Schmidt em bom português e o Absurdistão cá do burgo
Roger Schmidt no banco do Benfica. Foto: IMAGO/HMB-Media

Schmidt em bom português e o Absurdistão cá do burgo

OPINIÃO04.12.202319:12

O alemão tem sentido a pressão sobretudo no momento do confronto com os jornalistas, mas isso será mesmo sinal de que está perdido?; é justo pedir a cabeça de um campeão tão cedo na temporada?

O homem não é perfeito. Logo, não há treinadores perfeitos. Se mesmo Guardiola, talvez o melhor que até agora a História do jogo viu, tem as suas debilidades, que provavelmente nunca resolverá por completo por mais equações que invente e reformule, o que dizer dos outros? 

Como todos os pares, Roger Schmidt não é perfeito, tenhamos isso, desde já, bem claro. Está, se quisermos aprofundar o tema, muito mais longe da perfeição do que outros, caso contrário estaria num país onde provavelmente a língua em que se dirige aos jornalistas seria tudo menos tema. 

Quem analisou o seu passado, sabe que quando o alemão chegou à Luz ainda perseguia a melhor versão de si mesmo. Diziam-no os escassos títulos e o equilíbrio ainda não encontrado em campo. 

No Benfica, começou por correr bem, talvez até bem demais. Acertou nas peças em que tinha de acertar, viu coisas que ninguém tinha visto (Chiquinho como médio-centro, por exemplo), fez apostas que nenhum outro tinha feito (João Neves e Gonçalo Ramos, neste caso de uma forma mais efetiva) e, se é verdade que acabou com uma margem curta, as águias passaram de um terceiro lugar distante dos rivais para um título de campeão e uma boa prestação na Liga dos Campeões

Mesmo assim, houve gente insatisfeita, só capaz de olhar para os defeitos. É difícil dizer que tenha acabado a temporada em estado de graça. Se o teve em algum momento perdeu-o com a derrota diante do FC Porto e com o que aconteceu depois.

A Europa que penaliza a falta de consolidação 

Nesta época é na Europa, precisamente, que tem falhado. Não se esperava tão pouco, mas é precisamente aí que mais se penalizam estruturas por consolidar, o tempo de reconstrução que não se conseguiu encurtar com um bom mercado. 

Na Liga, é 1.º, seja a curto ou a longo prazo, já bateu dois dos três rivais, ganhou a Supertaça. Vai ser campeão? Não sei, porém também não é claro que não o será. Quando todos apontavam o descalabro, sobreviveu. E, sobretudo, e é o que mais valorizo concorde ou não com o processo e algumas das suas decisões, já se reinventou várias vezes, sem que com isso tenha perdido a identidade. Está perdido? Pode nunca encontrar uma solução que o mantenha vencedor, mas tenho dúvidas de que o esteja. Melhor, estará a reagir mal à pressão no contacto com os jornalistas, contudo a maior parte das decisões mantém a linha anterior.

É verdade que neste país tudo é volátil, mas pensar-se na cabeça de Schmidt antes de um dérbi, mesmo que o perdesse, é surreal. Pensar-se agora depois de um nulo em Moreira de Cónegos continua a sê-lo. Temos tantos exemplos de treinadores que estiveram épocas sem nada ganhar, inclusive por cá, que agora até se cai em cima de quem já ganhou quando se veem fragilidades. É só estranho para mim? Vivemos numa espécie de Absurdistão.

É verdade, peço desculpa aos fervorosos críticos! Schmidt podia ter aprendido português. Não o fez e tornou-se novo escândalo nacional. O alemão podia ter feito o que fez Guardiola ou o que faz sempre Mourinho. Ou até Roberto Martínez. Apresentava-se já a falar na língua do país para onde vinha trabalhar. É uma opção. Nem todos têm essa apetência. Melhoraria a comunicação com a Imprensa? Tenho dúvidas. Ou achamos que a sua irascibilidade de fácil detonação, que os resultados positivos foram camuflando e que não é novidade nem nele nem nesta Liga, naquela célebre rábula do «é do Sporting ou do FC Porto», teria sido menor falta de respeito para os jornalistas se tivesse sido em português?

Melhoraria a comunicação com os jogadores? Não necessariamente. É uma forma de respeito pela cultura e pelo país? Talvez sim, mas há tantas outras formas de o demonstrar. É, de certeza, uma forma de cair no goto, começar a ganhar pontos junto da Imprensa. Preparar o futuro. E, mesmo assim, olhe-se para o tempo que o selecionador nacional teve de resistir a críticas. Talvez haja mesmo quem ainda não esteja convencido, mesmo depois de ter caído o recorde na fase de apuramento.

Falar português não é uma questão de respeito, é sim, mais uma vez o politicamente correto, que para mim vale pouco. Se o técnico o tivesse considerado necessário já há muito o teria aprendido, ou estaremos todos a esquecer que ele não está a usar a língua materna para comunicar?

Mercado a apontar para a rotação e não para real reforço 

Vem aí o mercado, e o Benfica terá de ser mais assertivo do que nunca, já sem o fôlego que os prémios de uma Liga dos Campeões poderiam ter dado. O que tem transpirado não faz perspetivar para já mais do que dar um pouco mais de profundidade ao grupo, o que poderá parecer pouco face ao momento de alguns jogadores – Rafa, joga sempre e cada vez menos, define ainda pior quando a equipa precisa sobretudo de uma boa tomada de decisão, aproxima-se do final de contrato e, ainda por cima, parece pouco tolerante à crítica dos adeptos – e mesmo Di María – que já vive o drama de querer fazer coisas que a idade não lhe permite – talvez sejam os casos mais flagrantes.

A última crítica, embora recorrente desde a saída de Vlachodimos, apontada a Schmidt é que terá perdido o balneário e que não tem transparecido nas partidas. Não é por correr ou lutar menos que o Benfica tem sofrido, a atitude mantém-se a um nível que o discernimento demora a alcançar.

Não quero dizer com tudo isto que se deve deixar de ser crítico com o alemão. Que se deixe de ser exigente e de se questionar, bem pelo contrário. Apenas que a crítica deve, sim, ser justa. Acho que, nisso, Schmidt também merece respeito.