«Tive propostas de Portugal. Além dos grandes, vejo dois ou três projetos...»
— Começou 2026 como um treinador livre. Em que ponto está nesta fase da carreira e qual o passo que se segue?
—A minha carreira é uma longa história, que, nesta altura, me motiva a aproveitar a família. O futebol tem gerado a minha ausência e a família sofre com isso. Tenho aproveitado este tempo para viver muito daquilo que o futebol nos rouba: aproveitar os filhos, a esposa e os pais, que já não caminham para novos. Faço o dia a dia de um mortal comum e tem-me dado um prazer enorme. Sobre a carreira, foram cinco anos tremendamente intensos, vividos, na sua maioria, longe de Portugal. Estou num momento de grande maturidade, consolidação e clareza. Vejo-me muito mais preparado, com uma visão clara para as minhas equipas. Este tempo serve para refletir, pensar em processos e em querer equipas competitivas, com identidade forte e grande compromisso. O próximo passo, assumindo que aceitei sempre desafios tremendamente exigentes em momentos difíceis dos clubes, será em projetos que tenham um histórico de grande confiança no treinador. Sou um treinador de processo e os processos exigem tempo. Quando não há tempo, o acidente está à porta. O próximo passo passa por continuar a crescer, assumir desafios que me tirem da zona de conforto e lutar por objetivos ambiciosos, respeitando sempre a cultura e a história dos clubes.
— E pode ser dado no futebol português?
— Pode. As propostas que aparecem são sempre alvo de análise. Aprendi com algumas escolhas que fiz: o contexto, as pessoas e os projetos são fundamentais. Em Portugal, infelizmente, não existem tantos projetos que, hoje, eu consiga dizer que aceitaria. Existem, tirando os três grandes, dois ou três clubes de projeto, com contextos e pessoas que me podiam fazer pensar. Nunca vou virar as costas ao meu país, mas não é fácil albergar-me, apesar de haver projetos que considero sustentáveis, estáveis e de processo, que dão confiança ao treinador em vez de o absorverem pelo imediatismo do resultado. Acredito no desenvolvimento individual dentro de uma lógica coletiva. Dentro da equipa técnica, já consegui albergar gente dessa área específica, porque a partir do momento que batemos no teto dos comportamentos coletivos, podemos melhorar o grupo através da componente individual. Quando os clubes contratam, têm de saber o que contratam. Muitas vezes, cometem o erro de não fazerem uma pesquisa exaustiva. Não é só olhar para os resultados. É avaliar a liderança, a comunicação e os modelos de treino. Toda a gente sabe que o meu modelo é dirigido à pessoa. Foco a 80% em gerir pessoas e 20% no treino e jogo.
Houve, de facto, propostas para poder estar hoje a trabalhar em Portugal
— E essas propostas foram de clubes portugueses?
— Sim, também. Apesar de ter estado longe, sinto que atingi patamares interessantes. Conquistei objetivos que poucos alcançaram, como treinar um colosso mundial como o Corinthians. Mas o caminho prossegue e não podemos viver apenas de pequenas conquistas. Os convites apareceram, mas nenhum que me desse a progressão lógica que pretendo dentro do futebol português. Cativa-me um projeto onde exista alinhamento entre Direção, equipa técnica e jogadores. Gosto de equipas organizadas, intensas, que saibam ter bola e que sejam solidárias e tenham o talento de saber viver sem ela. O jogo é uma arte com bola, mas saber defender também é uma arte. No Brasil, dentro daquele caos e imediatismo, tive a sorte de trabalhar em dois grandes projetos dessa matriz, que me deram outra sustentação para poder fazer um trabalho de qualidade. Mas houve, de facto, propostas para poder estar hoje a trabalhar em Portugal.
Passou pelo Benfica B, onde trabalhou com meninos que, hoje, são referências. Algum que o tenha impressionado em particular?
— Tive a felicidade de alcançar uma das melhores classificações da história do Benfica B [5.º lugar] e seria injusto nomear alguém, porque realmente a equipa tinha um conjunto de grandes jogadores. A maioria chegou a patamares interessantes, em divisões de elite de vários países. Foram seis meses muito intensos, onde houve uma aprendizagem mútua que guardo com enorme respeito e carinho. O entendimento do jogo estava muito acima da média. Muitas vezes, na operacionalização do treino e nos comportamentos que eram dados aos jogadores, eles próprios davam-nos algumas soluções. Muitos estavam a dar os primeiros passos no futebol profissional e orgulha-me vê-los hoje na televisão e ver o sucesso que estão a construir. Essa passagem obrigou-nos também a ter uma componente pedagógica muito forte. O treinador é muito mais do que tática: é gerir emoções de 25 ou 30 cabeças diferentes e comprometer esse grupo num objetivo comum. Ali, percebi ainda melhor a importância da formação e de criar bases sólidas. Foi um período de grande rigor metodológico que me fez crescer como treinador e como homem.
O treinador é muito mais do que tática: é gerir emoções de 25 ou 30 cabeças diferentes e comprometer esse grupo num objetivo comum
Voltar ao Benfica noutro contexto está nos planos?
— Sou profissional de futebol. Entendo a pergunta. Tive e estou a ter um crescimento grande enquanto treinador, com maturidade e consolidação cada ver maiores, também a nível de comunicação e de liderança. O treinador é muito mais do que saber sobre treino e jogo. Tudo tem de ser preparado ao pormenor, porque, principalmente em equipas grandes e de massa, qualquer coisa que digamos tem um impacto relevante. O António vê-se no Benfica, no Sporting, no FC Porto... Vê-se em equipas que se revejam no seu trabalho e deem confiança. O contexto, as pessoas e o projeto são fundamentais para eu entrar num desafio que exige processo e tempo.
Artigos Relacionados: