corredor todo e depois cruza.»

Comparações com… o extremo Kostic

Ábel Meszaros prossegue na sua análise e apoia-se em dois exemplos até conhecidos dos portugueses: o sérvio Filip Kostic e o alemão David Raum, ambos presentes no Euro 2024 pelas respetivas seleções.

«É um pouco como Kostić ou talvez como Raum, algo por aí. Nunca teve de cobrir todo o lado esquerdo sozinho, pois no Heidenheim jogou como extremo esquerdo ou médio esquerdo e, antes disso, era uma espécie de lateral-esquerdo, mas penso que nunca jogou num esquema tático em que estivesse sozinho na ala, por isso acho que para o Benfica faz sentido como lateral-esquerdo ofensivo, na medida em que pode, sem dúvida, cobrir esse lado.»

Evolução tremenda

O analista acredita que, apesar de a sua evolução ter sido uma surpresa face ao ponto de partida há sete ou oito anos, Beste pode resolver o problema do lado esquerdo da defesa encarnada, por onde passaram na última época Jurásek, Bernat (muito pouco, devido às lesões), Morato, Aursnes e Carreras.

«Não vi os números do negócio, mas é bastante interessante. Se me dissessem em 2017 ou 2018 que ele ia jogar no Benfica, acho que não seria o único a rir. Foi muito bom na segunda Bundesliga há dois anos e, na Bundesliga, na época passada, mostrou que não foi um acaso. Por isso sim, provavelmente fará um trabalho bastante decente, uma vez que, do que me lembro, o Benfica tem tido dificuldades em encontrar um substituto de Grimaldo», concluiu.