Sinais que o Benfica não pode ignorar
A presença de cerca de duas centenas de adeptos no centro de estágios do Benfica, apesar da forma ordeira como decorreu o protesto e das conversas mantidas em tom correto entre os líderes do movimento e o diretor-geral, diretor técnico, treinador e capitães da equipa — segundo informou o próprio clube —, torna impossível não recordar a invasão à academia do Sporting em maio de 2018, essa sim violenta e com consequências graves a vários níveis. Também faz lembrar as manifestações de dimensões alarmantes que tantas vezes se registam em clubes da América do Sul.
A fronteira entre o protesto legítimo e a intimidação é muito estreita, ficando apenas a um passo da ameaça — ou pior. O Benfica enfrenta agora um contexto delicado, mas do qual terá de retirar uma conclusão óbvia: os adeptos, mesmo que os presentes no Seixal não representem todo o universo benfiquista, não estão apenas insatisfeitos — perderam paciência e mostram-se revoltados com os resultados, as exibições da equipa de futebol e, sobretudo, com a sensação de que não há um rumo claro para algo diferente.
É precisamente aqui que a Direção do Benfica deve agir e comunicar melhor. A luta pelos objetivos ainda em aberto — o campeonato e a qualificação para a próxima fase da Champions, ambos difíceis de alcançar — tem de continuar. Mas, além de pensar no imediato, é determinante planear a próxima época com visão e coerência.
É determinante planear a próxima época com visão e coerência.
O Benfica pode transformar este mau momento numa oportunidade para definir com clareza o que quer ser. Mostrar aos adeptos que está consciente da situação e que trabalha com confiança é essencial. Importa decidir se continuará com José Mourinho para além desta temporada, apostar em contratações equilibradas e corajosas, e fortalecer a integração dos jovens formados no clube, em vez de olhar apenas para oportunidades de negócio.
O Benfica pode transformar este mau momento numa oportunidade para definir com clareza o que quer ser.
Mesmo os adeptos mais impacientes saberão dar crédito à Direção se sentirem que existe um projeto desportivo sólido e coerente. Tudo muda ao ritmo das vitórias, e o plantel tem a seu favor um balneário aparentemente unido e comprometido — fruto da liderança de Mourinho e de Nicolás Otamendi, capitão e referência dentro e fora de campo. Ainda que o Benfica tenha sido penalizado por várias lesões de jogadores importantes e fatores além futebol, é incontornável reconhecer que perdeu terreno demasiado rápido para os principais rivais.
É incontornável reconhecer que perdeu terreno demasiado rápido para os principais rivais.
Hoje, os benfiquistas parecem confusos quanto ao verdadeiro projeto para a equipa de futebol. O que se passou no Seixal não deve repetir-se, mas é um sinal claro que a Direção do Benfica não pode ignorar.