Mundial
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A equipa que falta
Portugal nunca teve falta de jogadores.
Ao longo das últimas duas décadas habituámo-nos a ver portugueses nos maiores clubes do mundo. Tivemos Bolas de Ouro, vencedores da Liga dos Campeões, campeões europeus e jogadores que discutem, todos os anos, o lugar entre os melhores do planeta. Há poucas seleções que possam apresentar um património individual desta dimensão. Se olharmos apenas para o talento, Portugal entra em qualquer competição com legitimidade para pensar em ganhá-la.
O problema é que o futebol nunca se resolveu apenas com talento.
Uma equipa não nasce da soma dos melhores jogadores. Nasce quando esses jogadores deixam de parecer onze carreiras brilhantes e passam a parecer uma ideia comum. Quando cada um melhora o outro. Quando existe uma forma de jogar suficientemente clara para sobreviver aos dias em que o talento individual não resolve tudo.
É por isso que continuo convencido de que Portugal teve, muitas vezes, mais jogadores do que equipa.
Não é uma crítica destrutiva. É apenas uma constatação.
Seria profundamente injusto ignorar aquilo que esta geração conquistou. Ganhou um Campeonato da Europa. Conquistou duas Ligas das Nações. Habituou-nos a discutir qualquer competição com as melhores seleções do mundo. Tudo isso ficará para sempre na história do futebol português.
Mas os títulos não impedem uma reflexão.
Poucas vezes tivemos uma Seleção que impressionasse de forma consistente pelo futebol que praticava. Houve grandes exibições, naturalmente. Houve jogos memoráveis e momentos de enorme qualidade. Mas também houve demasiadas partidas em que ficava a sensação de que a qualidade individual escondia problemas coletivos que nunca chegaram verdadeiramente a desaparecer.
O Mundial voltou a deixar essa impressão.
Portugal tinha soluções para quase todas as posições, jogadores decisivos nos maiores campeonatos da Europa e recursos que qualquer selecionador gostaria de ter. Ainda assim, raramente deu a sensação de controlar os jogos através da sua própria identidade. Havia talento suficiente para dominar. Nem sempre havia uma equipa que dominasse.
Talvez seja injusto exigir isso a uma seleção nacional. Os treinadores trabalham poucos dias por ano com os jogadores. Não constroem automatismos como um treinador de clube. Não escolhem reforços. Não contratam perfis específicos. Herdam uma geração e tentam aproveitá-la da melhor forma possível.
Tudo isso é verdade.
Mas também é verdade que algumas seleções conseguem, apesar dessas limitações, criar uma identidade reconhecível. Não dependem apenas do resultado para serem lembradas. Dependem da forma como jogam.
Foi por isso que gostei da escolha de Jorge Jesus.
Não porque ache que exista um treinador capaz de resolver tudo.
Também não porque acredite que uma conferência de imprensa muda o destino de uma equipa.
Gostei porque Jorge Jesus sempre me pareceu um treinador obcecado por uma ideia muito simples: construir equipas que se reconhecem.
Ao longo da carreira ganhou muito. Também perdeu muito. Teve equipas extraordinárias e outras bastante menos conseguidas. A segunda passagem pelo Benfica ficou muito longe da primeira e seria absurdo fingir o contrário. Quem acompanha futebol sabe que a carreira dele está longe de ser uma linha reta.
Mas há uma característica que nunca perdeu.
As equipas dele tinham identidade.
Podíamos preferir umas às outras. Discordar de opções, discutir substituições, questionar insistências ou criticar resultados. O debate fazia parte. O que dificilmente podíamos dizer era que aquelas equipas não tinham uma marca. Bastavam alguns minutos para percebermos o que procuravam fazer, onde queriam recuperar a bola, como ocupavam o campo e que tipo de jogo tentavam impor ao adversário.
Isso vale muito mais do que às vezes estamos dispostos a admitir.
Hoje o futebol evoluiu imenso. Os treinadores estão mais preparados, trabalham com mais informação, conhecem melhor o jogo e têm ferramentas extraordinárias à sua disposição. O conhecimento aumentou e isso tornou o futebol melhor.
Mas também tornou muitas equipas mais parecidas.
É cada vez mais difícil identificar a mão de um treinador apenas a olhar para um jogo. Muitas equipas jogam bem. Poucas parecem verdadeiramente diferentes. Poucas têm uma identidade tão forte que dispense a legenda.
Jorge Jesus sempre escapou a essa uniformização.
Não apenas nas equipas que treinou.
Também na forma como vive o futebol.
Nunca me interessou particularmente a discussão sobre as calinadas ou sobre a maneira como comunicava. Sempre achei que isso dizia muito menos sobre ele do que aquilo que acontecia ao domingo dentro das quatro linhas.
O que me interessa é outra coisa.
As equipas refletiam a personalidade do treinador.
Tinham intensidade porque ele acreditava nela.
Tinham coragem porque ele a exigia.
Tinham defeitos, naturalmente. Também herdavam algumas das teimosias do treinador. Mas nunca davam a sensação de serem equipas sem rosto.
Essa coerência sempre me pareceu uma qualidade rara.
Dentro de campo havia uma identidade.
Fora dele também.
É precisamente por isso que olho para esta chegada à Seleção com curiosidade.
Não espero milagres.
Nem acredito que Portugal vá, de repente, transformar-se na melhor equipa do mundo.
O futebol não funciona assim e a história ensina-nos a desconfiar das expectativas demasiado altas.
O que espero é muito mais simples.
Gostava de voltar a reconhecer Portugal pelo futebol que joga e não apenas pela qualidade dos jogadores que apresenta.
Gostava que deixássemos de depender, tantas vezes, do momento de inspiração de um talento individual para passarmos a depender de uma ideia coletiva.
Gostava que, ao fim de dez minutos, fosse possível perceber o que esta equipa quer ser.
É uma ambição exigente.
Mas parece-me uma ambição à altura dos jogadores que temos.
Quando terminou a conferência de imprensa de apresentação de Jorge Jesus, reparei numa coisa.
Não fiquei a pensar em quem seria convocado.
Nem em quem perderia o lugar.
Nem sequer comecei a construir um onze na cabeça, como tantas vezes acontece quando muda um selecionador.
Fiquei a pensar apenas numa pergunta.
Como vai jogar Portugal?
Talvez seja essa a pergunta que devíamos ter feito mais vezes nos últimos anos.
Porque os jogadores sempre estiveram lá.
A equipa é que continua por construir.