Dedic e Kiwior num dos muitos duelos no clássico do Dragão - Foto: IMAGO

FC Porto-Benfica: ideias e questões em aberto depois do clássico do Dragão

O FC Porto venceu o clássico e qualificou-se para as meias-finais da Taça. O Benfica soma a desilusão da Taça da Liga a mais uma competição perdida. Mas o que ficou do jogo do Dragão? 'Bola Descoberta' é o espaço de opinião do treinador Laurindo Filho.

Ideias e questões que o FC Porto-Benfica dos quartos de final da Taça de Portugal deixa em aberto:

Organização defensiva

FC Porto confortável em 1x5x4x1 e até em 1x6x3x1 compacto, em especial a partir dos 65 minutos, fechando espaços interiores e obrigando o Benfica a procurar jogo exterior e situações de cruzamento para controlo total de Bednarek, Kiwior, Thiago Silva e Pablo Rosario;

Benfica menos tempo do que o habitual neste momento do jogo, mas sempre em 1x4x4x2 clássico, com as habituais dificuldades em bascular em conjunto e garantir coberturas eficazes.

Organização ofensiva

FC Porto em 1x2x3x2x3 em Fase de Construção, com alternância na forma de ligar o jogo. Ora solicitando Samu (muito bem a servir de jogador alvo para ligar de frente com Froholdt e Gabri Veiga ou servir no espaço Borja Sainz e Pepê), ora buscando a profundidade nas costas dos laterais encarnados com passe de ligação directa para Sainz ou Pepê;

Na Fase de Criação, a habitual simplicidade de processos. Apoios frontais e à retaguarda accionados para sair de zonas de pressão e variar centro do jogo. Hoje com Samu a ser muito e bem aproveitado para criar Dinâmicas de Terceiro Homem;

Na Fase de Finalização, apesar da chegada com várias unidades às imediações da baliza encarnada, a menor qualidade na tomada de decisão e o enorme acerto defensivo de Tomás Araújo, António Silva e Dahl contribuíram para uma menor criação de oportunidades de golo (face ao habitual);

Benfica em 1x4x2x3x1, com laterais baixos, na Fase de Construção. O encaixe em bloco dos jogadores portistas impediu saída de bola limpa, obrigando Pavlidis a surgir como Homem Livre ou gerador de Dinâmicas de Terceiro Homem, sem que isso se traduzisse posteriormente em vantagens numéricas ou posicionais por parte dos encarnados;

Na Fase de Criação, a já afamada falta de criatividade coletiva e a não complementaridade de perfis/características dos jogadores. Pouca dinâmica sobre o corredor central (em especial quando Pavlidis baixava para ligar jogo. Barreiro apressava-se a buscar a profundidade, Cabral idem, Prestianni idem aspas, com Aursnes e Rios a ficarem estáticos). Ocupação simultânea dos mesmos espaços sobre o corredor direito por parte de Dedic e Prestianni, inexistência de largura e profundidade sobre o flanco esquerdo.

Transição defensiva

Dragões muito competentes quer na reação à perda de bola (sem e com recurso à falta), quer na transição para defesa de baliza, graças ao enorme sentido coletivo e à fisicalidade dos seus jogadores;

Águias menos confortáveis neste momento do jogo, em especial quando o seu primeiro bloco de pressão era batido. Em campo aberto, Gabri Veiga e Froholdt, essencialmente, tiveram várias situações de chegada às zonas de decisão e finalização.

Transição ofensiva

Portistas muito fortes até ao último terço do tempo de jogo. Com comportamentos bem enraizados assentes num rigor posicional tipicamente italiano, o FC Porto acelerou sempre que encontrou espaços para chegar à baliza de Trubin. E não raras vezes chegou com bastantes unidades às zonas de finalização;

Benfiquistas com dificuldades de ligação para sair com eficácia e critério para o ataque rápido organizado e contra-ataque. A falta de rotinas e complementaridade do tridente ofensivo no apoio a Pavlidis ajuda a explicar a pouca qualidade apresentada neste momento do jogo.

Esquemas táticos

FC Porto mais confortável a defender bolas paradas defensivas do que o Benfica. Morfologia dos jogadores ajuda a explicar parte desse conforto. Agressividade defensiva imposta explica outra parte. Encaixes individuais promovidos pelos treinadores decisivos para o desfecho do jogo. Consequentemente e pelas mesmas razões, FC Porto mais perigoso em lances de bola parada ofensiva.

Destaques do FC Porto

Thiago Silva — Quem diria que tem 41 anos e estava há um mês sem competir oficialmente;

Pablo Rosário — O MVP da partida, a meu ver. Com e sem bola, um esteio na manobra coletiva da equipa. A jogar assim, Alan Varela terá de esperar para regressar ao onze inicial;

Samu — Cada vez mais confortável e confiante em ações como apoio frontal. Assertivo na tomada de decisão e melhor na execução técnica. Importante na pressão alta exercida pela equipa, tanto a fechar linhas de passe, como a direcionar a pressão;

Rodrigo Mora — Não protagonizou nenhum slalom ofensivo como tanto gostamos de o ver fazer. Mas soube ler o jogo do ponto de vista emocional e foi o jogador que a equipa precisava com e sem bola.

Destaques do Benfica

Tomás Araújo e António Silva — Os únicos jogadores complementares do onze inicial encarnado. Permitiram a Mourinho apostar num bloco alto pressionante. Silva teve a braçadeira, mas Araújo foi o líder da equipa. Ambos estiveram bem no plano defensivo, tendo sido fundamentais para que o FC Porto tivesse marcado apenas um golo. Alguém deu por falta de Otamendi?

Dahl — Muito bem no plano defensivo, tanto nos duelos individuais, como nas compensações efectuadas aos colegas de setor. A limar arestas essenciais para se afirmar como lateral-esquerdo;

Pavlidis — O melhor pensador, armador, criador, finalizador encarnado. Um solista numa orquestra que não toca a mesma música que o grego. Desgasta-se a desempenhar tarefas que deveriam estar destinadas a outros jogadores.

Para pensar no FC Porto

— Como irá Farioli montar a sua linha defensiva quando Francisco Moura regressar de lesão?

Com a crescente importância de Samu na manobra ofensiva da equipa, em especial pelos espaços que ajuda a criar, como irá reagir o FC Porto perante uma eventual ausência do espanhol?

Para pensar no Benfica

— Escolha das marcações individuais nas bolas paradas defensivas. Barreiro não pode ser incumbido de marcar Bednarek homem a homem;

A opção por um bloco alto pressionante foi ato de coragem e uma mensagem positiva para a equipa. Mas enquanto os dragões pressionam a todo o gás para recuperar a bola, as águias pressionam para condicionar. Os portistas desdobram-se para a frente em compensações, os benfiquistas optam por não o fazer. Com prejuízos claros para si próprios;

— Olhando para o perfil de Martim Fernandes e Kiwior, não teria sido melhor ter Prestianni sobre a esquerda e Cabral à direita? Até mesmo porque Sidny é ambidestro e teria muito mais facilidade em visar a baliza derivando para dentro do que o argentino (mesmo que não tivessem iniciado assim, não houve ninguém no banco de suplentes a ter esta leitura?);

Seria possível encontrar outro tipo de posicionamentos que pudessem facilitar a saída de bola sob pressão? Por exemplo, Dahl não seria muito mais útil nas Fases de Construção e de Criação posicionado enquanto MCE em vez de LE?;

Dada a inexistência de jogo interior, a chegada às zonas de finalização com poucas unidades e dado o excessivo recurso ao jogo exterior com situações de cruzamento, não seria melhor actuar com dois avançados?;

Tendo em conta que Pavlidis está constantemente a ter de ajudar a equipa a ligar jogo e os jogadores à sua volta não têm características e timings indicados para surgir na zona deixada em aberto pelo grego, não seria aconselhável a utilização de dois avançados?;

— Depois da complementaridade vista hoje, Otamendi regressará à titularidade? Em detrimento de quem?