Foram colegas de campo no Mundial da Alemanha. Hoje o antigo guarda-redes é treinador na equipa técnica de Portugal para o Mundial 2026 e volta a cruzar-se com Cristiano Ronaldo num Campeonato do Mundo. 20 anos depois, Ricardo fala do que mudou em CR7, com rasgados elogios

Ricardo, 2006: «Nada é maior do que jogar pela Seleção no Mundial»

Sob o comando de Luiz Felipe Scolari, Portugal só caiu nas meias-finais. Grupo combinou a experiência da 'Geração de Ouro', liderada por Luís Figo, com a ascensão de jovens talentos como Cristiano Ronaldo

No Mundial da Alemanha em 2006, Portugal foi quarto classificado. Conseguiu uma boa prestação e teve alguém que entrou para a história como o primeiro guarda-redes que defendeu três penáltis num jogo do Campeonato do Mundo. Foi nos quartos de final frente à Inglaterra. Ricardo é agora treinador de guarda-redes da Seleção, integrado na equipa técnica de Roberto Martínez. É ele que vai preparar Diogo Costa, Rui Silva, José Sá e Ricardo Velho no Mundial deste ano. 20 anos depois de ter feito história como guarda-redes de Portugal, vai tentar entrar na história como treinador. Na Cidade do Futebol recebeu A BOLA para falar dos memórias de 2006 e dos sonhos de 2026.

— Ricardo, em 2006 entraste para a história ao ser o primeiro guarda-redes a defender três penáltis num Mundial, foi nos quartos-de-final frente à Inglaterra. Foi um momento de glória?

— Foi inesquecível. Podemos jogar nos melhores clubes do Mundo, mas o melhor clube acima de tudo é a Seleção do teu país. A Seleção Nacional é tudo aquilo que nós sonhamos um dia representar. E eu tenho esse privilégio agora como treinador, que é ainda mais gratificante ainda. Mas, não há nada acima de jogares pela tua Seleção num Mundial. Ainda pode ser que algum dia inventem alguma competição maior que o Mundial, mas não acredito. Só se meterem na lua ao barulho [risos] Esse jogo ficou na história mas só no final é que eu soube que era o primeiro guarda-redes a defender três penáltis numa fase final do Mundial. Depois já fui empatado por dois croatas que também já o fizeram. Esse jogo com a Inglaterra mexia muito com as emoções de todos por causa do Euro 2004. Mas, trocava esses dois jogos por finais coletivas. Se tivéssemos ganho esse Mundial… Éramos muito fortes e estávamos muito fortes. Perdemos o jogo da meia-final por 1-0 frente à França, com um golo de penálti [de Zidane] e a história podia ter sido outra.

— Sentiste-te um herói?

— Não. Nunca me senti herói de nada. Senti-me sempre agradado e um privilegiado porque o desempenho individual ajudou a que coletivamente conquistássemos algo. O futebol é um jogo coletivo, apesar de para o guarda-redes ser um jogo um bocadinho mais individual. Recordo-me que nos últimos cinco minutos do prolongamento, os ingleses estavam com pressa pois não queriam ir novamente para penáltis contra mim. Mas, o aproximar da decisão nos penáltis estava a encher-me a ampulheta da confiança.

— Qual dos três penáltis te deu mais gosto defender?

— Lembro-me de estarmos naquela pequena reunião antes e ter garantido ao mister Scolari que iria defender o primeiro e que ia ser do Lampard. Eu sabia que se aguentasse até ao fim, ia conseguir responder à maneira do Lampard bater na bola. Aguentei até ao fim e defendi a bola. Isso pesou para a equipa inglesa. Ficaram desanimados… De seguida nós falhámos dois penáltis. Defendi o do Gerrard e o que me deu mais gozo desses três foi o do Carragher. Olhei para a cara dele e pensei: 'Já foste. Estás todo borradinho!' [Risos] Foi o penálti que mais gozo me deu. Sabia que se defendesse nós ganhávamos porque a seguir vinha o Cris e ele não falhava.

Olhei para o Carraghere pensei: 'Já foste. Estás todo borradinho!'

— Era o Cristiano que iria a seguir e ele estava a aparecer mas já dava essa segurança?

— A segurança já o caracterizava e era um Mundial especial para ele, pois foi uma competição grande a seguir ao falecimento do pai dele. Tudo lhe dava ainda mais essa força interior, essa qualidade, que não conseguimos transmitir nem explicar em palavras.

— No Euro2004 frente a Inglaterra decidiste tirar as luvas mas no Mundial 2006 mantiveste-as.

— Cada momento é diferente. Em 2004 tirei as luvas porque estava farto de estar ali a ser enganado e precisava de fazer alguma coisa para mexer com aquilo. Em 2006 foi outra história.

— Para além desse jogo, que momento é que mais guardas dos sete jogos que fizeste em 2006?

— Para mim o jogo com a Holanda é o que vai ficar para sempre para mim e para muitos colegas meus, pelas condicionantes que esse jogo teve. Particularidades muito difíceis de gerir, muito feias para o nosso lado que estava. Esse jogo teve tudo para tentar acabar com a nossa prestação nesse Mundial. Tudo o que se passou antes do jogo, no hotel onde sairmos, depois no jogo. Comprovou-se que as coisas estavam a ser cozinhadas para que a prestação da nossa Seleção acabasse por ali. Podíamos perder qualquer jogo menos esse. Vencemos 1-0, mas aquilo era a Batalha de Nuremberga. O Cristiano saiu ao minuto 34, depois de uma falta violentíssima, e depois de tentar aguentar dentro do campo.

—O Figo também levou uma cabeçada. Houve duas expulsões. Como é que lidaram com isso?

— Aquele jogo transcendeu-se em tudo. Qualquer ação que nós fazíamos era para ser elevada ao melhor nível da confiança, da resiliência, do espírito lusitano. Carregou-nos até ao fim num jogo que foi duríssimo.

— E depois, no autocarro, quase meia equipa lesionada, e dois castigados, e o adversário seguinte era a Inglaterra. Como geriram aquilo?

— E nós nessa altura tínhamos uma família, O que o mister construiu à volta daqueles atletas era algo que nos faz sentir orgulho daquela equipa. Tinhas ali uns comandantes e uns generais. Gente mais velha, como o Luís [Figo], o Pauleta, o Costinha.. Depois era tudo a vir um bocadinho mais para baixo. Eu também era dos mais velhinhos. E havia os outros mais novos. Era a renovação automática da Seleção Nacional. Era muito importante, porque as pessoas não se esquecem que o Luís [Figo] não tinha feito a qualificação para o Mundial de 2006. Nós sentimos depois do Euro 2004 que ele teve um ano sabático em termos de Seleção, e depois voltou porque fazia falta, pelo que jogava e pelo grande capitão que sempre foi. Era muito importante tê-lo pelo que transmitia ao Cris, que era dos mais novinhos e aos outros.

O Cris é alguém ímpar que dificilmente será repetido

— Scolari, pelo carisma que tinha, também foi importante para a reintegração de Luís Figo?

— Sim. Scolari foi importante desde a sua chegada mudou muitas coisas, partiu muita pedra. Quem o conhecia bem, aquela coisa do sargentão era imagem. Ele não nos conseguia dizer que não. Era um coração mole. Dava-nos a máxima liberdade com a máxima responsabilidade. Muita coisa mudou com ele. Pela primeira vez tínhamos um selecionador campeão do mundo como treinador e isso ajudou-nos a criar outra dimensão. Vir o campeão do mundo treinar a Seleção Nacional para a Federação Portuguesa de Futebol foi muito importante porque depois vais colhendo os frutos Se não treinares bem, se não fizeres o trabalho bem feito depois não a Nossa Senhora do Caravaggio que te ajude [risos].

— Agora disseste uma expressão que ele nos deixou a todos, com a Nossa Senhora do Caravaggio e a outra dele que recordo sempre foi quando disse:'Deixem jogar o menino'. O menino Cristiano Ronaldo nesse Mundial 2006 era o 17 porque o 7 era de Figo. Pós-2006 é que ficou com o 7. Se tentares recordar esse menino de 17 nas costas e que agora aos 41 vai para o último Mundial, o que dizes?

— Olho hoje para o Cris com 41 anos e vejo-o com um aspeto um bocado diferente. Está mais bonito agora e tudo [risos]. Fora de brincadeiras, a ambição e as características estão lá todas. A velocidade pode já não ser a mesma, de andar a 200 km/h, já anda só a 195 km/h. É na mesma altíssima. Muitas coisas nas características como jogador, O Cristiano, tornou-se uma máquina de fazer golos. Deixou de ser um driblador, e passou a ser um jogador demolidor, Comparando esse jogador com 17 nas costas e hoje com o 7 com 41 anos vejo a mesma dedicação, o mesmo compromisso, a mesma preocupação com os outros, se estão bem, e a mesma paixão. Enquanto as qualidades físicas, técnicas e mentais estiverem lá o Cris é uma máquina destruidora, e com ele o perigo está sempre à espreita. Não há mais palavras para o descrevermos, porque é alguém ímpar que dificilmente será repetido.

— Há 20 anos eras o guarda-redes da equipa dele. 20 anos depois, és o treinador de guarda-redes da equipa dele.

— É difícil. Não há muitos treinadores assim [risos].

Temos sempre orgulho por qualquer desempenho na Seleção Nacional

— Quando olhas hoje para ele, é um privilégio acompanhar de perto a evolução que fez ao longo da carreira?

— Sim, claro. Estamos juntos muitas vezes e falamos. Eu continuo a falar para ele como um colega, apesar de sabermos que estou deste lado como treinador. Não temos capas. O que falamos, essa cumplicidade é a mesma porque quando jogas tanto tempo juntos e passamos momentos tão bons e outros tão difíceis juntos, não há nada que possa falsear. Ele sabe, e toda a nossa equipa técnica sabe, que toda a proximidade com estes atletas não interfere coisíssima nenhuma com o trabalho. Vai sim criar uma aura maior à nossa volta. Isso aconteceu também com o Rui Patrício, que já não está connosco neste momento, e com o Pepe. Tinham estado comigo como jogadores e essa força que nós tínhamos depois de estar do lado de treinadores não é nenhuma fragilidade, É força mesmo. Não há privilégio nenhum. Há o privilégio de estarmos juntos e sabermos aquilo que nos podem dar. E ele sabendo que eu estou deste lado, conhecendo-me a mim e ao Ricardo Carvalho, que jogamos juntos e ele ainda jogou mais tempo com o Ricardo, sabe que tem tudo da nossa parte, até a exigência. Isso é fantástico para nós como treinadores e até para ele, como jogador. Dificilmente olho para o Cris como treinador. Vejo-o mais como um dono de alguma coisa. Nunca lhe disse, mas vejo-o mais como empreendedor. Não o vejo tanto como treinador.. Pela maneira dele ser, pois tudo o que tenha a chancela dele vai ter a qualidade, a exigência e tudo aquilo que ele põe na sua vida desportiva e pessoal. E vai estar sempre muito mais perto de ter sucesso. Porque ele é assim. Nós somos muito exigentes connosco quando somos atletas. No treino, no descanso, na alimentação e em tudo, e o Cris é um bocadinho mais que os outros todos. Felizmente o Cris ainda está connosco e infelizmente para os adversários.

— Juntos ficaram em quarto lugar no Mundial 2006. Sentes mais pena por não terem conseguido vencer ou mais orgulho pelo que fizeram?

— Orgulho vamos ter sempre por qualquer desempenho que tenhamos pela Seleção. Esse quarto lugar custa-nos porque jogámos o jogo que ninguém quer jogar. No Mundial quando perdes uma meia final só te apetece fugir. Se o Mundial for na América, tu queres ir para a China. Se o Mundial for na China, que queres desaparecer dali o mais rapidamente possível. Não vais jogar o jogo que queres jogar, que é a final, e tens de jogar o 3º e 4º lugares… Nós merecíamos ter ido a essa final e a história tinha sido escrita de outra maneira. Não tenho dúvidas nenhumas. Custou-nos muito ter jogado e ter ficado em quarto. Foi uma classificação super digna e recordo-me da chegada a Lisboa. O que nós vimos e sentimos por parte dos adeptos foi incrível. Parecia que tínhamos ganho um Mundial. Porque o povo português viu que, apesar de não termos ganho, aquela equipa deu tudo, jogou um futebol fantástico, honrou e dignificou a nossa bandeira. Isso é o que temos de fazer sempre. E nós fizemos em 2006. Agora, deste lado, como treinadores, nós sabemos que eles são bons e sabemos que no fim só vai ganhar uma seleção. Sonhamos e queremos que seja a Seleção Nacional, mas se isso não for possível, o talento e a qualidade é igual aos melhores do mundo. Temos de ter essa noção da realidade. Todos nós estamos muito esperançados. Felizmente toda a gente fala que Portugal pode ser, mas temos de ter a noção que campeão do Mundo só vai ser uma seleção daquelas 40 e tal que lá vão estar. Tudo iremos fazer para que seja a nossa, mas pode não acontecer.

Dificilmente olho para o Cris como treinador. Vejo-o mais como dono de alguma coisa

Ricardo com a camisola que usou no mítico jogo com a Inglaterra em 2006 e a bola do jogo, assinada pelo árbitro e pelos jogadores de Portugal (Foto: André Carvalho)

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