José Mourinho, treinador do Benfica (foto: Estela Silva/Lusa)
José Mourinho, treinador do Benfica (foto: Estela Silva/Lusa)

Que não se ignore o que grita o Benfica

'A bola é redonda' é o espaço de opinião do jornalista Nélson Feiteirona

Em primeiro lugar, é justo começar pelo essencial: parabéns ao FC Porto. A equipa de Farioli foi a mais consistente da Liga e mostrou uma maturidade que não se improvisa. Houve qualidade, ambição e, sobretudo, houve caráter nos momentos decisivos. Num contexto de mudanças profundas no clube, o título acaba por ter ainda mais peso. Dito isto, há um lado menos positivo que não pode ser ignorado: nas celebrações voltou a haver espaço excessivo para provocações aos rivais.

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Em segundo lugar, o segundo lugar. E aqui já não há como fugir à polémica. O empate do Benfica em Famalicão não só mantém tudo em aberto como reforça uma sensação cada vez mais difícil de ignorar: a arbitragem continua a ser um fator demasiado presente nas decisões da Liga.

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O Benfica entrou em Famalicão como se exigia: forte, dominador e claramente superior a uma das boas equipas do campeonato. Ao intervalo, o resultado pecava por escasso. E há um momento que não pode ser varrido para debaixo do tapete: o penálti por assinalar após mão na bola, na sequência de um cruzamento de Schjelderup. Não é apenas o erro em si — é a incoerência. O árbitro Gustavo Correia decidiu de forma diferente num lance semelhante contra as águias no empate frente ao Casa Pia, e pior: num lance menos evidente. Este tipo de dualidade mina a confiança e alimenta a suspeita.

Mas reduzir tudo à arbitragem seria, ainda assim, incompleto. Otamendi, um dos jogadores mais experientes e fiáveis, comprometeu, foi expulso com um erro desnecessário e deixou a equipa em inferioridade. A partir daí, o Benfica perdeu controlo emocional e competitivo.

O Famalicão fez o que se exige: acreditou, cresceu e aproveitou. Empatou com mérito, mas mais uma vez, a arbitragem entra na equação — e entra mal. O segundo golo surgiu na sequência de um canto que não devia existir. E o capítulo final, com o cartão a Richard Ríos, é mais um exemplo de falta de critério e sensibilidade. Num jogo com 15 minutos de compensação (tempo excessivo, claramente) e tensão máxima, decisões destas precisam de contexto — e, neste caso, ele parece ter faltado. O médio do Benfica vai falhar o importante jogo da próxima jornada, com o SC Braga, e ainda não se percebeu a razão do quinto amarelo: palavras? Demora no reatar do desafio? Seja como for, Gustavo Correia deveria ter sido mais ponderado.

O Benfica tem motivos para se queixar, não se trata apenas de clubismo ou de advogar em causa própria. Mas também tem a obrigação de olhar para dentro. O problema é que, num cenário destes, torna-se cada vez mais difícil separar erro humano de padrão preocupante. E quando isso acontece, o futebol português perde — credibilidade, qualidade e, no limite, justiça. E é esse o ponto mais preocupante: numa altura em que se devia falar apenas do mérito do campeão, volta-se a discutir arbitragem. Demasiadas vezes. Demasiado alto. E isso já não pode — ou devia — ser ignorado.

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