Dói não ser tricampeão. Mas doía-me mais não ser do Sporting
A época do Sporting Clube de Portugal caminha para o seu epílogo e, com ele, chega também o momento inevitável de fazer um primeiro balanço. Num país onde a memória é curta e o resultado final tende a esmagar tudo o resto, importa dizer com clareza: só por manifesta desonestidade intelectual se poderá classificar esta temporada como negativa.
É verdade que o objetivo maior — o tão ambicionado tricampeonato — dificilmente será alcançado. E no Sporting Clube de Portugal, como em qualquer clube grande, não há vitórias morais e é pelos títulos conquistados que o sucesso se mede. Mas reduzir uma época a um único desfecho é ignorar tudo o que a construiu. Este Sporting foi competitivo até ao fim no campeonato, capaz de discutir cada ponto com ambição e personalidade, sem nunca abdicar da sua identidade.
No plano europeu, então, a campanha na Champions foi extraordinária. Colocar o clube entre as oito melhores equipas da Europa não é apenas um feito estatístico: é uma afirmação de qualidade, de crescimento e de respeito internacional. O Sporting Clube de Portugal voltou a ser temido, voltou a jogar olhos nos olhos com os maiores, voltou a dignificar Portugal no palco mais exigente do futebol mundial.
E há ainda uma final da Taça de Portugal para disputar — mais uma oportunidade de transformar mérito em troféu, mas também mais uma prova de consistência ao longo de toda a temporada.
É fácil defender o Sporting quando se ganha. Difícil — e é aí que se vê a verdadeira grandeza — é manter e exibir o orgulho na Verde e Branca quando o objetivo principal não se cumpre.
Mas este grupo de atletas merece que tenhamos esse orgulho e o afirmemos. Pela entrega, pela fome de jogar, pela vontade constante de vencer. Porque, no fundo, continua a existir algo que não se ensina nem se compra: somos, afinal, da raça que nunca se vergará!
Esse mérito pertence, em primeiro lugar, aos jogadores, que nunca deixaram de acreditar, mesmo nos momentos mais exigentes. Mas pertence também, de forma inequívoca, ao treinador Rui Borges. Mais do que um técnico competente, revelou-se um líder sereno, um homem honesto e humilde, capaz de resistir à crítica fácil e ao ruído constante. Sempre de sorriso discreto, sempre focado no trabalho, como é próprio dos verdadeiramente inteligentes e preparados.
E há ainda uma liderança estrutural que não pode ser ignorada. Frederico Varandas afirma-se, cada vez mais, como um dos grandes presidentes da história do Sporting Clube de Portugal. Não apenas pelo futebol, mas pelo conjunto das modalidades, pelos títulos conquistados, pela visão e pela estabilidade que trouxe ao clube.
Ao longo de toda a época, foi um verdadeiro leão de raça pura. Não apenas nas decisões estratégicas ou nos resultados alcançados, mas, sobretudo, na forma como se manteve firme perante o ruído, a provocação e a constante tentativa de descredibilização. Nunca se vergou nem cedeu à facilidade da resposta fácil perante a mentira e a hipocrisia de quem se apresenta como moralista, mas rapidamente revela ausência de princípios quando os interesses apertam.
Preferiu, sempre, o caminho mais difícil: o da coerência, da frontalidade e da defesa intransigente do Sporting Clube de Portugal, mostrando que a liderança também se mede na capacidade de resistir, e de o fazer com dignidade e decência. Num Sporting assumidamente eclético, é justo reconhecê-lo como o Presidente dos nossos Presidentes.
No fim da história, ganhar ou não ganhar fará sempre a diferença. Mas há épocas que, mesmo sem o troféu maior, deixam marca. Esta é uma delas. E quem não o reconhecer, não estará a ser sério com o Sporting Clube de Portugal.