O futebol que dorme na forma
Queiramos ou não, por mais maquilhagem que apliquem ao problema, a verdade é que no futebol português nada mudou: Há três clubes que arrecadam mais de 90 por cento do mercado, um outro que tem infraestruturas e capacidade para se afastar dos restantes (embora a época não esteja a ser boa) e os demais vivem na dificuldade, um ou outro consegue, pontualmente, um fogacho, a maior parte das vezes ditado por malabarismos táticos, e no final da temporada haverá cerca de 40 pontos a separar o campeão do quinto classificado.
A falência da classe média do nosso futebol acentuou-se a partir de 1995 e da Lei Bosman, que deu aos grandes meios, através de uma subsequente aposta na formação e na venda dos principais ativos, de atuarem em mercados proibitivos para os demais. Apesar do Torreense, que soma três pontos na Liga Europa, já ter feito mais do que se esperava, a temporada dos clubes portugueses nas competições da UEFA, que começou prometedora, ameaça desmoronar-se com reflexos no ranking de Portugal, e a culpa, para quem quiser observar a situação friamente, reside no facto da nossa I Liga ter jogos, ou nivelados por baixo, ou desequilibrados, mesmo que, graças a ‘autocarros’ e outros expedientes, os resultados por vezes não reflitam essa realidade. E como seria possível ser diferente se as receitas televisivas variam de um para quinze (e continuo cético quanto ao sucesso do processo de venda centralizada dos direitos televisivos - meu caro Reinaldo Teixeira, tudo o que desejo é estar enganado…), para não falar da incipiência das infraestruturas da maior parte dos clubes e das assistências diminutas, quando retirados os três grandes da equação.
Enquanto os clubes preferirem o ‘penacho’ de competir na I Divisão, em detrimento da aceitação da nossa realidade social, económica e desportiva, nada se alterará, andaremos a empurrar com a barriga, adbicando do salto quântico que seria dado através de uma reformulação dos quadros competitivos do futebol profissional. Isto é uma espécie de pescadinha de rabo na boca: é impossível mudar seja o que for porque os clubes que não estão interessados na mudança têm mais votos que os outros, e bloqueiam tudo o que possa colocar em causa o seu estatuto de primodivisionários.
Mas quem pode alterar este deprimente estado das coisas? O Governo não é, não tem nada que se imiscuir nos quadros competitivos de cada Federação; a FPF também não, porque o futebol profissional é coutada da Liga de Clubes; e a Direção da Liga, que se encontra sujeita à vontade maioritária dos clubes, também, por mais que deseje a implementação de um quadro competitivo diferente, está de pés e mãos atados.
Quem tem, então o poder? Os clubes, que - um pouco como nas eleições para a presidência da FIFA - valem todos o mesmo em termos de votos, dois para a I Liga e um para a II. Será possível uma solução reformista? Não acredito nessa possibilidade. Se os clubes grandes, que de facto representam mais de 90 por cento do negócio, não deixarem as rivalidades bacocas de lado e não se chegarem à frente, continuaremos como estamos, a dizer que somos melhores do que realmente somos, a olhar para o umbigo e a ficar cada vez mais longe de quem não anda a dormir na forma.
CARTAS
ÁS
Dódi Lukébakio
O internacional belga, a quem os recentes jogos pelos ‘diables rouges’ devolveram confiança e retiraram ansiedade, assinou em Nicósia um momento de pura classe, ao correr 50 metros com a bola e só a soltar para entregá-la em bandeja de prata a Prestianni, que não falhou. A equipa antes do indivíduo.
ÁS
Patrick Morais de Carvalho
A reeleição de Patrick Morais de Carvalho como presidente do Belenenses traduz o apoio dos sócios ao caminho das pedras que o clube quis trilhar, e a confiança na capacidade do líder reeleito em levar os azuis do Restelo ao lugar no futebol nacional que é historicamente seu.
ÁS
Nuno Lopes
O mundo está, de facto, a ficar esquisito: a França é campeã do Mundo de hóquei em patins, batendo Portugal e a Argentina. Mérito dos gauleses, treinados pelo alentejano Nuno Lopes, onde evolui o clã Di Benedetto, Roberto, Carlo e Bruno, jogadores de Benfica, FC Porto e Oliveirense.
CAPA
O Príncipe de Rosário coroado nas Astúrias
Lionel Messi, que jogou com a Argentina três das últimas quatro finais do Campeonato Mundo, recebeu das mãos da sucessora ao trono de Espanha, Leonor, o prémio Princesa das Astúrias de 2026, na categoria de Desporto: um diploma, uma escultura de Joan Miró, um emblema e 50 mil euros. Em paz com a ‘albiceleste’, de que já se despediu, mantendo velocidade de cruzeiro em Miami, Messi está a viver uma pré-reforma feliz.
FOTOLEGENDA
INFANTINO. Escrevi-o durante a tormenta que se abateu sobre Gianni Infantino, por altura da abortada venda dos direitos sobre o Campeonato do Mundo, e o tempo parece dar-me razão: cada vez mais se perspetiva a reeleição do atual presidente da FIFA, com o conforto que os votos que lhe vão caindo no regaço lhe dão. Embora muitas das mais importantes Federações Nacionais, nomeadamente na Europa, estejam contra esta evolução na continuidade, a verdade é que, por um lado, Infantino vai recolhendo apoios para chegar aos 106 votos que precisa para ser reeleito; por outro, e as candidaturas devem ser apresentadas até 18 de novembro, não há rival à vista. Aliás, na história da FIFA apenas um presidente /candidato não foi reeleito: Stanley Rous, em 1974.