João Pinheiro chega ao Mundial e conquista uma presença de inegável prestígio e qualidade — Foto: IMAGO
João Pinheiro chega ao Mundial e conquista uma presença de inegável prestígio e qualidade — Foto: IMAGO

Os campeões do Mundo

João Pinheiro saberá aproveitar a extraordinária experiência do Mundial para dar ainda maior enquadramento e qualidade à fantástica carreira internacional. Livre e Direto é o espaço de opinião de Rui Almeida, jornalista

João Pinheiro

Em Portugal, o hábito é contestar. A crítica aos árbitros e às arbitragens apontam, muitas vezes, a razões pessoais, e tornam-se, pela transversalidade das redes sociais e pela sua voracidade, impensáveis e inadmissíveis.

João Pinheiro chega ao Mundial de futebol e conquista uma presença de inegável prestígio e qualidade. Arbitra três jogos (Suíça-Bósnia e Herzogovina, Canadá-África do Sul e Argentina-Suíça) e é quarto árbitro de Danny Makkelie no Marrocos-Haiti.

Enquanto no país se multiplicam, com absolutas responsabilidades da comunicação social, as questiúnculas e críticas, as dúvidas e questões, num país pequenino em tantas coisas e muito pouco virado para o engrandecimento e qualificação dos que, realmente, fazem a diferença quando em cotejo internacional de grandes responsabilidades, João Pinheiro segue o seu caminho, com Luciano Maia e Bruno Jesus, e permanece numa task force de treze árbitros para os jogos finais da competição, após ter obtido excelentes avaliações nas três partidas em que foi árbitro central.

Fica naturalmente sem nomeações para os quatro jogos finais, em que a geopolítica do apito fala mais alto e é importante ser equilibrado nas nomeações. Com ele, também sem jogos, ficam Marciniak, Sampaio, Faghani…

João Pinheiro é um árbitro ainda jovem (38 anos), e consigo aporta a possibilidade óbvia de ser designado para o Mundial de 2030, em Espanha, Marrocos e Portugal. Poucos imaginam a capacidade técnica, física e psíquica necessária para se chegar ao nível de um Mundial.

A esmagadora maioria dos que critica, aliás, nem sabe quantas são as Leis do Jogo. Mas arroga-se o direito de lançar atoardas, tantas vezes sob o anonimato, cobardia permitida pela voracidade das redes sociais.

João Pinheiro é um campeão do Mundo, e saberá, certamente, aproveitar a extraordinária experiência do Mundial da Américas para dar ainda maior enquadramento e qualidade à sua fantástica carreira internacional.

Bubista

Começou por surpreender o mundo com uma qualificação imaculada, num grupo do continente africano que incluía Camarões, Líbia e Angola. A carreira dos Tubarões Azuis no caminho para o Mundial fez da equipa do arquipélago mais a sul da Macaronésia a grande sensação.

Realidade insular, ultraperiferia, dificuldades suplementares em reunir um combinado de prestígio, eram apenas pequenos obstáculos de pormenor para Bubista, o treinador que tudo sabe do futebol do seu país, e que sempre pensou possível o milagre do apuramento.

Imagine-se o que se seguiu nas Américas: bater o pé a três campeões do Mundo (Espanha, Uruguai e Argentina), não está ao alcance de todos. Aliás, é acessível a muito poucos. Pois Cabo Verde entrou nas bocas do mundo pela sua determinação, pela garra, pela capacidade de encarar todos os momentos do jogo como se fosse absolutamente decisivos. E foram. Até projetarem a equipa do arquipélago atlântico do modo mais simples possível: ao mais alto nível do planeta futebol, orientando os adeptos numa lógica de crença e orgulho impensáveis alguns meses antes da aventura mundialista.

Bubista, com um punhado de heróicos cabo-verdianos, é campeão do Mundo. Mostrou a todos, aos seus e ao resto do mundo, que quando se une esforços em torno de um objetivo comum, não há tempo que nos faça esperar, não há baliza que nos faça duvidar…

Marc Cucurella

Há um ano, quando se sagrou campeão mundial de clubes pelo Chelsea, havia já deixado a sua marca inconfundível. Um lateral-esquerdo que se projeta com extremo, que faz da garra e da confiança marca de água, e do seu denso cabelo aviso claro aos adversários.

Marc Cucurella protagonizou uma das mais badaladas transferências do último mercado, trocando os blues de Stamford Bridge pelo Real Madrid. Mas antes de se afirmar no Paseo de la Castellana, volta a provar porque deixou, no último Europeu, Alex Grimaldo no banco: Cucurella é, para todos, um dos melhores laterais do mundo e, para muitos, o melhor.

A raça infindável, a capacidade física invejável, a vontade como joga, são cartões de visita do novo jogador merengue que, na sua seleção, é incontornável figura. Antes mesmo da final, Marc é já um campeão do Mundo, e quer juntar ao escudo de clubes a glória maior na sua seleção.

Lionel Messi

Começam a faltar palavras para falar deste rapaz de Rosário, cidade do futebol e de grandes rivalidades entre Newell’s Old Boys e Rosario Central. Aos 39 anos, a perceção do jogo que Messi demonstra é apenas mensurável na exata proporção da sua humildade.

Sem bola, a sua influência na seleção argentina é ainda maior do que quando a tem nos pés.

Porque procura a posição ideal, percebe os movimentos adversário, encontra linhas de passe e permite, quando a equipa volta a ter bola, uma rápida decisão aos companheiros.

O maior perigo de Lionel é, justamente, quando a sua equipa não tem a posse. Os oponentes reconhecem-no, e sabem que a magia, a qualidade técnica, a visão e a imprevisibilidade fazem o resto.

Marcador, assistente, ou simples elemento de equipa, Lionel Messi traz o puro futebol. Joga na equipa e a equipa joga com ele. Não espera que do céu surja o que quer que seja, nunca aponta para si, antes se integra no coletivo, percebendo exatamente que essa é toda a essência do jogo.

A Argentina joga com alma, com uma condição única que se traduz na presença de espírito e na qualidade de cada jogador transmitida ao todo. É aqui que entra o homem que, à beira dos 40, não precisa voltar para provar absolutamente nada. Porque nunca deixou de estar onde era preciso para levar os seus colegas a patamares de excelência.

Se noutros casos a piada se faz sozinha, com Messi basta, só, a segurança de um extraterrestre: na qualidade de passe, no brilhantismo da finta, na excelência do sentido coletivo, na capacidade de decisão, sempre que é necessário.

É isso que o faz estar junto a Edson Arantes do Nascimento e a Diego Armando Maradona como um dos três Olimpos.

Afinal, Leo é também D10S.

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