Donald Trump recebeu, este ano, Cristiano Ronaldo na Casa Branca
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Portugal a chegar ao caos do Mundial que a FIFA deixou de controlar

Da humilhação do Senegal ao exílio forçado do Irão, o torneio nos EUA transformou-se num pesadelo geopolítico. Zurique perdeu o controlo do seu próprio evento

WEST PALM BEACH — A FIFA vendeu-nos a utopia do maior e mais global espetáculo da história. Um torneio expandido, sem fronteiras, capaz de celebrar a diversidade do futebol em palcos colossais. A realidade das últimas horas, contudo, desfez a narrativa idílica de Gianni Infantino com a mesma violência com que um segurança de aeroporto carimba uma ordem de expulsão.

À escala planetária, o que estamos a assistir está, para já, longe de ser uma festa desportiva, apresentando-se, ao invés, como um pesadelo geopolítico e logístico. A FIFA, habituada a mandar mais do que muitos governos nos países que acolhem os seus eventos, percebeu da pior maneira que a administração norte-americana e as suas agências federais se estão olimpicamente a borrifar para os cartões de acreditação de Zurique. O organismo perdeu o controlo do seu próprio Campeonato do Mundo.

O caso mais flagrante do ridículo institucional envolve a seleção do Irão. Devido ao bloqueio diplomático e às sanções severas de Washington, a comitiva iraniana foi proibida de estabelecer o seu quartel-general em solo norte-americano. A solução encontrada roça o absurdo: a equipa foi obrigada a exilar-se no México e o protocolo de ida e volta aos Estados Unidos, onde jogará, é draconiano: a delegação só tem autorização para entrar e sair do território dos EUA no mesmo dia da partida, operando sob uma bolha de vigilância extrema que impede qualquer estágio normalizado. É o desvirtuar completo da verdade desportiva imposto por decretos políticos.

Mas o Irão é apenas a ponta de um icebergue de incompetência. O absurdo tocou a arbitragem quando um juiz internacional somali, nomeado pela FIFA para integrar os quadros do torneio, viu o seu visto de entrada ser sumariamente recusado pelas autoridades norte-americanas de imigração e isto após 11 horas de humilhante interrogatório. Nem as garantias de Zurique demoveram a inflexibilidade alfandegária. Um oficial do jogo foi tratado como um imigrante ilegal e impedido de exercer as suas funções na maior prova do mundo.

Por outro lado, nas últimas semanas, milhares de adeptos de várias latitudes — com especial incidência em países africanos, do Médio Oriente e da América do Sul —, que gastaram poupanças em bilhetes oficiais, viram os seus vistos ser revogados ou congelados sem justificação pelas embaixadas americanas. O «Mundial de todos» transformou-se no Mundial dos eleitos, onde o passaporte vale mais do que o amor à camisola.

Para elevar o tom da polémica ao nível do escândalo diplomático, a seleção do Senegal foi alvo de uma operação que gerou indignação profunda. Assim que o avião aterrou na pista, os campeões africanos foram retidos e viram as suas bagagens e os seus corpos revistados por agentes alfandegários acompanhados por cães pisteiros de droga, num procedimento agressivo que violou todas as regras de cortesia institucional que habitualmente gerem estas grandes comitivas.

O incêndio propaga-se a outras frentes. Várias marcas patrocinadoras estão com problemas para introduzir o seu material nas alfândegas, devido a taxas protecionistas que a organização não acautelou. Relatos dão conta de seleções sul-americanas que viram os seus carregamentos de suplementos e equipamentos médicos apreendidos por não cumprirem as rígidas normas federais da agência de controlo de medicamentos do país.

É precisamente a este autêntico Mundial do caos que Portugal chega na sexta-feira. A comitiva nacional aterra em solo norte-americano preparada para o futebol, mas obrigada a mergulhar num ambiente de extrema tensão burocrática e securitária. Em West Palm Beach, o clima de bunker político ameaça sobrepor-se ao desportivismo, testando os limites da paciência e da concentração de Roberto Martínez e dos seus jogadores antes de a bola rolar.

Ao abrir as portas ao gigantismo norte-americano sem acautelar a soberania do próprio jogo, a FIFA entregou as chaves do torneio a um Estado que não se curva perante a mística do futebol. O castelo de cartas burocrático está a ruir, deixando a nu a fragilidade de uma organização que julgou poder gerir a política global com a mesma facilidade com que distribui cartões amarelos. O circo começou, mas quem manda no picadeiro veste o colete das agências de segurança federais.

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