Di María nunca teve tanto peso sobre os ombros como no Benfica
Di María

Di María nunca teve tanto peso sobre os ombros como no Benfica

NACIONAL28.12.202316:30

Inédito na carreira: é o melhor marcador da equipa na viragem do ano; segundo melhor registo absoluto na primeira metade da temporada

Di María nunca tinha sido o melhor marcador da sua equipa na viragem do ano civil. Aquilo que está a viver no Benfica é inédito na carreira, uma vez que mesmo em anos em que marcou tantos ou mais golos como os que leva atualmente ao serviço das águias, teve sempre alguém (no caso, avançados) a apresentar números superiores aos seus. 

Pela primeira vez desde que trocou o Rosário Central pelo futebol europeu (em 2007, quando se transferiu para o Benfica, aos 19 anos), Angelito tem este peso nos ombros: sabe que fica mais difícil ganhar se não for ele a faturar.

Em termos absolutos esta é a primeira metade da temporada mais goleadora de uma longa e profícua carreira. Os nove golos apontados pelos encarnados em todas as provas iguala o registo de 2015/2016, no Paris Saint-Germain, e só é ultrapassado pelos 10 golos, também no clube parisiense, em 2019/2020. 

Variação goleadora de Di María no Velho Continente

A diferença dessas épocas para o que está a suceder atualmente na formação dirigida por Roger Schmidt é o nível de dependência do atual campeão do mundo. Em 2015/2016 o melhor marcador do PSG não era o esquerdino, já que esse estatuto pertencia a Zlatan Ibrahimovic; em 2019/2020 o mesmo sucedia com outra estrela do futebol internacional, no caso o vice-campeão do mundo (mas vencedor em 2018) Kylian Mbappé

Quase tanto como três

No Benfica, ao invés, o único jogador que se aproxima da marca goleadora do camisola 11 é Rafa (que não é um ponta de lança), com oito golos. No que aos pontas de lança diz respeito, a soma dos três em causa dá apenas mais um que o total do extremo de 35 anos: Petar Musa soma quatro, Tengstedt marcou três e Arthur Cabral outros três. Isto pode ser lido de duas maneiras: se por um lado Di María está numa boa forma, por outro significa que os avançados estão ainda muito aquém do que podiam e deviam fazer.

Pior fase no pior da equipa

O regresso de Angel Di María ao Benfica 13 anos depois de ter saído começou de forma enérgica. O internacional argentino marcou logo na estreia e frente ao FC Porto, ajudando as águias a iniciarem a época com um troféu, no caso a Supertaça de Portugal, disputada em Aveiro, com o resultado final a fixar-se em 2-0 (Musa fez o segundo da equipa).

Seguiu-se depois um golo no Bessa, mas num jogo de má memória para as águias, face ao resultado final (derrota por 2-3), e mais dois golos nas três jornadas seguintes (nos triunfos por 3-2 com o Gil Vicente, em Barcelos, e 4-1 na Luz frente ao V. Guimarães. Depois esperou apenas três partidas para marcar (2-1 em Vizela) e dois jogos depois decidia novamente o clássico diante dos dragões, apontando o único golo do jogo. 

A pior fase veio a seguir e coincidiu com o pior momento coletivo: fez apenas um golo em 12 partidas, período no qual o Benfica venceu apenas por sete vezes, somando duas derrotas e três empates.

Por coincidência (ou talvez não) a recuperação anímica das águias voltou a ter o denominador GDM (golo Di María): pela primeira vez desde setembro a equipa venceu três jogos seguidos (Salzburgo, SC Braga e Aves SAD), com o esquerdino a faturar em dois deles. É, talvez inesperadamente, o goleador de inverno.

O elogio de Nenê, goleador de 40 anos: 

«Profissionalismo é o segredo da longevidade»

Competir ao mais alto nível aos 35 anos e mesmo atuando numa posição tão desgastante não está ao nível de todos. Di María tem mostrado que do ponto de vista físico está muito melhor do que há um ano, ao serviço da Juventus. Quem o notou em campo foi Nenê, o goleador do Aves SAD, último adversário dos encarnados em jogos oficiais, em partida da Taça da Liga, que as águias venceram no Estádio da Luz (4-1). 

Celebração de uma idade assinalável (Foto: Helena Valente/ASF)

«Di María continua a ter qualidade máxima». Aos 40 anos, o ponta de lança brasileiro do vice-líder da Liga 2 é um caso de sucesso de longevidade nos campeonatos profissionais. Vencedor de uma A BOLA de Prata em 2009, ao serviço do Nacional, Nenê soma 10 golos em todas as competições, quase metade dos golos da equipa dirigida por Jorge Costa (23).

«Ganhou um Mundial e mantém-se em forma. Tenho um grande respeito por ele tal como ele mostrou ter respeito por mim no último jogo», disse o avançado, apontando o principal segredo para a longevidade: «Profissionalismo.»

Nenê cumprimentando Tomás Araújo na recente visita do Aves SAD à Luz (Foto: Miguel Nunes/ASF)

«Há cada vez mais um trabalho  nos clubes que nos permite atingir um alto nível em certas idades. Tem a ver com o que fazemos no ginásio, os profissionais que vamos encontrando na carreira que nos vão ajudando. Além disso há que ter em conta a alimentação, o descanso na hora certa, a forma como se faz a recuperação, o tipo de aquecimento. Os estudos têm evidenciado que um tipo específico de ginásio ajuda a prolongar a carreira», detalha Nenê. 

Mas há outro fator diferenciador que traça a linha entre aqueles que só chegam a um determinado limite e os outros que o ultrapassam para lá do imaginável: «Mesmo que um jogador profissional tenha um staff técnico a apoiá-lo, se ele não se dedicar não conseguirá chegar a um patamar tão alto como o nosso.»

Nenê assume que nem sempre os clubes apostam em jogadores tão experientes. Casos como o seu (e, noutra escala, o de Di María no Benfica) são exceções à regra: «Os clubes preferem apostar em jogadores muito jovens porque querem ganhar dinheiro. Eu percebo isso.»

Avançado brasileiro em ação na Liga 2 (Foto: Paulo Santos/ASF)

Mas enquanto outros não chegam para roubar o lugar a quem já viu muitas voltas ao sol, resta o empenho máximo em cada treino como se fosse o último. «É gratificante, por exemplo, ouvir na TV dizerem que tenho nível para jogar numa primeira liga. Tenho de agradecer a todos os que trabalham comigo. Tem tudo a ver com profissionalismo e dedicação.»

E termina com um exemplo: «Nos treinos, temos muitas oportunidades para finalizar, mas nos jogos às vezes só temos um. Quando erramos no treino, temos de nos cobrar muito a nós próprios.» Este é um tipo de exigência que, admite, vem com a idade. Noutra palavra: sabedoria.

Décimo mais valioso com mais de 34 anos

Di María ainda tem um valor de mercado de cinco milhões de euros, segundo o transfermarkt, o que faz dele o décimojogador mais valioso do mundo acima dos 34 anos. 

A lista é encabeçada por Lionel Messi (Inter Miami) que aos 36 anos ainda vale €35 milhões, seguindo-se Lewandowski (Barcelona, 35 anos) com um valor €20 milhões, Benzema (Al Ittihad, 36 anos) com €15 milhões, a mesma avaliação feita a Cristiano Ronaldo (Al Nassr, 38 anos). Surge depois Thomas Muller (Bayern, 34 anos) com €10 milhões, Modric (Real Madrid, 38 anos) com €10 milhões, Marcus Reus (Dortmund, 34 anos) com sete milhões de euros, Mkhitaryan (Inter, 34 anos) e Mats Hummels (Dortmund, 35 anos), ambos avaliados em €6 milhões. O benfiquista fecha o top 10, com €5 milhões, mesmo valor de Yann Sommer (Inter, 35 anos), Marko Arnautovic (Inter, 34 anos) e Dusan Tadic (Fenerbahçe, 35 anos).

Di María e Messi, próximos até nos 'rankings' (Foto: Julieta Ferrario(IMAGO)

Mas se a análise versar os jogadores desta faixa etária que terminam contrato no final da época o campeão do mundo pela Argentina salta para o quinto lugar dos mais valiosos, atrás de Modric, Reus, Mkhitaryan e Hummels.

Estes dados, sempre com base no algoritmo da famosa plataforma de avaliação de futebolistas, servem apenas como referência para compreender contextos. Mas ajuda, por exemplo, a perceber que Di María ainda não faz parte daquele lote de futebolistas que há um par de anos ia gozar a reforma nos Estados Unidos ou no Catar.

O atacante esquerdino assinou pelo Benfica apenas por uma temporada, tendo recebido convites muito atrativos do ponto de vista financeiro (Arábia Saudita) e de projeto (Inter Miami do amigo e compatriota Lionel Messi), mas optando por uma escolha sentimental, já que queria voltar ao clube que o projetou no futebol europeu (2007 a 2010, ano em que foi transferido para o Real Madrid, por €33 milhões), num passo que será a antecâmara do regresso ao emblema da terra e onde foi formado, o Rosário Central.

O presidente do Benfica, Rui Costa, afirmou em setembro que iria tentar convencer Di María a ficar mais um ano na Luz, mas daí para cá não houve desenvolvimentos e provavelmente não haverá até ao final da época, momento em que El Fideo tomará uma decisão quanto ao futuro. Até lá quer conquistar o maior número de títulos, incluindo a Liga Europa. «Disse a Rui Costa que este é o único título que me falta», afirmou, no final do jogo em Salzburgo. Para uma saída pela porta grande?

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