«Faltou tempo no Corinthians. Pensei: 'Vim roer o osso e não vou comer a carne'»
— O António fala e deixa transparecer um carinho especial por Cuiabá e Athletico Paranaense. Foram os projetos em que conseguiu deixar a sua impressão digital?
— O Athletico Paranaense e o Cuiabá são o sonho de qualquer treinador, porque são geridos de dentro para fora e não ao sabor das redes sociais. No Brasil, muitas vezes as redes sociais mandam. Os clubes medem a temperatura e tomam decisões, deixando de acreditar no caminho. Nós, treinadores, temos de filtrar isso, até pela saúde mental. No Cuiabá, em 2022, a permanência no Brasileirão foi a nossa Libertadores. No ano seguinte, o apuramento para a Sul-Americana foi o nosso Mundial de Clubes. Já no Athletico, a longevidade permitiu-nos chegar às finais da Copa do Brasil e vencer a Sul-Americana. Três ou quatro desaires não podem fazer quem manda alterar o rumo. O Palmeiras é um exemplo claro de quem acredita num caminho, independentemente das pressões externas.
— E no Corinthians, o que faltou para que a história tivesse acabado de outra forma?
— Faltou tempo. Principalmente porque não tive acesso a nenhuma janela de transferências enquanto treinador do Corinthians. Apanhei a equipa na zona de despromoção do estadual e quase nos apurámos para as finais... Quando saí, estávamos vivos em todas as provas. Só que, no início do Brasileirão, com saídas importantes e sem reposição, a equipa ficou fragilizada. Sempre fui transparente sobre as necessidades do plantel para competir ao nível que o clube exige. Alinhámos tudo o que era possível alinhar e nunca deixei de assumir a minha parte. Fui um dos baluartes que protegeu o grupo num momento político desafiante, talvez o mais difícil da história do Corinthians. Pensei: «Vim para aqui roer o osso e não vou comer a carne», mas também sinto que contribuí para a construção dos pilares que existem atualmente no clube, mesmo ainda com alguma instabilidade. Assumo a minha responsabilidade, mas estava tudo em aberto. Dois ou três dias após a minha saída, a janela abriu e vieram dez reforços. No futebol, o imediatismo paga-se. Os resultados não apareceram e a Direção tomou a decisão. Respeito-a sempre. Sei o que fiz e saí com a consciência tranquila de que dei tudo em prol do clube. E há essa outra questão: os alicerces que foram deixados dentro da identidade e da competitividade que o Corinthians consegue ter hoje em dia.
— No Athletico Paranaense, sucede a Paulo Autuori. Sentiu que estava na hora de dar esse passo?
— Eu tinha estado no Santos com o professor Jesualdo Ferreira e o diretor-executivo que me levou para o Athletico foi o mesmo. Fui para adjunto do Paulo Autuori, que me deu uma autonomia extrema. Eu operacionalizava tudo o que era uma sessão de treino. Dois meses depois, o Paulo colocou-me numa sala e perguntou se eu queria ser o próximo treinador. Eu disse: «Mestre, preparei-me uma vida inteira para esta oportunidade». Em março de 2021, concretizei esse sonho. Foi um caminho mágico, com um grupo de jogadores que ainda hoje guardo com grande carinho.
— E cruzou-se com Lucho González, agora adjunto no FC Porto…
— Fui o último treinador do Lucho González. No jogo contra o Aucas, perguntei-lhe como queria terminar a carreira. Ele disse: «Míster, você decide», e eu respondi: «Neste caso, tu estás primeiro, é um momento único». Pediu para ser titular e sair aos três minutos, por causa do número da camisola. Aceitei, apesar de me gastar logo uma substituição [risos]. Saiu aos três minutos e entrou o Christian, que uns minutos depois fez golo. Ganhámos 4-0. O Lucho é uma pessoa extraordinária, por quem tenho um carinho enorme. Um líder nato, um vencedor, que cultiva valores por onde passa. Tê-lo comigo foi uma ajuda extraordinária. E ainda cheguei a defrontá-lo já com ele a treinador, no Ceará. Mais tarde, o Paulinho [ex-Barcelona] também fez o seu último jogo comigo. Tenho um enorme orgulho em ter sido o último treinador de ambos.
Já no Sport, orientou três jogadores portugueses: Sérgio Oliveira, Gonçalo Paciência e João Silva.
— Foi das coisas boas que levei daquela passagem relâmpago. O clube estava emocionalmente instável, com dois pontos em sete jornadas. Tive o privilégio de trabalhar com dois internacionais A, o Gonçalo e o Sérgio, e também com o João. Para além da competência técnica, têm uma qualidade humana fantástica. Muitas vezes, foram culpados por coisas que não provocaram, apenas porque quem tem esse estatuto é mais cobrado. Foi um período curto, mas mantenho relação com a maioria deles.
O último clube que orientou foi o Remo, que acabou por subir ao Brasileirão. Também sente a subida como sua?
— Pelo menos fui o único treinador que ficou invicto fora de casa. [risos] Mas a história do Remo está ligada à história do Sport pela carga que já havia quando cheguei. A saída do Daniel Paulista, treinador anterior, criou alguma instabilidade e, para quem não sabe, existe uma ligação emocional forte entre as duas claques. O que fez com que essa frustração que já existia no Sport, mesmo antes de eu chegar, viajasse até Belém. Quando se chega a um clube como o Remo, um clube de massa, é natural que a responsabilidade caia em cima do treinador. Nunca fugi disso, muita das vezes é injusto, mas faz parte. Faltou concretizar alguns empates em vitórias, mas são 20 e tal pontos resultantes do trabalho que eu e a minha equipa técnica desenvolvemos. A Série B é extremamente competitiva e tivemos melhor aproveitamento fora de casa. Jogar em casa tinha uma carga emocional muito forte e foi difícil para os jogadores. Mas tive o privilégio de trabalhar com o Marcos Braz, alguém com quem tive sempre uma relação transparente e o dirigente mais titulado do futebol brasileiro.
O António é um dos muitos treinadores portugueses que, nos últimos anos, passaram pelo Brasil. Que imagem é que o adepto brasileiro tem do treinador português?
— Enorme respeito e reconhecimento da competência. Acima de tudo, é preciso perceber que o futebol português se preparou, a nível do treino, para poder retirar dividendos e obter resultados. Mas destaco a adaptabilidade a diferentes contextos para conseguir resultados. Já foi dito pelo Jorge Jesus: o Brasil é o contexto mais desafiante do mundo. Há um calendário extremamente denso e competitivo, equipas bem apetrechadas e muitos clubes a lutar pelos mesmos objetivos. Hoje em dia, a maioria das equipas, principalmente na Série A, tem estrutura e dá condições para fazer um trabalho de qualidade. O Brasil marcou-me profundamente, não só como treinador, mas como pessoa. Trabalhar num país com aquela dimensão e com aquela paixão pelo futebol foi uma experiência transformadora. Tive o privilégio de trabalhar em contextos muito diferentes, de Norte a Sul, o que me obrigou a uma adaptação constante. Cresci muito na gestão de grupo, na leitura de jogo e na capacidade de decidir sob pressão.