Treinador teve época sofrida no Portimonense e quer outras condições

«Quero poder lutar por subir de divisão»

Tiago Fernandes pretende ter maiores garantias para poder chegar ao sucesso

— Segundo sei, tem um convite para ficar no Portimonense. Já decidiu se continuará? 

— Estamos em conversações. Tenho uma relação fantástica com toda a estrutura e fomos uma autêntica família. Ficando ou não, levo-os como amigos para a vida. Esta união foi a chave para a manutenção, sobretudo após a derrota por 2-3 com o Paços de Ferreira, depois de estarmos a ganhar 2-0. O Teo e o Rodinei foram ao balneário e blindaram a minha posição perante o grupo, dizendo: ‘Vocês podem perder os jogos todos que o treinador não sai daqui. É ele a pessoa em quem acreditamos e que nos vai manter na Liga 2; vocês é que têm de dar mais e correr mais. Tudo é minuciosamente trabalhado no treino, vocês é que têm de interpretar melhor e estar mais focados’. Essa palestra foi decisiva. Ganhámos uma força gigante graças a uma Direção que me apoiou em vez de me mandar embora pela porta pequena, como seria mais fácil. Sentimos sempre que batíamos os adversários de igual para igual. Tivemos jogos infelizes, mas o expoente máximo da nossa raça foi frente ao Benfica B, onde conseguimos ganhar com nove jogadores desde a meia hora e com um defesa central na baliza, após as expulsões dos nossos dois guarda-redes.

— Nunca se sentiu atraiçoado por lhe terem prometido uma coisa e a realidade ser bem diferente? 

— Não é uma questão de me sentir atraiçoado, mas mentiria se dissesse aqui que não esperava dispor de outras armas e argumentos para lutar contra os meus colegas de profissão. Às vezes ouvia outros treinadores dizerem na imprensa: 'Ah, o Portimonense é um candidato crónico; vamos jogar contra um candidato à subida'. Isso era pura conversa para inglês ver, porque nós sabíamos perfeitamente, internamente, que não tínhamos esses recursos. Não se trata de desilusão com as pessoas. Quando preparamos uma época, organizamos as coisas de antemão para estabelecer um objetivo claro. No Portimonense, a meta inicial assumida era lutar para subir de divisão. Em função do que aconteceu depois no início da temporada — o facto de não conseguirmos arrecadar as verbas que os outros clubes nos deviam —, as expectativas tiveram de baixar drasticamente. Tivemos de voltar à estaca zero e reprogramar a época toda, vendendo dois ou três ativos importantes para equilibrar as finanças. O que é certo e factual é que garantimos a permanência na Liga 2 e pagámos os vencimentos todos aos jogadores a tempo e horas, que era o mais importante para a dignidade do grupo.

— Que tipo de projeto pretende para a próxima época? 

— Tenho muito bem definido na minha cabeça para onde quero ir e em que patamar quero estar. Não sei se será possível concretizar já ou não. Neste momento, há muitos treinadores ou jogadores que dizem convictamente: 'Ah, o meu futuro está entregue ao meu empresário e ele que decida o melhor'. Como não tenho agente neste momento, sou eu próprio que estou a analisar diretamente algumas propostas interessantes que me fizeram chegar.

— Pretende um projeto sólido para subir de divisão, por exemplo? 

— Sim, perfeitamente, também passa por aí.

— Será um passo em frente na carreira? 

— Sim, gostava de ter as condições logísticas e desportivas necessárias para competir de igual para igual com qualquer adversário neste campeonato. Isso é o que eu quero, do que gosto e o que ambiciono para o meu futuro. Foi assim que consegui obter excelentes resultados na Liga 2 anteriormente: quando tive as armas certas para defrontar os opositores. Agora é tempo de descansar um bocadinho a cabeça — embora um treinador nunca desligue verdadeiramente do futebol — e analisar bem as opções, porque quero dar o passo certo e firme no sentido de dar continuidade à minha carreira da melhor maneira possível.

— Arrependeu-se de ter trocado o Torreense, que acabou de ganhar a Taça de Portugal, pelo Portimonense

— Não, de forma alguma, sinto que foi o fechar natural de um ciclo. Fiz dois anos magníficos em Torres Vedras. Fico extremamente feliz pela equipa, pois a base que agora ganhou a Taça foi construída por nós na época passada. Embora, como é óbvio, não fique contente por terem ganho a final ao Sporting, já que jamais fico feliz com uma derrota do meu clube do coração, sinto que fiz parte integrante daquele projeto de sucesso. Não foram seis meses, foram dois anos de trabalho árduo. Não há nenhum treinador na história recente do Torreense que tenha estado dois anos consecutivos a trabalhar desde que eles regressaram aos palcos da Liga 2. Fui o único técnico a conseguir estabelecer uma época inteira nesse período, o que demonstra bem a qualidade do trabalho e a competência. Mas senti, naquela altura específica, que era o momento de fechar uma porta e seguir outro caminho; a vida de treinador é mesmo feita disso. O Portimonense era um clube que eu ambicionava orientar um dia, até porque temos casa de família no Algarve já desde que nasci, e acho que é uma estrutura que dá garantias aos profissionais para realizarem um bom trabalho. Quis ir para Portimão para vivenciar o ambiente do Algarve, onde temos muitos amigos de longa data, e passei lá um ano maravilhoso, rodeado de grandes pessoas e de inúmeros restaurantes de amigos que sempre me acolheram bem.

— Uma das tarefas dos treinadores é potenciar ativos. Quantos jogadores já valorizou na sua carreira? 

— Já perdi a conta exata ao número de atletas, mas em termos de encaixes financeiros puros, segundo os dados do Transfermarkt, as valorizações na Liga 2 geraram cerca de 16 milhões de euros, divididos entre Leixões, Estoril, Torreense e Portimonense. Ou seja, por todos os clubes onde passei, os jogadores que contratámos, valorizámos e potenciámos desportivamente acabaram por gerar esse montante significativo de faturação para os cofres das respetivas SADs. Também me considero uma pessoa empreendedora e com visão de negócios, pelo que sou incapaz de treinar um clube descurando a saúde financeira da instituição; sei perfeitamente que a venda de ativos é vital para a sustentabilidade do futebol moderno. Já sei à partida que há sempre três ou quatro atletas em risco iminente de sair em cada janela de mercado. O importante é prepararmos logo um plano B detalhado para, caso esse jogador saia, termos outro pronto a entrar na dinâmica da equipa. Este ano foi mais um exemplo claro disso, em que se vendeu bastante e bem.

— E ainda os que podem vir a ser vendidos… 

— Com certeza, há atualmente três ou quatro jogadores muito valorizados no plantel do Portimonense. A época, em termos de classificação desportiva geral, não foi a ideal, mas no que toca à evolução individual de ativos no mercado, conseguimos colocar bastantes jogadores na montra. Hoje em dia, o mercado internacional está muito apetecível para atletas jovens e que apresentam uma larga margem de progressão. Gosto de praticar um futebol dinâmico, ofensivo, que confira liberdade e capacidade de finalização aos avançados. Lembro-me perfeitamente dos avançados que treinei no passado e que foram os melhores marcadores das respetivas equipas: o Rafael Leão e o Pedro Marques nos juniores do Sporting; o Roberto no Estoril; o Manu Pozo e o González no Torreense; e o Nenê no Leixões. Perco muitas horas a trabalhar especificamente com os homens da frente, porque considero que faz parte essencial da nossa função aprimorar a forma como eles finalizam, a postura do corpo e a forma como colocam o pé na bola. Isso faz toda a diferença entre um jogador terminar o ano com sete ou com 14 golos marcados. A diferença económica e desportiva é enorme e, hoje em dia, qualquer avançado que termine a época acima dos oito golos desperta logo a cobiça do mercado.

A iniciar sessão com Google...