Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus em conferência de Imprensa antes do jogo com País de Gales — Foto: IMAGO
Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus em conferência de Imprensa antes do jogo com País de Gales — Foto: IMAGO
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Os mandamentos da humilhação

Talvez seja possível dizer, sem risco de errar, que a perceção que Cristiano Ronaldo tem da realidade não coincide com a realidade. E aqui estará o maior problema, como o comunicado dele acabou por provar

Há pouco mais de uma semana, fora de Portugal, em gozo de descanso e de preservação da higiene mental, uma cedência à tentação de espreitar o telemóvel fez-me mergulhar no auge da polémica provocada pelo abandono de Cristiano Ronaldo à Seleção Nacional.

O bombardeamento do algoritmo do X foi de tal forma avassalador que não me entrava na cabeça que alguns dos argumentos e revelações no comunicado de CR7 fossem mesmo verdadeiros. Antes ainda de começar a escrever sobre o assunto — já cá faltava mais um a falar sobre isto — fui obrigado a revisitar o documento.

A saída de Cristiano Ronaldo da Seleção não pode ter sido uma surpresa para alguém, mas é impossível ignorar, sobretudo pela forma como aconteceu, que se tratou de um choque. A mãe Natureza, tão generosa com Cristiano Ronaldo, começara a tocar-lhe com o dedo nas costas, por vezes deu-lhe um ou outro empurrão, alertando-o de que o fim está cada vez mais próximo e, com isso, da impossibilidade de voltar a ser até sombra do que alguma vez foi.

As exibições e o contributo de CR7 na Seleção tinham há muito diminuído e, no entanto, acredito, sinceramente, que muitos, a começar pelo selecionador, ainda o considerassem útil, não como figura central, mas como alguém ainda capaz de fazer a diferença, em campo e fora dele, em circunstâncias especiais.

O papel que lhe estaria reservado dificilmente corresponderia às expectativas de Cristiano Ronaldo. Talvez seja possível dizer, sem correr grande risco de errar, que a perceção que CR7 tem da realidade não coincide com a realidade. E aqui estará o maior problema, como o comunicado acabou por provar.

Quatro dias antes de estalar a polémica, depois da vitória de Portugal sobre a Noruega, em Oslo, num jogo em que CR7 ficou no banco de suplentes e saiu disparado para o balneário depois do apito final, José Manuel Delgado manifestava o desejo, aqui em A BOLA, sem imaginar o que se passaria em Copenhaga, de Cristiano Ronaldo contribuir para o novo ciclo da Seleção, mostrando fora de campo a grandeza ímpar que teve dentro dele. Isso, poderemos lamentar, se for o caso, já não acontecerá.

Como continuo a acreditar que somos mais aquilo que fazemos do que dizemos, no meio disto tudo, quando a poeira assentar, prevalecerá, acima de tudo, o virar de costas de Cristiano Ronaldo à Seleção.

Não tenho razões para duvidar de que o pedido de desculpa aos portugueses e aos companheiros de Seleção é sincero e genuíno. Mas duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. E a publicação do que chamou de notas validadas para Jorge Jesus reproduzir em conferência de Imprensa são reveladoras do outro lado da moeda.

Aquelas notas não são mais que mandamentos de humilhação de alguém que se vê como «exemplar, leal e profissional», da «dimensão de Pelé ou Maradona», que «não recebe lições de amor a Portugal» e que «mais autógrafos e selfies dá».

Admirador do que Cristiano Ronaldo fez para se tornar um dos melhores de sempre e do que fez em campo, consciente de que somos todos iguais mas que há alguns mais iguais do que outros, em situações bem específicas, bem entendido, não preciso de saber mais para formar opinião do que acabou de fazer fora dele. Cada qual vê Cristiano Ronaldo como entende e o que se passou no espaço público, numa espécie de guerra de trincheiras, diz mais de quem o ocupou do que de CR7. Incompreensível nem é alguém pensar mas sim dizer que todos, sem exceção, querem Cristiano Ronaldo de volta à Seleção.

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