Rui Borges está em construção para a alta competição internacional
Na pretérita época Rui Borges (e respetivo staff) conseguiu conquistar o título nacional, vencer a Taça de Portugal, ultrapassar a primeira fase da Champions, ultrapassar o trauma de orfandade que Rúben Amorim deixou em Alvalade e mesmo assim ainda não convenceu de todo o futebol português.
Observem-se três exemplos deste ceticismo, dois antes da vitória sobre o FK Bodo/Glimt (18 de março) e outro após: Rui Calafate (Record, 13 março) «… Já provou inúmeras vezes que em determinados momentos é muito poucochinho»; Rui Santos (CNN, 16 março) «mas permita-se a pergunta: será o treinador certo para o Sporting?»; e Luís Mateus (A Bola, 20 março): «Algo me diz que falta algo a Rui Borges, mas não sei dizer o quê.» A obra seminal de Pierre Bourdieu (1930-2002), Teoria da Prática, com os seus conceitos chave habitus e capital, ajuda a explicar por que Rui Borges enfrenta tanta inquietude e desconfiança.
O habitus de Rui Borges, entendido como o conjunto de disposições incorporadas — maneiras de pensar, perceber o mundo e agir — ao longo da sua trajetória desportiva, revela-se decisivo para compreender o seu posicionamento no futebol português. Formado no contexto periférico do futebol transmontano, habituado a competir em clubes modestos enquanto jogador, com uma carreira de treinador desde adjunto (Académica, Boavista e Vizela) a treinador principal no Mirandela e noutros clubes de menor projeção até aos aproximadamente seis meses que passou no Vitória SC antes de entrar no Sporting, não foi reconhecido como um habitus talhado para a grandeza do Sporting.
As experiências de Rui Borges antes do Sporting, vividas em ambientes onde os recursos eram escassos e a margem de erro reduzida, moldaram um habitus pragmático, resiliente e orientado para a maximização das condições disponíveis. A sua postura discreta, a humildade e a preferência por processos metódicos refletem disposições profundamente enraizadas, que continuam a orientar a sua prática. No entanto, no Sporting, Rui Borges é obrigado a refinar o habitus. Adaptou-se às rotinas de alta competição onde passou a integrar: análise avançada de desempenho, planeamento microcíclico curto e gestão de cargas de treino ao nível europeu, mais convivência diária com jogadores habituados a padrões internacionais. O Sporting é um campo diferente — e, como diria Bourdieu, cada campo exige disposições próprias — onde teve que impor uma disposição estratégica — ideia de jogo — de controle, impor ritmos intensos e assumir o jogo. O treinador que antes se moldava ao adversário passou a moldar o jogo. E é esta reconstrução que ainda está em curso como matriz estruturante da sua identidade profissional, influenciando tanto o seu estilo de liderança como a sua abordagem estratégica e tática que por vezes não consegue serenar os espíritos mais inquietos e céticos.
O conceito de capital, em Bourdieu, refere-se ao conjunto de recursos — económicos, sociais, culturais e simbólicos — que Rui Borges mobiliza para ocupar a sua posição no futebol. Iremos somente abordar o cultural e simbólico. O capital cultural inclui formação, cursos, conhecimento tático, metodologias de treino, orientação dos momentos de jogo, entre outros. O percurso de Rui Borges evidencia formação técnica formal e experiência adquirida. No entanto, a ausência de experiência em níveis competitivos elevados durante a sua carreira enquanto jogador e treinador (por exemplo como adjunto em clubes de topo, tal como aconteceu com José Mourinho ou André Villas-Boas). Ou como treinador principal em clubes como o SC Braga e Vitória SC (apesar dos seis meses lá passou) parece condicionar a forma e a dimensão do seu capital cultural. Contudo, esta limitação não tem impedido a sua progressiva acumulação de capital cultural específico no Sporting, onde tem beneficiado de rotinas, metodologias e códigos tácitos próprios da elite futebolística com visíveis resultados na evolução tática do Sporting. Mas, o capital cultural não se faz só de competências técnicas. As competências interpessoais — comunicação, liderança, gestão emocional e adaptabilidade — também são parte integrante e instrumentos decisivos para a legitimação da eficácia técnica e simbólica no futebol profissional. No caso de Rui Borges, a perceção de ser «poucochinho» provavelmente vem da ideia de que a sua comunicação para o exterior ainda não apresenta o nível requerido em clubes de topo, na qual se inclui a sua postura durante os jogos, da sua adaptabilidade tática para reposicionar controle e ritmos do jogo e gestão emocional dos atletas em momentos apertados da contenda. Assim, provavelmente é nestas três competências que «falta algo a Rui Borges». Tem-se então um constrangimento de capital cultural a necessitar de atenção, mas ultrapassável com formação, mentoria ou mesmo um coach para o mister. Haja vontade e paciência das partes — Rui Borges e Sporting — e a coisa compõe-se. Um bom exemplo foi a relação entre o Professor Manuel Sérgio (1933-2025) como mentor intelectual e conselheiro de Jorge Jesus, cuja influência combinou formação académica em motricidade humana com diálogo contínuo sobre prática e filosofia do treino.
O capital simbólico que surge e emerge do prestígio dos palcos de alta competição, dos resultados obtidos e reconhecimento público. A evidência do futebol português é valorizar em demasia o capital simbólico em desfavorecimento de indivíduos com menor reconhecimento, mas com competências assumidas e testadas na prática diária. Este é o caso de Rui Borges antes de iniciar o seu percurso em Alvalade e que parece perdurar, apesar da eficácia prática das suas ideias, aliada à sua capacidade de maximizar recursos, estruturar e organizar equipas ter-lhe permitido angariar capital simbólico visível no prestígio crescente, na reputação de competência e na narrativa pública de autenticidade e superação que a imprensa lhe atribui.
Por último, a resposta teórica à pergunta «será o treinador certo para o Sporting»? Se é que existe treinador certo, surge da articulação do habitus que está ser reconstruído por Rui Borges, da evolução na continuidade do capital cultural e simbólico permitirem a validação da autoridade de Rui Borges — a sua capacidade de concretizar ideias e o seu cada vez maior prestígio — funcionando como mecanismos centrais de legitimação e poder. Ou seja, Rui Borges é hoje um treinador em reconstrução veloz para a alta competição internacional. Parece que o Sporting quer patrocinar essa empreitada. Se assim for, apesar de existirem fatores fora do controle, é de momento o projeto certo de treinador para o Sporting.