Silvino e uma imagem de 'outro futebol' - Foto: D. R.
Silvino e uma imagem de 'outro futebol' - Foto: D. R.

Tempo, marcador e um breve comentário

'Hat trick' é o espaço de opinião do jornalista Paulo Cunha

Silvino Louro morreu. Antes dele, partiram tantos outros que, tal como o antigo guarda-redes, povoam o nosso imaginário de juventude, quando o futebol chegava, sobretudo, ao domingo nas memoráveis tardes desportivas radiofónicas.

«Tempo, marcador e um breve comentário», ouvia-se no lançamento em estúdio dos repórteres espalhados por estádios de norte a sul do país, às vezes interrompidos pelo cantar do golo dos camaradas noutro campo onde o marcador se agitava — e só no final do grito saído do fundo da alma se percebia a equipa que acabava de faturar.

Quem nunca esteve à beira de um ataque cardíaco enquanto escutava um relato em que cada jogada parecia de perigo iminente? Uma epopeia narrada por vozes que ainda hoje identificaríamos sem dificuldade. Os inesquecíveis dias da rádio, pois claro!

Silvino Louro não é apenas o nome de um jogador com trajeto profissional fantástico, campeão nacional ao serviço de Benfica e FC Porto, além de internacional português. É também, para quem acompanhou a carreira dele, um lembrete de que o tempo passa por nós a uma velocidade imparável.

Vimo-los começar, olhar sempre desconfiado, promessas tímidas que pediam licença para entrar no clube dos imortais; vimo-los afirmarem-se, atingirem o auge, como se o céu fosse o limite; vimo-los saírem de cena, discretamente, como quem fecha uma porta sem fazer barulho.

Silvino Louro permanecerá na memória de quem o viu jogar e nós somos feitos dessas recordações. Talvez seja isso que realmente importa. Não os títulos, não as estatísticas, nem sequer os grandes momentos individuais no esplendor da relva. É a sensação de pertença a um tempo em que acreditávamos, com a convicção dos verdes anos, que eles — e nós — eram eternos e estariam garantidamente na próxima coleção de cromos.

Cada futebolista marcante que conviveu connosco via rádio de pilhas ou caixinha que mudou o mundo, naquela época em que um jogo transmitido na televisão era notícia, quando parte leva consigo um pouco do que já fomos.

Eu (ou)vi jogar o Silvino. O Silvino, o Bento, o Neno, o Damas, o Zé Beto, o Lima Pereira, o José António, o Frederico, o Chalana, o Jordão, o Gomes, o Manuel Fernandes... Quem disse que o futebol não é um pedaço da nossa vida?