A BOLA acompanhou a romaria de adeptos do Celtic ao 'santuário do clube' em Portugal
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Viagem ao «Santo Graal» que une Celtic e Portugal para a eternidade

Antes do Benfica, adeptos dos escoceses fazem romaria até ao Estádio Nacional. Felicidade no 'santuário' contrasta com pessimismo com que encaram duelo na Luz

Filas à entrada, cachecóis à venda e camisolas verdes e brancas a pintar as imediações do Estádio do Jamor. A azáfama matinal era digna de qualquer dia de jogo.

Darren e amigos, como quem vai visitar uma casa familiar, desfizeram o mistério sobre o clima festivo em conversa com A BOLA. O duelo do campeão escocês contra o Benfica (20h), na segunda jornada da Liga Europa, é o pretexto perfeito para a visita ao palco da única conquista da Taça dos Campeões Europeus da história do clube, a 25 de maio de 1967. O Celtic vergou o Inter por 2-1 e tornou-se no primeiro clube britânico a vencer a prova.

«É um local muito especial para nós. Muitos adeptos, mesmo quando não há jogos, vêm aqui. É algo que tens de fazer enquanto adepto do Celtic», frisou Darren, um dos cerca de cinco mil adeptos dos católicos que viajaram até Portugal. As expectativas em novo resultado histórico em Lisboa, esta noite, são diminutas: «Provavelmente não vai acontecer. O Benfica é uma grande equipa. Mas espero que possamos ganhar.»

Darren - Foto: Mariana Tenório

Os pontos verdes começam por eternizar o contacto visual com o Estádio Nacional através de fotografias, antes de se dirigirem a um local de culto. O emblema do Celtic recebe quem caminha pelo túnel de acesso ao relvado que nos leva numa viagem ao capítulo mais glorioso da história do clube à boleia da exposição 'De Glasgow à Glória', inaugurada pelo Museu Nacional do Desporto.

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Retratos, camisolas e galhardetes que sobreviveram ao tempo pintam de verde o túnel de acesso ao relvado do Estádio Nacional desde 26 de junho. E já testemunharam momentos marcantes, desde pedidos de casamento a homenagem a familiares já falecidos, conta Ana Semblano, diretora do Museu Nacional do Desporto e responsável pela exposição e «local de peregrinação» escocesa.

Equipa do Celtic em peso em dia de jogo

Martin O'Neill, treinador do Celtic, vai marcar presença no Estádio do Jamor esta quinta-feira, antes do duelo contra o Benfica, assim como vários elementos da equipa técnica e da direção do clube.

«Nunca passei aqui um dia em que não estivesse cá um adepto do Celtic», garantiu, com a música 'The Celtic Song' como trilha sonora. Reza a lenda que a canção entoada pelos jogadores do Celtic antes da final fez parte da receita para a glória.

O aniversariante e testemunha da glória

Os adeptos presentes reconhecem o ritmo e acompanham em plenos pulmões. O sorriso e a emoção tomam conta de Ian à medida que percorria o túnel «absolutamente incrível» e «deslumbrante», que mostrava à família via videochamada. 60 anos depois de ter testemunhado, a milhares de quilómetos de distância, o momento em que Billy McNeill ergueu o troféu, na tribuna do Jamor.

A festa dos adeptos do Celtic no Jamor- Foto: A BOLA

«Estamos a andar com os fantasmas de gigantes. Faz os pêlos do pescoço levantarem. Tão emocionante», reiterou enquanto percorria o túnel dos sonhos de criança. Nem a «decisão muito forçada» de marcar penálti a favor do Inter escapa da memória de Ian, cujo coração sossegou com o «disparo» de Tommy Gemmel, aos 63', e o golo da vitória assinado por Stevie Chalmers, aos 84'. «Só agora, quando olhamos para trás, é que percebemos a dimensão do feito», frisou.

O aniversariante que não espera uma boa prenda do Celtic - Foto: Mariana Tenório

Mais de sete décadas de devoção ao Celtic foram coroadas com uma visita promovida pelo filho ao baú da glória... no dia do 73.º aniversário. O guardião da glória europeia do Celtic, ainda assim, não antecipou um presente de aniversário oferecido pelos comandados de Martin O'Neill: «Infelizmente vamos ver o jogo. Espero só 0-4 ou 0-5. Isto é ser otimista (risos). Talvez adormeça ao intervalo.»

O momento de forma do Celtic não tranquiliza o adepto com décadas de experiência. Há margem para melhorar, com sotaque português à mistura: «Talvez o Jota faça a diferença, precisamos dele. Quando tem a bola é excelente, quando não a tem trabalha imenso. Precisas de jogadores como ele.»

Três gerações unidas por um estádio

Tommy e Jamie partilham o pessimismo de Ian... e a ligação forte ao dia 25 de maio de 1967. «A primeira vez que o meu pai andou de avião foi em 1967 para ver o Celtic tornar-se campeão em Lisboa. Tinha 23 anos, hoje tem 82», revelou Tommy.

O patriarca da família «já não tinha condições» para viajar para Lisboa para assistir ao duelo de hoje após já ter visitado o Jamor noutras duas ocasiões, mas continua presente.  «Acabei de ligar ao meu pai há pouco. No fundo, ele está orgulhoso pelo facto de estarmos a seguir os passos dele», frisou.

Jamie e Tommy - Foto: Mariana Tenório

Jamie refletiu sobre o legado do avô, enquanto cortava a visita ao Jamor da lista de objetivos de vida: «O meu avô sempre me contou histórias do jogo quando eu era mais novo, quase consigo imaginar o que aconteceu.»

O filho exalta Jota, extremo luso que integra atualmente o plantel do Celtic, enquanto o pai recorda o «cabelo comprido» e a «celebração muito boa» do «grande goleador» Jorge Cadete, que representou o clube entre 1996 e 1997. A ligação ao Jamor é mais consensual entre as três gerações: «Este estádio é o Santo Graal para os adeptos do Celtic. Sentes arrepios quando entras no Estádio. É como vir a casa.»

«É daqueles momentos que recordarei para o resto da minha vida, ter vindo ao local onde a equipa que amo ganhou uma Taça dos Campeões Europeus histórica. Provavelmente não voltará a acontecer durante a nossa vida», reiterou.

Passar tempo de qualidade com o filho no «sol de Lisboa» já é prémio suficiente para Tommy, que chega ao Estádio da Luz sem expectativas. «Vai ser difícil. Talvez com um empate fiquemos satisfeitos», admitiu.

O luso-escocês que esteve no Jamor

Peter camufla-se entre os adeptos escoceses por conta da camisola e dos acessários afetos ao Celtic que enverga, mas o sotaque português denuncia-o, logo à entrada do túnel que dá acesso ao relvado. O filho de pai escocês e mãe portuguesa não só é fã do clube, como esteve presente na final da Taça dos Campeões Europeus de 1967.

«Os meus tios vieram de Glasgow, ficaram lá em casa e trouxeram-me ao jogo. Acho que não percebi o significado na altura. Mas senti o ambiente, era uma espécie de duelo entre David e Golias», recordou em declarações a A BOLA.

O adepto «que era ferrenho do Benfica» e até tinha um autógrafo de Eusébio rendeu-se aos católicos, que recebe ao longo do ano num bar na baixa de Lisboa. E tem uma ideia para criar um clube de apoiantes do clube em Portugal: «Pretendemos organizar o transporte entre a nossa sede e o Estádio. No outro dia encontrámos uns escoceses que vieram num cruzeiro que passou 7 horas em Lisboa e a prioridade deles foi vir aqui.»

A intensidade do sol aumenta durante a conversa, na escadaria do Jamor, e equipara-se ao nível de entusiasmo que pautava as imediações. Dezenas de adeptos esperavam luz verde para reencontrar a glória no santuário do próximo adversário do Benfica.

O jogo fica para segundo plano. Da mais recente geração de ouvintes da lenda da vitória a testemunhas do dia mais dourado da história do clube, todos passam pelo Jamor.

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