Um destino pior que a morte
Toda a gente fala da carência que existe hoje de árbitros, mas eu gostava de saber quem é que quer ir para árbitro
Artur Soares Dias, antigo árbitro português, após conferência em Cascais
Podes conhecer o mundo, diziam. E é uma maneira de ganhares algum dinheiro. E mais uns quantos argumentos que fizeram a filha de um amigo tirar um curso de arbitragem e começar a apitar. Aguentou dois anos.
O desporto, sobretudo na adolescência, envolve muitos sacrifícios. São os treinos, são os fins de semana com compromissos, as noites em que não se pode estar com amigos. Para quem o faz por paixão, há recompensas — como qualquer praticante o dirá. Eu, que fui federado em basquetebol até aos 17 anos, não trocaria essas noites ou fins de semana perdidos pela camaradagem, pelas amizades, pelo prazer de jogar e competir.
Mas quando a recompensa das noites e fins de semana perdidos é ser-se insultado, ameaçado, tantas vezes agredido, é difícil fazer as contas e achar que vale a pena. Sobretudo porque, admitamos, poucos têm verdadeira paixão por arbitrar. Se tiverem um filho na escola, perguntem à turma, à escola inteira — quem sonha ser jogador de futebol? e quem sonha ser árbitro?
Se um miúdo em cem responder que quer ser árbitro, aconselho rápida ida ao psiquiatra. Pode até estar tudo bem, mas não é normal desejar um destino pior que a morte. E enquanto não mudarmos mentalidades, enquanto continuar a haver insultos, ameaças, agressões, nunca será resolvida a carência de árbitros.