Torreense no Jamor: «Sempre sonhei viver isto»
José António Franco Vicente, ou simplesmente Toinha, um dos grandes símbolos do Torreense, não cabe em si de contente com o apuramento do clube para a final da Taça de Portugal. Nascido em Torres Vedras, fez toda a formação no Torreense, tendo jogado 16 épocas de azul-grená ao peito.
Como júnior, representou a Seleção Nacional, faz parte da equipa que em 1990/1991 subiu à 1.ª Divisão, primeiro como jogador e no decorrer da época como adjunto de Manuel Cajuda, ao todo fez 342 jogos oficiais e marcou 73 golos. O antigo jogador, treinador, funcionário, diretor e presidente da Direção do Torreense, num testemunho emocionado a A BOLA, evocou a equipa que, três anos antes de ter nascido, defrontou o FC Porto na final da Taça de Portuga, a 26 de maio de 1956 (perdeu por 0-2).
«O Torreense, estando neste momento num escalão inferior, chegar ao Jamor é um feito histórico. Em 1956 eu ainda não era nascido, mas lembro-me de alguns jogadores que chegaram a essa final. O Torreense tinha uma grande equipa, na altura eram conhecidos pelos milionários do Oeste, estiveram quatro anos seguidos na 1.ª Divisão. Foram os tempos áureos do Torreense. O treinador era argentino, Oscar Tellechea», recordou.
E, de voz embargada, ganhou balanço para expressar o sentimento por, volvidas sete décadas, ver o Torreense voltar ao Jamor: «Sempre sonhei viver isto! É praticamente o sonho de uma vida, um clube mais pequeno, ao qual dediquei 50 anos da minha vida, conseguir atingir a final da Taça de Portugal.»
Instado a desfiar esse novelo de meio século de vida dedicado ao clube de Torres Vedras, Toinha não escondeu o sentimento de missão cumprida, depois de ter vivido altos e baixos, muitos, em várias etapas da vida do emblema do Oeste.
«É uma vida inteira dedicada ao clube, às vezes a esquecer-me de mim próprio, de viver a minha vida e da família, mas isto é excecional, não há palavras para descrever. É uma alegria e uma satisfação que não consigo pôr em palavras. Fiz tudo naquele clube, além de jogador, fui treinador, grande parte dos anos como adjunto de bons treinadores que por lá passaram, fui responsável pelo futebol juvenil vários anos, depois tive a honra de ser presidente do Torreense, numa altura em que o Torreense estava com a corda na garganta e eu e os meus colegas de Direção conseguimos liquidar todas as dívidas que o Torreense tinha e depois do centenário passei a pasta», contou.
Orgulho em receber Marcelo Rebelo de Sousa
Emocionado, Toinha continuou na senda das memórias destacando a presença de Marcelo Rebelo de Sousa, na qualidade de Presidente da República, na celebração dos 100 anos do emblema de Torres Vedras: «Foi uma festa muito bonita. Não é todos os dias que o Presidente da República vai ao centenário de um clube.»
«Ele lembrava-se que o pai tinha sido sócio honorário do Torreense e de pequenino vir acompanhar o pai cá a Torres Vedras para ver jogos ao Manuel Marques e isso marcou-o e fez com que aceitasse o nosso convite para vir ao nosso centenário, em 2017. Terminei o segundo mandato em 2018 e depois, felizmente, seguiram-se as pessoas que agora estão à frente do Torreense», afirmou.
«Clube está cheio de vigor»
Na última década, o Torreense tem subido degraus. Na formação tem crescido a olhos vistos, os sub-23 foram campeões em 2024/2025, a equipa feminina quebrou hegemonia de Benfica e Sporting e já arrecadou uma Taça de Portugal, uma Supertaça e uma Taça da Liga, e a equipa sénior tem escalado divisões, marcando agora presença no Jamor.
«O Torreense é um clube que está cheio de vigor. Em relação ao futebol feminino é mais uma alegria imensa que tenho. Há 35 ou 40 anos o clube tinha futebol feminino, depois extinguiu-se. E foi no meu mandato que reativámos o futebol feminino. O meu vice-presidente, que tinha uma escolinha na Ponte do Rol, Pedro Vaza, disse-me que tinha lá três miúdas que jogavam melhor do que rapazes. Arrancámos com uma equipa de sub-17 e uma dessas raparigas está agora na Seleção Nacional, é a Raquel Ferreira. Depois, a SAD deu continuidade ao projeto, que tem tido sucesso, sem nos esquecermos do futsal, o masculino na 1.ª Divisão e o feminino a um passo de garantir a subida também à 1.ª Divisão», revelou.
David contra Golias
Toinha estará no Jamor para viver as emoções da taça, num dia que se adivinha memorável, ressalvando que no relvado a luta é desigual, mas… são onze contra onze.
«É como David contra Golias, o Sporting tem um excelente plantel e ao ser difícil agora conquistar o título nacional vai pôr as fichas todas na conquista da Taça de Portugal, será muito difícil para o Torreense, mas o futebol é uma caixinha de surpresas e nunca se sabe o que poderá acontecer», realçou.
Sem descurar que a equipa de Torres Vedras ainda almeja alcançar lugar no play-off de luta pela subida ao principal escalão do futebol português. «O segundo lugar da Liga 2 está a quatro pontos, já não faltam muitos jogos, mas estamos na luta pelo terceiro, com o UD Leiria, para poder disputar o play-off, seria ouro sobre azul», finalizou.