Festa rija do Torreense após a inédita conquista da Taça de Portugal, diante do Sporting — Foto: LUSA
Festa rija do Torreense após a inédita conquista da Taça de Portugal, diante do Sporting — Foto: LUSA

A melhor viagem da história de um gigante bem acordado

Do Jamor a Torres Vedras, A BOLA acompanhou a par e passo o dia mais glorioso da vida do Torreense. Festa começou após o golo apontado por Stopira, rebentou depois do apito final e o Estádio Nacional pintou-se de azul-grená. Cidade não dormiu e... valeu tudo

Dia 24 de maio de 2026. Estádio Nacional, no Jamor. Sporting-Torreense. Final da Taça de Portugal. Minuto 4: Kévin Zohi coloca a equipa do Oeste em vantagem no marcador. Minuto 54: Luis Suárez empata para o conjunto leonino. Estas foram as contas dos 90 minutos. Vamos, então, para prolongamento. Minuto 113: Stopira, chamado à conversão de um pontapé de penálti, fuzila Rui Silva e recoloca o Torreense em vantagem. Não mais o Sporting conseguiu inverter o cenário. Pouco depois, apito final de António Nobre. A história estava escrita. O Torreense conquistava a primeira prova rainha da sua vida!

A partir daqui, tudo o que possa escrever-se será pouco para descrever o sentimento de orgulho e felicidade que invadiu os milhares de adeptos dos azuis-grená. Porque não há palavras que conseguiam traduzir na perfeição o novo mundo onde entraram os sócios e simpatizantes do Torreense. Fundado a 1 de maio de 1917, o centenário (e mítico) clube do Oeste escreveu a mais gloriosa página da sua história. Um azul-grená banhado a letras de ouro.

No mais fiel compromisso com o leitor, A BOLA desafia-se, nas linhas seguintes, a reproduzir o acompanhamento que a nossa equipa de reportagem fez. Do Jamor a Torres Vedras. Tenta(re)mos ser a voz de milhares e milhares de adeptos do Torreense, bem como os olhos de todos aqueles que não assistiram à partida, em pleno Estádio Nacional, nem estiveram, depois, em Torres Vedras. Onde a festa teve tudo... menos comparação: um autêntico... Carnaval!

Após o final da partida, o mar de gente que praticamente encheu o conceituado recinto dono da prova rainha foi desaparecendo. Os aficionados do Sporting, visivelmente insatisfeitos pelo desfecho do desafio, abandonaram os seus lugares. Mas no Topo Sul ninguém arredava pé. Palmas, cânticos, saltos, lágrimas (muitas e tão profundas) de felicidade. Não é possível quantificar a alegria vivida pelos torrienses. Crianças, jovens, homens, mulheres, idosos... Eram famílias. Eram amigos. Eram desconhecidos. Eram pessoas de várias latitudes do País. Mas eram, acima de tudo, adeptos do Torreense. E naquele momento, todos estavam unidos pelo sangue... azul-grená. Algo eternamente inquebrável.

Jogadores e restante staff do Torreense já estavam, claro, junto dos seus. Daqueles que nunca os abandonam. Nos momentos bons e menos bons. Porque ser adepto é mesmo assim: sofrer quando assim tem de ser, festejar quando para isso há motivos. E no passado domingo não houve motivos para festejar. Houve, isso sim, razões para subir ao mais alto patamar da glória. Porque quem consegue o feito inédito que aquele grupo de trabalho conseguiu... chegou ao topo do mundo. Chegou ao sítio de onde só se avistam as estrelas. Mas as estrelas eram, afinal, eles. Jogadores, treinadores, dirigentes e toda uma equipa que fez acontecer. Há tamanhos para todas as capas de heróis. É à escolha. Sirvam-se!

SUBIDA DA ESCADARIA DA GLÓRIA

Repare-se como ainda estamos no relvado do Jamor. Porque as celebrações foram (merecidamente) extensas. Vamos agora subir as 104 escadas até à tribuna de honra. E quanta honra é receber a tão mítica Taça de Portugal! O momento pertenceu a Stopira. O capitão. A referência. Ainda para mais o autor do golo da vitória. O homem que naquele pontapé, aos 104 minutos, transportou às costas toda uma cidade, todo um concelho. Torres Vedras foi às cavalitas de Stopira. O internacional cabo-verdiano, de 38 anos (!) — quem é que continua mesmo a achar que a idade conta? —, agarrou no troféu com a mesma força (ainda que com mais carinho) com que tinha batido o penálti. Porque ali estava... a vida de todos aqueles que elevaram o Torreense à escala planetária. «Obrigado, exmo. Presidente da República, mas esta é do Torreense». Podia ser esta a legenda da interação com António José Seguro. Naquele momento, Stopira foi... Chefe de Estado.

O momento podia ser propício a excessos, mas as regras foram cumpridas de forma escrupulosa. Nesse momento, a ligação profunda estendia-se da tribuna de honra ao Topo Sul. Os indefectíveis ainda ali se mantinham. Nem poderia ser de outra forma.

Já devidamente condecorados, os artistas voltaram a descer a escadaria da glória e a comunhão com os adeptos voltou a ter contacto físico. Não havia quem não quisesse tocar na taça, não havia alma que não quisesse uma fotografia com a mais desejada, não havia pessoa que não solicitasse mais um abraço aos jogadores. Todas as solicitações foram sendo correspondidas. Afinal, estavam todos em... família, recorda-se, caro leitor?

Também havia quem quisesse falar e não conseguisse. Era vê-los a tentar puxar pela voz e... nada. O dia estava a ser de uma intensidade inigualável e àquela hora as cordas vocais já tinham dado de si. Tudo normal. Amanhã passa, terão pensado as vítimas da euforia.

TRALHÃO NA MELHOR CONFERÊNCIA DE SEMPRE

Chegou a hora de os jogadores regressarem ao balneário. Estava também na hora de LuísTralhão, o homem do leme, dirigir-se junto dos jornalistas para aquela que seria... a melhor conferência de Imprensa da sua vida. Espaço onde falar do jogo, de futebol puro e duro, passaria para segundo plano. O momento era, isso sim, de anunciar ao Mundo todo o orgulho por ser o treinador de «um grupo fenomenal de jogadores». Era esperado que o dissesse e LuísTralhão disse-o. Mas disse-o carregado de sentimento. Percebeu-se que vinha do coração. Do fundo da alma. De forma pura. E se tivermos em linha de conta que o técnico lidera este grupo há apenas cinco meses, então talvez percebamos melhor que as palavras de Tralhão foram mesmo genuínas.

Final da conferência de Imprensa. Hora de João Tralhão voltar para junto dos seus e, daí a instantes, ficar tudo pronto para que a comitiva rume a Torres Vedras. O autocarro já tem o motor a trabalhar. O depósito até podia estar vazio. Porque o feito histórico alcançado pelo Torreense era o combustível mais do que garantido para a épica viagem de regresso a casa.

Do Jamor a Torres Vedras a distância é relativamente curta. Cerca de 70 quilómetros. Mas que fossem 70... mil! Porque não há longe nem distante quando se quer realmente. E o que todos os jogadores e restante estrutura do emblema do Oeste queriam realmente era o contacto com todos aqueles que, por uma ou outra razão, não foram ao Jamor. Ou que foram e já tinham regressado a Torres Vedras. Porque a família (recorda-se?) quer-se toda junta.

Na cidade mítica não se festeja só o Carnaval tido como o mais português de Portugal. Festeja-se também o maior feito da história do Sport Clube União Torreense. Por esta altura, já ninguém dorme em Torres Vedras. As ruas estão inundadas de gente, os carros apitam até mais não. Está preparada a receção apoteótica aos craques que fizeram do dia 24 de maio de 2026 o melhor de sempre. Gente por todo o lado, cachecóis, bandeiras, cânticos até que a voz (não) lhes doa... Que venham os heróis. Do Estádio Manuel Marques à Câmara Municipal de Torres Vedras está tudo preparado. Veremos se o autocarro consegue chegar lá...

...Continua noutra peça...

A iniciar sessão com Google...