Rui Borges, treinador do Sporting
Rui Borges, treinador do Sporting

O respeitinho é muito bonito

Verde à Vista é o espaço de opinião de Carmen Garcia, enfermeira, sportinguista, autora do blogue 'Mãe Imperfeita'

Há uma história tradicional árabe que conta que, todos os dias, um homem carregava um camelo sem dó nem piedade. Mas o animal, com maior ou menor dificuldade, aguentava sempre o peso sem nunca se queixar. A coisa era de tal forma que os vizinhos, todos os dias pela manhã, vinham à porta para ver se era daquela que o animal colapsava. Até que um dia, depois de carregar espectacularmente o camelo, o dono viu que caíra uma pequena palha isolada de um dos fardos que o animal transportava. Depressa a apanhou. Mas mal colocou aquela palha pequenina e quase insignificante de volta ao fardo, o camelo colapsou e foi incapaz de se voltar a levantar. O dono, furioso, gritou-lhe 'carregaste tantas cargas pesadas e deixaste que fosse uma simples palha a partir-te as costas?'. Os vizinhos, cheios de pena do pobre camelo, nem se deram ao trabalho de tentar explicar ao dono que o que tinha rebentado com o pobre animal de duas bossas não fora aquela palhinha em particular, mas o peso que há demasiado tempo carregava. Na minha crónica de hoje, o camelo representa Rui Borges.

Antes que alguém pergunte, não, não havia melhor animal para esta metáfora. Em primeiro lugar porque não quis adulterar a história original e, em segundo, porque o camelo, ao contrário do que nos faz crer o imaginário comum, é um animal bastante nobre e o maior símbolo natural de resiliência: ao contrário da maioria dos animais, os camelos avançam sempre, mesmo em condições adversas. Não ostentam, não são apelativos ou sequer impressionantes à primeira vista, mas atravessam desertos onde outros morrem e carregam pesos que muitos outros recusariam. E assim é Rui Borges.

Acho sempre engraçado quando dizem que, na sua chegada a Alvalade, Rui Borges teve a papinha toda feita por Rúben Amorim. Mas que papinha seria essa? — pergunto. Quais seriam os ingredientes? E se era mesmo tão boa, por que razão João Pereira não a aproveitou e acabou por sair da liderança da equipa sem glória e de barriga vazia?

Só se Amorim deixou uma receita secreta entregue a Paulinho e o obrigou a prometer que apenas a entregaria a um treinador que viesse do interior de Portugal. Nada de litoral, nada de sotaque de Lisboa. «Só dás isto ao meu substituto se ele apreciar uma boa canja ou, talvez, quem sabe, uma bela alheira frita», terá dito Rúben a um Paulinho em lágrimas antes da sua partida para Manchester.

A sério, é ridículo. Rui Borges chegou a Alvalade para encontrar uma equipa órfã, a passar por um péssimo momento e começou cedo a gerir lesões em jogadores importantes e a colocar retalhos na manta — já agora, deixem-me abrir aqui um parêntesis para dizer que o departamento médico do Sporting devia ser chamado a dar uma palavrinha aos sócios porque, uma pessoa queira ou não, começa a ter vontade de consultar o bruxo de Fafe.

Mas como ia a dizer, Rui Borges fez um trabalho notável a gerir a onda de lesões que tem varrido o plantel desde essa altura e acabou por conquistar o campeonato e a Taça de Portugal. Este ano já fez história com o apuramento para os quartos de final da Liga dos Campeões (eu disse que ia acontecer, não disse?). Mas mesmo assim não se consegue livrar do preconceito.

Reparem, a sensação que dá é que o homem pode ganhar tudo, mas nunca vai ganhar o respeito de meia dúzia de gatos pingados que, por qualquer razão, acham que o futebol não é para homens do interior que preferem Casio a Rolex.

E não, não me venham dizer que não há preconceito com Rui Borges. Há e não é pouco. Quantos treinadores já passaram pelo futebol português que nunca ganharam coisíssima nenhuma, mas que foram sempre tratados como senhores? Já Rui Borges tem de levar com os Jaimes Marta Soares desta vida, os Josés Maria Jonets e com uma quantidade inenarrável de jornalistas que dizem coisas como «fez história, mas não devia ver renovado o contrato» sem sequer corarem de vergonha.

E quando finalmente perde um bocadinho a paciência, ai meu Deus que isto é um escândalo. Porque Rui Borges tem de comer as críticas com pão e aceitar com humildade. Afinal ele vem lá de Trás-os-Montes, é suposto baixar a cabeça aos doutores de Lisboa. E agradecer pela oportunidade, pois está claro.

Bolas, há meses que Rui Borges devia ter dado um murro na mesa. Não um como aqueles de Rui Costa, mas um que, de facto, fizesse com que alguns percebessem que o treinador sportinguista deve ser respeitado. E não por uma questão de estatuto do clube que treina, mas porque é um bom treinador, trabalhador, capaz, ganhador e porque, em cima disso tudo, ainda é um homem decente que, ao contrário de outros, não precisa de estar constantemente a puxar cortinas de fumo.

Não era preciso dar a volta à eliminatória com o Bodo/Glimt para Rui Borges ter o direito de exigir respeito. Mas é claro que, depois de tudo o que ouviu na semana do três a zero, a reviravolta na eliminatória e a passagem aos quartos de final serviram como a palhinha que o dono do camelo lhe colocou nas costas: o homem rebentou. E mesmo assim não o fez sequer com um quarto da indignação que seria de esperar depois do tratamento a que tem sido sujeito.

Sabem a sensação que ficou? É que muitos, e dentro destes muitos incluem-se, infelizmente, vários sportinguistas, estão ansiosamente à espera de que Rui Borges e, por consequência, a equipa, falhem. Só para poderem vir depois soltar o ódio que têm acumulado. A derrota com o Bodo/Glimt serviu para mais do que para festejarmos uma reviravolta épica: mostrou-nos também que, mesmo dentro de casa, ainda há viúvas de outros tempos. E elas até podem estar caladinhas em aparente recato. Mas à primeira oportunidade sairão da toca, de faca na liga, prontas a rasgarem as vestes e a pedir a cabeça do treinador, do presidente, do speaker do estádio e da senhora da limpeza da recepção de Alcochete.

Rui Borges pediu respeito. E fê-lo num português perfeito. Um português onde o sotaque do interior, com as suas consoantes marcadas, torna o discurso duro, mas honesto. Uma pena que aqui, no país à beira-mar plantado, os jornalistas pareçam gostar mais de treinadores que, em relação ao português, não fazem sequer o mínimo esforço para tentar. Ainda que o percebam.

Já dizia o provérbio que a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. Parece que o treinador que vem de fora também. Especialmente se o de dentro for do interior e não se despachar a ganhar um bocadinho daquele sotaque que Lisboa acha que não tem.

No pódio
Com a Vitória sobre o SC Braga, o Porto sela o destino: este campeonato já não lhe escapará. É certo que, matematicamente, o campeão ainda não está confirmado, mas se a esperança é a última a morrer, também é verdade que as probabilidades são o que são e é profundamente idiota ignorá-las. E é por isso que o pódio desta semana vai para os azuis e brancos. Se jogam o melhor futebol do campeonato? Não. Mas têm tido uma consistência admirável. Além disso, tal como o Sporting no primeiro ano de Rúben Amorim, sente-se que há por ali uma estrelinha que torna a equipa no oposto das leis de Murphy: tudo o que pode correr bem, corre de facto. E, gostemos ou não, também é disso que se fazem os campeões.
Na bancada
O cartão amarelo de Luis Suárez no último jogo do Sporting arrisca-se a ficar para a história como um dos mais surreais do futebol português. Se não, vejamos: o jogador sportinguista cai, diz que não é grande penalidade (as imagens são claras e estão disponíveis) e acaba castigado com um amarelo por simulação. Não percebo, confesso, o que poderá sequer ter passado pela cabeça de João Pinheiro para amarelar o jogador sportinguista, mas sei que o olhar de Suárez quando marcou o segundo golo da partida diz mais do que mil palavras. Foi uma chapada de luva branca. Tão branca como o cartão que o árbitro, se calhar, lhe devia antes ter mostrado no lugar do amarelo.