Roberto Baggio no Mundial de 1998 - Foto: IMAGO

Tudo isto podia ter sido evitado, Itália: como um relatório de 900 páginas acabou no caixote do lixo

Documento apresentado por Roberto Baggio, em 2011, foi simplesmente ignorado

Após a terceira ausência consecutiva da Itália de um Campeonato do Mundo, as propostas de um relatório de 900 páginas, apresentado há mais de uma década pelo lendário Roberto Baggio, voltaram a ser tema de conversa entre os adeptos. As recomendações, que visavam uma profunda reestruturação do futebol italiano, foram na altura ignoradas.

Em agosto de 2010, Baggio foi nomeado diretor do setor técnico da Federação Italiana de Futebol (FIGC). Em dezembro de 2011, apresentou o referido documento, que propunha uma grande reforma nos métodos de treino e no desenvolvimento de jovens talentos, e se chamava 'renovar o futuro'. A proposta, compilada com o contributo de 50 especialistas, detalhava reformas estruturais, técnicas e educacionais, mas nunca chegou a ser implementada.

Ausências surpreendentes de Mundiais

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O plano de Baggio surgiu na sequência da desastrosa participação da Itália no Mundial de 2010, onde, na condição de campeã em título, terminou em último lugar no seu grupo. Seguiram-se novas eliminações precoces em 2014 e, desde então, a ausência em sucessivos Mundiais apenas aprofundou a sensação de declínio. De forma notável, o último jogo a eliminar dos azzurri num Mundial continua a ser a final de 2006, em Berlim.

Contudo, em 2013, o antigo internacional italiano demitiu-se do cargo, alegando que todo o trabalho que teve fora em vão.

Segundo a «La Gazzetta dello Sport», uma das principais propostas de Baggio era a criação de 100 centros de treino em 100 distritos diferentes de Itália, geridos diretamente pela FIGC. Cada centro contaria com três treinadores da federação, com o objetivo de organizar 50 mil jogos por ano para que os jovens talentos italianos pudessem mostrar o seu valor e, assim, fazer evoluir as camadas mais jovens para, um dia, serem a base da seleção A.

O relatório defendia também uma mudança na formação de treinadores, apostando em profissionais com formação académica superior e com experiências profissionais diversas, não necessariamente ligadas ao futebol. Baggio sentia que se dava demasiada importância à tática em detrimento da técnica, um debate que se mantém atual.

Outras medidas incluíam a criação de um grupo de estudo permanente, composto por membros da FIGC e investigadores universitários, que estaria em «contacto constante» com as equipas técnicas. Além disso, o antigo jogador pedia uma melhoria substancial na recolha de dados no futebol jovem e a garantia de instalações desportivas «adequadas» em todo o país.

Nenhuma destas medidas foi adotada. Frustrado, Baggio acabou por se demitir. «Tentei desempenhar o papel que me foi confiado, mas não me permitiram», afirmou na altura, citado pela Gazzetta dello Sport. «Trabalhei para reconstruir a partir das fundações — para criar bons jogadores e boas pessoas. Apresentei o meu projeto em dezembro de 2011 e ficou morto», disse, em alusão ao documento com 900 páginas que foi simplesmente... ignorado.