Lance impetuoso no clássico da Taça de Portugal no Dragão (Catarina Morais)

No Dragão não chega futebol

No Dragão voltou a ganhar quem estava melhor preparado para enfrentar o fervor da batalha. E quem quis mais foi quem percebeu que ali não se joga apenas futebol. Sobrevive-se, para ganhar

É no Dragão que se separa o futebol jogado do futebol sentido. O Benfica não perdeu apenas jogo decisivo da Taça de Portugal, da época, perdeu - outra vez... - o confronto com a sua própria imagem, sem a noção inabalável do que é jogar num estádio destes como quem entra numa batalha - física e mental — sabendo que cada bola dividida vale mais do que um esquema bonito no quadro tático.

No Dragão voltou a ganhar quem quis mais, quem estava melhor preparado para enfrentar o fervor da batalha. E quem quis mais foi quem percebeu que ali não se joga apenas futebol. Sobrevive-se, para ganhar.

O Porto percebeu isso desde o apito inicial. O Benfica, quando percebeu, já estava a perder. Há derrotas que se explicam por detalhes. Esta explica-se por um vazio. Vazio competitivo, vazio emocional, vazio de liderança dentro de campo. Não basta ter bola se não se sabe o que fazer com ela. Não basta criar se se falha com a leveza de quem não sente o peso do símbolo ao peito. No Dragão, a displicência paga-se caro. Sempre pagou.

O FC Porto fez pouco, é verdade. Mas fez o suficiente. E fez o que tinha de fazer: jogar o jogo que o jogo pedia. Defender como equipa, morder em cada lance, transformar cada canto num momento de perigo e viver do erro alheio. Futebol também é isto. Sobretudo em jogos grandes.

O Benfica, esse, continua à procura de si próprio. Procura uma identidade que não aparece, uma confiança que não existe, uma reação que nunca chega. Janeiro expõe tudo. E os números não mentem: eliminado cedo nas taças, longe do título, irrelevante na Europa. Uma soma de fracassos que já não cabe no discurso da transição, do projeto ou da paciência.

Para o adepto, a época acabou. Acabou emocionalmente, acabou na crença, acabou na esperança. O resto é contabilidade. Para a SAD, para os relatórios, para os 40 milhões da Champions. Para quem está na bancada, isso não aquece nem consola. O futebol vive de vitórias, não de balanços financeiros.

Quanto a Mourinho, o crédito existe — porque o nome pesa e a história conta. Mas o crédito não é infinito. O Benfica não pode normalizar épocas falhadas. Não pode aceitar como destino aquilo que devia ser exceção. Começar a próxima temporada será um direito já conquistado. Legítimo.