A árbitra de 14 anos que resiste ao frio e à chuva de insultos
Lara Santos tem 14 anos e é árbitra (Ivo Martins/ASF)

DIA DA MULHER A árbitra de 14 anos que resiste ao frio e à chuva de insultos

NACIONAL08.03.202411:30

Lara Santos é um caso raro de amor precoce pela arbitragem; Pai incentivou-a, mas arrepende-se… semanalmente

A chuva é tão intensa que praticamente apaga o castelo que habitualmente se vê de forma nítida dali do Campo das Lages. Mas não há problema. Porque esta não é uma história de princesas. E aquelas muralhas são apenas apontamento no cenário de mais um domingo frio e chuvoso em que Lara Santos saiu de casa cedo para vestir calções, t-shirt e uma coragem que a nós nos gela, para arbitrar um jogo de sub-10.

O Campo das Lages tem vista privilegiada para o castelo de Montemor-o-Velho (Ivo Martins/ASF)

Quais castelos, quais quê! Bárbaros só mesmo alguns pais/adeptos como os que na semana anterior tinham tentado saltar a vedação para ir bater no jovem árbitro, ao mesmo tempo que mandavam «mamar» a assistente. Mas essa assistente, a Lara, pelas contas feitas aos 14 anos de vida, já nasceu bem dentro do século XXI. Nem precisa de armadura para se defender de bocas vindas da Idade Média.

«É uma pressão que tem coisas boas e outras negativas. Também temos de saber lidar com as coisas más», desvaloriza em conversa com A BOLA.

«O mais difícil é mesmo o que vem da bancada, mas eu sei que vão sempre insultar, mesmo que façamos o nosso trabalho bem», enaltece, já equipada, minutos antes de sair para o campo para dirigir mais um jogo.

Lara Santos, árbitra (Ivo Martins/ASF)

De resto, mais do que uma armadura, talvez o que fizesse falta fosse um impermeável. Ou uma camisola mais quente que fosse. Mas até isso a jovem árbitra relativiza.

«Estes dias de frio e muita chuva são duros em termos psicológicos. É difícil estar ali tanto tempo ao frio e à chuva, e continuar a prestar atenção ao jogo. Há duas semanas, estive duas horas seguidas à chuva, a apitar dois jogos, com a roupa toda molhada no corpo. Nunca senti tanto frio na minha vida. E isso custa, mas é o menos», desvaloriza.

Lara Santos, árbitra (Ivo Martins/ASF)

Afinal, apesar de ser pouco habitual ver árbitras tão jovens, foi Lara que quis seguir esse caminho. E não será a chuva e o frio a travarem-na. «Claro que era mais fácil ficar em casa, mas eu gosto disto e quero chegar a árbitra profissional, se possível. Tenho de continuar a aprender e evoluir», receita.

«Não fui feita para jogar futebol»

Na verdade, a ideia da arbitragem não surgiu espontaneamente na cabeça da menina de Marvão, concelho de Cantanhede. Foi quase um desafio lançado por amigos do pai que são árbitros e conheciam o gosto de Lara pelo futebol. Sim, sabemos a questão que está a pensar: mas porquê arbitrar e não jogar? Também a fizemos.

«Eu nunca joguei futebol a sério. Gosto, mas jogava na escola e percebi logo que não fui feita para jogar», atira, sorridente. «Não tinha jeito e por isso não me cativava. Então, por que não apitar? É que sem árbitros, o que seria dos jogadores?», acrescenta.

Passaram quase cinco meses desde que subiu pela primeira vez a um campo como árbitra, depois de ter concluído a formação teórica com 13 anos e ter esperado quase um ano para ter a idade mínima para apitar um jogo. Mas as emoções vividas naquela manhã de outubro continuam bem vivas na memória.

«O meu primeiro jogo foi uma coisa que eu não estava mesmo à espera. Foi uma explosão de sentimentos que me veio quando entrei no campo. Senti logo aquela pressão que existe sobre os árbitros e com a qual é difícil de lidar. Mas agora já estou mais habituada», assegura, partilhando algumas das dificuldades sentidas.

Lara Santos, árbitra (Ivo Martins/ASF)

«Os primeiros jogos foram muito difíceis para mim. Porque eu nunca sabia o que me esperava. É mesmo difícil estar lá dentro. Por vezes estamos no campo, sabemos o que temos de fazer, conhecemos as regras, mas a pressão parece que nos faz esquecer de tudo. Bloqueamos! Isso aconteceu-me nos primeiros jogos. Agora estou a aprender a lidar melhor com essa pressão», resume a jovem.

«Não fui feita para jogar futebol»

Quem também sente as “dores de crescimento” de Lara é o pai, Eric Santos. Mas se a filha se mantém imperturbável na intenção de continuar na arbitragem, o pai… nem tanto. «De certa maneira, sou o responsável, sim. Mas já me arrependi. Logo nos primeiros jogos arrependi-me um bocado de a ter incentivado. Mas é o que ela diz: “pai, agora vou”. Ela agarrou o bichinho e ninguém a vai parar», nota, sem esconder um sorriso orgulhoso que não é abalado nem pelos episódios a que já assistiu em jogos dirigidos pela filha.

Erci Santos acompanha sempre a filha, Lara, aos jogos que ela vai dirigir (Ivo Martins/ASF)

«É difícil lidar com as bancadas. Por causa dos pais, que são injustos. Mas acho que até é mais difícil para mim do que para ela», sublinha. «Na semana passada, houve um pai que quis entrar no campo, trepou a rede e só não conseguiu chegar ao árbitro porque a rede era alta. Ela estava a fazer de fiscal de linha, insultaram-na, mandaram uma miúda de 14 anos “ir mamar”! E eu estava ali caladinho a assistir. Mas às vezes custa», reforça, não escondendo alguma revolta.

O sentimento predominante quando vê a filha em campo, contudo, é bem distinto. «Sinto muito orgulho dela, até pela idade que tem. Não se veem muitas miúdas de 14 anos já com este tipo de responsabilidade», diz, no preciso momento em que, atrás de si, Lara acaba de assinalar um penálti. «Ah, não vi!», atira sorridente enquanto espreita por cima do ombro.

E apesar do arrependimento que confessara instantes antes, Eric não tem dúvidas de que esta é uma atividade que, além de ser do agrado da filha, lhe dá ferramentas que lhe são úteis no dia-a-dia. «Isto não é só futebol. A arbitragem traz-lhe coisas muito importantes. Por exemplo, ajudá-la a manter o foco. Ela tinha essa dificuldade – e ainda tem um bocado – de estar concentrada durante muito tempo. E traz-lhe também responsabilidade», reconhece.

Mas não haveria outras formas de fomentar isso na educação da filha? «Há hobbies mais fáceis, sim. Mas este dá luta, como ela diz. E ela gosta, que é o mais importante», reage de pronto.

Eric Santos incentivou a filha Lara a experimentar a arbitragem (Ivo Martins/ASF)

«Tem de ser uma pessoa muito especial»

Quem também não esconde o orgulho pelo exemplo dado pela Lara é Roberto Rodrigues, presidente do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol de Coimbra, que continua a espantar-se com a força de vontade da jovem juíza.

«Ela acabou o curso quando ainda faltava um ano para poder apitar. E na verdade, pensávamos que tirava a parte teórica e depois não vinha mais. Mas ela fez pressão para vir, e nós achámos isso muito interessante e nunca mais a largámos. Porque há muito poucos casos de jovens de tão tenra idade queiram vir para a arbitragem», explica.

E até mais difícil do que recrutar e formar árbitros é mantê-los em atividade, acrescenta, sublinhando o exemplo de superação que Lara está a mostrar naquele momento em que temos de nos abrigar num balneário para conversar sem ficarmos ensopados.

«Está a chover torrencialmente, está muito frio, e esta miúda de 14 anos sai do quentinho e do conforto do lar para vir para um campo de futebol arbitrar. É preciso ser uma pessoa muito especial!», aponta. «Por isso, eu digo que precisamos de mais Laras. A arbitragem necessita de ter mais meninas que queiram ser árbitras porque o futebol feminino vai explodir na próxima década, as mulheres vão dominar, e precisamos que a arbitragem tenha recursos humanos para responder a esse crescimento», acrescenta.

Sem muito tempo para se preocupar ainda com esse futuro que também prevê, e já com o jogo terminado, Lara pede ao pai para não a distrair no momento de preencher o boletim de jogo. E só depois disso é que vai começar a pensar no teste de francês do 9.º ano para o qual vai estudar à tarde.

«Mas agora ainda demoro um bocado a acalmar dos nervos do jogo. Ainda me estou a habituar», atira, sempre sorridente, na despedida.

Cumprido o dever, é hora de voltar a ser uma normal miúda de 14 anos. No próximo fim de semana há mais.

Lara Santos, árbitra (Ivo Martins/ASF)