De pai para filho, como se passa o futebol: o Torreense vai ao Jamor (crónica)
Há festa em Torres Vedras. Festa como há muito não se vivia em torno do clube da terra.
E para Afonso Lucas dos Santos, de 71 anos, só não é festa completa porque quem lhe transmitiu o amor pelo Torreense, há dois anos que não está presente para viver este dia. O dia em que o clube vai voltar ao Jamor para discutir a final da Taça de Portugal, frente ao Sporting.
Mas da mesma forma que o senhor Cândido dos Santos esteve no Estádio do Jamor, há 70 anos, para vibrar pelo clube, agora é o filho quem não vai perder esse jogo por nada!
Mas o que foi preciso sofrer para isso!
Depois do empate 1-1 frente ao Fafe na primeira mão, o Torreense decidia tudo em casa, com o estádio cheio da sua gente e com 400 bravos e barulhentos adeptos do Fafe.
O jogo, que se sabia que seria histórico fosse qual fosse o vencedor, foi fechadinho. Uma espécie de final em que ninguém queria errar e comprometer com isso o sonho.
A equipa da casa, teoricamente favorita por ser de um escalão acima, foi sempre mais dona do jogo, mas a melhor oportunidade da 1.ª parte até foi do Fafe, aos 25’, quando Leandro Teixeira falhou clamorosamente na pequena área um desvio que parecia tão fácil.
Na 2.ª parte, o jogo ficou ainda mais amarrado. E com paragem atrás de paragem. Porém, quando todos já pensavam no prolongamento, David Bruno lembrou-se de outra coisa: tentar a sorte naquela bola que lhe apareceu a pingar à entrada da área, aos 84’.
E não é que soltou a festa? E que festa! Um grito preso nas gargantas torreenses há décadas. Verdade seja dita: só um grito desses podia ter calado a desilusão que se fazia sentir do outro lado.
Depois, foi neste misto de euforia e deceção que se viveram os últimos minutos. Até que aos 90+12 esses sentimentos se intensificaram com o penálti de Stopira que selou o apuramento do Torreense para o Jamor.
E lá estará Afonso Lucas dos Santos a homenagear os dias em que o pai se montava na bicicleta, metia o filho no suporte e pedala «três quartos de hora» desde a Boavista de Santa Cruz até à casa do Torreense para ver a bola.
Com Afonso, no Jamor, estará o cartão de sócio original do pai.
«Um cartão feito em camurça. Sócio n.º 21. Ele está prometido ao museu do clube. Só tenho de o encontrar, porque arrumei-o tão bem que não sei onde».
Mas há esforços que se fazem com amor. Por amor.
O extremo haitiano foi um furacão à solta no dia de todos os sonhos do Torreense. Não marcou, mas foi sempre quem andou mais perto disso. Foi a velocidade do jogador de 23 anos que foi moendo os defesas do Fafe para que depois outros carimbassem o triunfo.
Enquanto teve pernas, o avançado do Fafe foi uma ameaça constante à defesa do Torreense. Com a equipa a jogar descida, cabia ao camisola 9 esticar o jogo, segurar a bola e atacar a defesa adversária. Lutou, esteve perto de marcar e de expulsar Diadie perto do intervalo. Saiu em lágrimas, com uma lesão no joelho.
Luís Tralhão (Torreense): «Não vamos ao Jamor passear»
«É uma alegria imensa. Olhar para o que estamos a fazer, ver a cara das pessoas da comunidade e ver uma alegria tão grande que foi dada por nós, deixa-me cheio de orgulho. Não tenho voto na matéria para parar a festa dos jogadores agora. Temos de ter noção que fizemos algo de muito histórico para este clube. Não há como fugir. É dia de festejar. Vamos ter um jantarzinho.
Eles vão descansar amanhã [sexta-feira] mas a equipa técnica vai preparar já o próximo jogo. A festa vai acontecer e eu fico orgulhoso por ver aquilo que aconteceu no caminho do hotel até ao estádio. Enche-me de orgulho viver isto.
Agora, vamos poder competir a final, com o sonho de tentar jogar para ganhar. Todos os jogos são para ganhar. Quando jogo às damas com os meus filhos é para ganhar. Sabemos que as armas são completamente diferentes, mas não vamos passear ao Jamor. Vamos estudá-los e só o facto de irmos trabalhar todos para defrontar o Sporting já tem de nos deixar orgulhosos.»
(em atualização)