«Portugal é para ter a bola e mandar no jogo»: a 'receita' de Rúben Dias para o Mundial
O internacional português, em conversa exclusiva a A BOLA, promete a melhor versão de sempre neste Mundial, garante que «chega fresco e cheio de vontade», mas não quer saltar etapas. Quer ganhar um jogo de cada vez e espera fazê-lo muitas vezes. Candidatos, sim, respeitados, muito, mas «é nas adversidades» que se verá que tem tarimba para aspirar a levantar o caneco...
— Está a caminho do terceiro Mundial da carreira. Quatro anos depois do Catar, que Rúben Dias é que vamos ter nos Estados Unidos?
— A melhor versão possível até ao momento, com todo o acumular de experiência, de tudo o que aconteceu, vitórias, derrotas, momentos maravilhosos, momentos difíceis, e acima de tudo vamos ter um Rúben com muita ambição.
— Acabou por não fazer tantos jogos como em épocas anteriores devido a uma ou outra lesão. Como é que fez a gestão nesta reta final da época para poder chegar bem fisicamente ao Campeonato do Mundo?
— Sinceramente, acho que, ainda assim, acabei por fazer muitos jogos, jogar muito tempo. Obviamente, tive um período com a primeira lesão, em janeiro, essa sim, foi mais chata, mas acontece, faz parte do ofício. Depois, mais à frente, torci o pé, não foi lesão muscular, foi traumática, e, nesse sentido, mantive-me tranquilo. Obviamente, assim que soube que não era nada de muito grave pude relaxar, porque sabia que estaria disponível para o Mundial. Ou seja, já estou disponível há muito mais tempo do que apenas o último jogo que joguei pelo meu clube e, como tal, tenho estado a treinar com muita intensidade já há muito tempo e sinto-me muito bem fisicamente.
Mais do que qualquer outra coisa, [continuo com] a mesma ambição, a mesma vontade de ganhar, a mesma liderança de sempre e a mesma vontade de ajudar os meus colegas e de ajudar Portugal.
— Este será o primeiro Mundial sem o Pepe ao lado. Na Liga das Nações, como se percebeu, correu bem. Mas como foi assumir esse papel de maior destaque, como lidaste com esse processo de acréscimo de responsabilidade, perdendo a referência para passar a ser a referência?
— São perspetivas diferentes de quando comecei para o dia de hoje, como é óbvio. Muitas experiências, muita coisa aconteceu, mas lá no fundo é o mesmo Rúben que começou aquele que agora continua a caminhada. E também nesse sentido o comportamento é o mesmo. Experiência completamente diferente, mas a nível dos pequenos títulos que me fazem continuar a querer ser melhor e continuar a aprender, que me fazem comportar da maneira que me comporto, a minha liderança, foram sempre coisas que fazia parte de mim antes e agora também, aperfeiçoadas com o tempo e com a experiência e com todos os desafios que fui encontrando pela frente, mas diria que, mais do que qualquer outra coisa, [continuo com] a mesma ambição, a mesma vontade de ganhar, a mesma liderança de sempre e a mesma vontade de ajudar os meus colegas e de ajudar Portugal.
— Portugal chega a este Campeonato do Mundo como vencedor da Liga das Nações, não sendo favorito, é olhado como candidato. Até onde acha que Portugal pode ir nesta competição?
— A competição vai dizer-nos. Passo a passo, acho que a competição nos vai dizer o quão capaz nos sentimos a cada nova etapa. Acredito que neste momento, mais do que ser favorito ou não, toda a gente olha para nós com muito respeito, e acho que isso é um fator determinante, sobretudo quando aliado à confiança extra que temos por já termos ganho duas Ligas das Nações em pouco tempo. Obviamente a qualidade individual que todos temos e o facto de cada um nos seus clubes estar a quebrar barreiras e estar a ganhar, e alcançar coisas impensáveis… acho que a junção de todos estes fatores dá-nos confiança extra e também isso provoca esse mesmo respeito de todos os outros.
— Ao longo dos últimos anos tem sentido esse acréscimo de respeito em relação a Portugal?
— Acho que sempre houve bom nível de respeito para com Portugal, desde sempre. Sempre tivemos grandes jogadores, sempre fomos capazes de formar grandes equipas. Neste momento acho que o respeito continuou a aumentar progressivamente, neste momento temos muitos jogadores ao mais alto nível, a lutar por tudo, portanto, a junção de termos tantos, ao mesmo tempo, nesse alto nível, traz esse respeito extra.
Outro fator é a diferença entre as três equipas nesta fase de grupos, cada uma de lados completamente opostos e vai exigir de nós flexibilidade enorme.
— E qual é que é o seu sonho neste Mundial?
— O meu sonho é ganhar um jogo de cada vez e oxalá ganhe muitos [risos]
— Mas quantos jogos esperas ganhar…?
— [Risos] Muitos!
— Portugal defronta Congo, Uzbequistão e Colômbia, latitudes diferentes, estilos diferentes. Os jogos com Chile e Nigéria vão ser muito importantes nesse sentido?
— Sim, vão ser importantíssimos. Este é o meu terceiro mundial e já experienciei na pele em várias e diferentes circunstâncias a dificuldade de jogar seja contra quem for no Mundial. Por tudo. Por ser o Mundial, por ser momento único na carreira de qualquer um de nós. Neste, em específico, se bem que é sempre fator a ter em conta, temos o calor, vão sempre haver muitos fatores. Outro fator é a diferença entre as três equipas nesta fase de grupos, cada uma de lados completamente opostos e vai exigir de nós flexibilidade enorme. Acima de tudo, estarmos muito fortes e confiantes naquilo que nós somos.
— Também vê a Colômbia como o adversário mais forte do grupo de Portugal ou desconfia do Congo e do Uzbequistão?
— Diria que tradicionalmente a Colômbia é o nome maior, mas acredito sinceramente e seriamente que tanto o Congo como o Uzbequistão vão ser duas equipas realmente muito difíceis de ganhar.
Venham as dificuldades e quanto mais cedo, melhor, porque são elas que nos vão permitir trabalhar no profundo aquilo que teremos de fazer quando for a altura de ganhar.
— Ao dia de hoje, qual é o ponto forte da nossa Seleção?
— Pergunta interessante… Nem sei se quero revelar para os outros não saberem… Diria que ao dia de hoje encontramos um conforto muito grande em ter a bola, pela qualidade dos jogadores que temos, ter a bola e mandar no jogo é algo importante para nós. Não implica que o dia em que não mandarmos no jogo ou não tivermos tanta bola como queremos, que nos tenhamos de sentir vulneráveis, e contra isso teremos de remar, mas sem dúvida que, por condições naturais, Portugal neste momento é para ter a bola e mandar no jogo.
— O terceiro lugar no Mundial de 1966 continua a ser a grande referência dos portugueses quando falamos em Mundiais. Quarto lugar em 2006, quartos de final em 2022. Tendo em conta o talento desta geração, há um objetivo mínimo para Portugal neste Mundial?
— Não acho que faça sentido traçar objetivos mínimos, faz sentido, sim, traçar níveis de confiança perante tudo aquilo que temos connosco. E trabalhar essa confiança. Estas competições, tal como uma Champions, um Europeu, são competições que se decidem nos detalhes e por isso mesmo acredito muito que o momento de forma atual na competição será sempre fator decisivo e muito importante. E também por isso a maneira como nós vamos crescendo na competição é igual determinante, é essencial que tenhas bom crescimento durante a competição e… que venham as dificuldades. Só quando ultrapassares as dificuldades é que vais encontrar uma resposta para o quão longe é que poderemos ir. Portanto, venham as dificuldades e quanto mais cedo, melhor, porque são elas que nos vão permitir trabalhar no profundo aquilo que teremos de fazer quando for a altura de ganhar.
— Depois do Pepe, tens feito dupla com o Renato Veiga e o Gonçalo Inácio, sobretudo, agora surgiu o Tomás Araújo no lugar do António Silva. Que tem o Tomás de diferente?
— Não vou entrar em comparações. Sei, como é óbvio, que o Tomás tem toda a capacidade para estar aqui. Não tive tanto tempo com ele ainda, não veio tantas vezes como os outros que mencionaste, mas acredito muito nele e acredito que tem tudo o que é necessário para ser defesa de eleição e, como tal, vai sem dúvida ser um elo importante para nos ajudar.
— Para além dos clássicos favoritos, Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha, França… vês alguma seleção fora deste lote, para além de Portugal, claro, com capacidade para surpreender?
— É difícil dizer tão cedo, diria… Para nós vai ser importante o primeiro momento de dificuldade e crescer na competição também, e na competição vais sentir que há uma equipa que encontrou isto e essa equipa tornar-se-á perigosa por isso mesmo. Não sei… Além desses nomes habituais, uma Croácia, que é uma equipa que normalmente as pessoas não acreditam muito, mas está lá sempre talvez possam ser equipa a ter em conta em termos de serem sempre perigosos, mas de resto acho a competição é que nos vai dizer.
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