Damien Touzé/Instagram
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«Vou morrer, diz ao nosso filho que o amo»: o relato após queda na Volta a Omã

Damien Touzé sofreu queda grave e primeiro hospital para que foi levado não estava preparado

Damien Touzé, corredor da Cofidis, partilhou a terrível experiência após uma grave queda no Tour de Omã, a 10 de fevereiro, que o deixou à beira da morte num hospital local. O atleta francês, de 29 anos, chegou mesmo a ligar à sua mulher, Sofía, para se despedir.

O ciclista confirmou, em entrevista ao jornal L'Equipe, a sensação de que estava a perder as forças: «Tinha a estranha sensação de que me estava a desvanecer». A situação foi agravada por um diagnóstico inicial incorreto e pelas condições precárias do primeiro hospital para onde foi levado.

«Depois do acidente, não sentia dor nenhuma, mas quando o diretor desportivo (Gorka Gerrikagoitia) chegou, vi no rosto dele que não estava tranquilo. Não queria ficar sozinho; tinha medo, num país que não conhecia... Num hospital improvisado, sem máquina de raios-x», recordou Touzé. «Ali não puderam fazer mais do que dar-me uns pontos na coxa. Via os médicos preocupados; percebia que era grave, mas com a dor, estava um pouco perdido».

Após a transferência para outra unidade hospitalar, foi descoberta uma rotura do baço. O seu quadro clínico piorou drasticamente, com febre de 40 graus e uma frequência cardíaca em repouso de 100 pulsações por minuto. «Depois de uma noite, quando a médica da Cofidis (Annemie Batjoens) voltou a ver-me, eu estava completamente fora de mim. A cada hora que passava, piorava mais e mais», relatou.

A própria médica descreveu a gravidade da situação: «No início, mencionaram a lesão na perna, mas vi que o mais grave era o traumatismo abdominal. O primeiro hospital era demasiado pequeno para este tipo de lesão. Não queria deixá-lo sozinho em condições tão precárias. Só tinha um paciente, mas trabalhei dia e noite porque não confiava neles».

Suspeitando de uma perfuração intestinal, a médica insistiu na necessidade de uma cirurgia de urgência e alertou o ciclista para o risco de vida. «A médica foi sincera comigo; podia acontecer que eu não acordasse. Estava a chorar no hospital. No início, recusei-me a acreditar, não queria ligar à Sofía, preferia esperar pelo dia seguinte, mas a médica insistiu: 'Pode ser que não voltes a falar com ela'. Peguei no telefone e, infelizmente, despedi-me dela», contou Touzé.

A mulher, Sofia, recordou também momentos de aflição. «Eu estava a trabalhar, não estava a ver a corrida. Quando o Damien me ligou, nem sabia que ele tinha caído, estava a chorar. Disse-me: 'Vou morrer. Diz ao nosso filho que o amo'», contou Sofía. «Explicou-me que no hospital lhe diagnosticaram uma fratura da pélvis e do fémur. Tranquilizei-o, dizendo que não se podia morrer por causa disso. Mas, no fundo, sentia que era algo mais grave».

As condições no hospital eram surreais. «Puseram-me perto dos caixotes do lixo, havia moscas, um homem andava a pulverizar inseticida para desinfetar», descreveu. A sua companheira, Sofía, chegou a gravar um vídeo onde um profissional de saúde lhe abria o abdómen com uma tesoura para drenar pus.

Finalmente, o casal conseguiu a transferência para a Bélgica, onde Touzé foi submetido a uma operação de cinco horas. Foi então que se descobriu mais um erro médico grave. «Perceberam que, em Omã, os médicos não me tinham fechado a parede abdominal; os meus órgãos estavam em contacto com a pele. Por isso, quando me espetaram a tesoura na barriga, estavam a atingir-me os órgãos; era como se me estivessem a esfaquear», explicou o corredor.

Recuperação e futuro

Com uma paragem estimada entre oito a nove meses e uma lesão grave no joelho esquerdo - fratura na parte superior da tíbia, rotura dos ligamentos cruzados, medial e lateral -, o futuro de Damien Touzé no ciclismo é uma incógnita, mas já começou o processo de reabilitação, mostrando num vídeo vários exercícios de fisioterapia.

«Quero voltar a subir para a bicicleta e ver como me sinto. Mas sejamos realistas. Um ano sem andar, mesmo que renove o meu contrato, não vou estar a competir em março! Os contratos são assinados cada vez mais cedo, e se isso significar voltar ao pelotão sem estar ao nível certo... Talvez tenha de tomar uma decisão sem saber se poderei voltar a andar de bicicleta», admitiu.