Brasil: escândalo com diplomas falsos envolve ex-jogadores de FC Porto, Sporting e Benfica
Uma investigação de quase dois anos levada a cabo pelo site UOL revelou a existência de uma «máfia das licenças», através da qual várias figuras do futebol brasileiro terão adquirido diplomas falsos de treinador. No centro da polémica está Alejandro Mancuso, antigo médio de Flamengo e Palmeiras e adjunto de Diego Maradona na seleção da Argentina durante o Mundial 2010.
O antigo futebolista comercializava um alegado «trâmite urgente» que prometia contornar as etapas oficiais de formação académica e desportiva por 100 mil reais (cerca de 16 mil euros). Em troca do pagamento, eram enviadas por correio, em menos de dez dias, quatro certificações da ATFA (Associação de Treinadores de Futebol Argentino): as licenças de formação C e B, o nível A (profissional) e o certificado Pro (internacional), supostamente válido para orientar qualquer equipa a nível global.
De acordo com os registos de áudio e mensagens obtidos pela investigação, Mancuso mencionou vários jogadores e antigos atletas como clientes, entre eles Thiago Silva, central que representou o FC Porto na segunda metade de 2025/26, Roberto Assis (ex-Sporting e irmão de Ronaldinho) e Diego Souza, que passou pelo Benfica. Luiz Gustavo, Diego Lugano, Paolo Guerrero, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Dejan Petkovic e Paulinho são outros nomes envolvidos no esquema, que contava inclusivamente com material promocional próprio em formato de folheto.
Nas gravações, Mancuso apresentava-se como «diretor internacional da ATFA» e alegava ter o apoio da presidência e do departamento jurídico do organismo para beneficiar os atletas experientes. A entidade argentina, todavia, rejeitou qualquer vínculo institucional com o ex-jogador, algo que o próprio acabou por admitir mais tarde: «Eu nunca fui da ATFA, sou apenas um comentador de rádio.»
As averiguações começaram em maio de 2024, após a denúncia sob anonimato de um antigo jogador abordado por Mancuso. Nos contactos efetuados, o intermediário dizia que os diplomas seriam autenticados pelo dirigente máximo da instituição, Salvador Pasini, justificando o atalho como um reconhecimento devido à bagagem prática dos profissionais.
«Acertei com o nosso presidente da federação para que todos estes craques que jogaram futebol tenham uma forma de não fazer este curso online. Ponto final», garantia Mancuso nas gravações, questionando a necessidade de três anos de estudo para quem «jogou futebol a vida inteira». Para contornar a ausência de provas nas fichas analíticas, orientava os compradores: «Na federação fica que fizeste três anos de curso online. 2021, 2022, 2023. É isso que tens de dizer a toda a gente.»
No circuito oficial da ATFA, o processo formativo requer entre seis e 13 meses por nível ao longo de três anos, desde a licença C até ao patamar Pro. Face às irregularidades, seis certificações chegaram a ser investigadas pela polícia argentina em julho de 2025, incluindo a de Dejan Petkovic.
O antigo futebolista sérvio explicou a situação: «Tratei com o Mancuso e tenho a licença argentina. Está suspensa porque eu não consegui cumprir o presencial. Como não vou trabalhar [como treinador], nem fui completar.» Petkovic detalhou ainda a desconfiança que ditou o fim do processo: «Desconfiei que as licenças pudessem ser falsas quando comecei a exigir a aula presencial e o Mancuso nunca marcava. Pensei: 'Isto aqui está errado'. A primeira coisa que fiz foi retirar das minhas redes sociais, porque estava a divulgar que era associado da ATFA, não é? E pedi o meu dinheiro de volta. Ao contrário de muitos, consegui essa proeza.»
A Associação de Treinadores de Futebol Argentino (ATFA) garantiu que toda a documentação facultada por Mancuso a diversas personalidades do futebol é falsa. Através de um comunicado oficial assinado pelo secretário-geral Salvador Pasini, a instituição demarcou-se totalmente das ações do antigo jogador: «A ATFA não reconhece qualquer gestão que o Sr. Mancuso tenha realizado ou alegado fazer em nome da entidade. O referido senhor não integra a Direção, não ocupa cargo de autoridade na ATFA, não mantém qualquer vínculo contratual com a instituição e não possui autorização para agir em seu nome ou representá-la. Consequentemente, qualquer oferta, cobrança ou envio de documentação que ele possa ter realizado invocando a ATFA é algo totalmente alheio a esta instituição.»
As certidões intermediadas por Mancuso apresentam várias inconformidades face aos processos oficiais da escola argentina. Uma das principais divergências prende-se com o facto de terem sido entregues cópias autenticadas em vez de originais. Verônica Magaly Macieri, a notária identificada nos documentos analisados, esclareceu que se limitou a certificar a cópia com base no documento apresentado, sem avaliar o respetivo conteúdo. Especialistas e fontes do setor confirmam que este tipo de autenticação não valida assinaturas nem a autenticidade dos certificados, sublinhando que a ATFA não emite cópias autenticadas enquanto documento oficial. Além disso, as licenças legítimas possuem um código QR que direciona para a validação do certificado com os dados do aluno e a respetiva escola emitente.
Questionada sobre o processo de credenciação, a CONMEBOL esclareceu que o pedido de licenças de treinadores cabe exclusivamente a cada Associação Membro (AM) após o cumprimento de todas as exigências, cabendo a relação direta aos técnicos e às suas respetivas federações, apesar do aval dado a certas entidades de ensino.
As reações de algumas das figuras envolvidas
Diversos nomes conhecidos recorreram aos serviços promovidos por Mancuso, muitos dos quais acabaram sob a mira das autoridades. A polícia argentina investigou, em julho de 2025, um conjunto de seis licenças, entre as quais constam as de Felipe Melo — ex-Palmeiras e Fluminense, que chegou a confrontar Mancuso e a ser reembolsado —, de Roberto Assis e do pentacampeão Roberto Carlos, num processo que abrangeu igualmente a situação de Pet. Roberto Carlos esclareceu, via assessoria, que recebeu as licenças e a respetiva carteira por correio após negociação, mas nunca as utilizou por «não ter completado o curso».
Por sua vez, Paulinho explicou que acreditou na premissa de que a ATFA validaria o historial de atletas de topo: «Em nenhum momento parecia ser algo ilegal ou falso. Ele [Mancuso] dizia que tinha uma forma de arranjar as licenças argentinas. Ele garantiu que só era necessário um processo online e, em pouco tempo, enviaria os documentos. Eu cheguei a preencher uma papelada que ele me enviou, e aí ele mandou os certificados pelo correio. E foi um erro, que acredito que tenha sido o erro da maioria, e eu assumo. Era para comprar facilidade, mas eu nunca usei.»
Alex de Souza, referência do Palmeiras, comprou o documento argentino após finalizar as formações da CBF Academy, sem nunca ter tentado a homologação junto da Conmebol. Já o médio Luiz Gustavo, atualmente ao serviço do Athletico Paranaense e com passagem pela seleção, fez saber pela sua assessoria que julgava estar a tratar de uma homologação de carreira e desconfiou do processo ao receber avaliações de testes que nunca realizou.
Outros nomes relataram situações semelhantes. Diego Lugano, antigo defesa uruguaio e diretor do São Paulo, admitiu ter realizado apenas uma formação teórica à distância: «Fiz o teórico pela internet, mas faltou a parte presencial. Eu nunca fui». Roberto Assis referiu ter sido abordado durante a pandemia, não se recordando se chegou a efetuar transferências financeiras. Já Thiago Silva comunicou ter pago por cursos que não foram lecionados conforme prometido, tendo tentado verificar a situação sem sucesso junto da ATFA, acabando por receber as certidões no final de 2023 sem nunca lhes ter dado uso.
Um esquema que envolve a obtenção fraudulenta de licenças de treinador da Associação de Treinadores de Futebol Argentino (ATFA), alegadamente intermediado pelo antigo internacional argentino Alejandro Mancuso a futebolistas brasileiros, revelou uma série de incongruências graves, incluindo documentos com erros grosseiros, assinaturas inválidas e códigos QR inoperacionais.
Nenhum dos códigos QR constantes nos documentos enviados por Mancuso reencaminha para uma página válida. Confrontado com a situação, um jogador que adquiriu a certificação sob anonimato reconheceu o receio que existia entre os atletas: «A verdade é que nós, jogadores que tirámos as licenças com Mancuso, sempre soubemos que este dia iria chegar. Que alguém descobriria o esquema e correria mal.»
O mesmo atleta, que não surge em áudios nem teve a documentação divulgada, admitiu que nunca suspeitou da autenticidade legal dos papéis: «Parecia algo fácil demais para ser verdade, e vi que se tornou conversa de balneário. Inúmeros jogadores compraram. Isso levou-me a pensar que não daria certo, mas jamais desconfiei da possibilidade de ser um documento falso.» O jogador em causa apenas tinha recebido cópias autenticadas e desconhecia a falha nos códigos QR.
Incongruências nas datas e erros na documentação
As irregularidades estendem-se às datas de emissão. Vários diplomas datados de 2023 contêm a assinatura de validação de Victorio Cocco, dirigente que se desvinculou definitivamente da ATFA em 2020, o que inviabiliza a legitimidade de qualquer credencial emitida posteriormente.
É o caso de Paulinho, que acedeu ao Campus Virtual da ATFA em 2023 para formação e foi abordado por Mancuso em janeiro de 2024. Após seguir os procedimentos indicados pelo antigo médio, o jogador recebeu um diploma Pro datado de dezembro de 2022, validado por Victorio Cocco.
Os documentos apresentam igualmente incorreções formais e gralhas. Na licença atribuída a Alex de Souza, a modalidade indicada é «futsal» em vez de «fútbol». O antigo futebolista admitiu o lapso: «Só reparei nesse detalhe agora, uma vez que nunca precisei desta carteira.» Já a documentação de Luiz Gustavo contém um erro na grafia do próprio nome do atleta, além de sombras visíveis nas assinaturas.
Mancuso rejeita acusações
Questionado pelo UOL sobre a venda de diplomas pelo montante de 20 mil dólares, Alejandro Mancuso negou qualquer envolvimento no negócio: «Muitos brasileiros ligam-me. Porquê? Porque sou uma figura muito conhecida no Brasil, sabe? E perguntam-me como se faz, como se resolve. Eu passo o contacto da federação para que liguem diretamente. Não estou na federação, não faço parte da federação.»
O antigo jogador reiterou que as questões financeiras não passavam por si: «Não, isso não existe. Toda essa parte financeira tem de ser tratada diretamente com as pessoas da federação quando preenchem tudo por correio. Tem um valor mensal.» Quando confrontado sobre os testemunhos dos atletas e o envio de fotografias a segurar diplomas, Mancuso manteve a versão: «Aí tem de lhes perguntar. Eu só facilito se me perguntam como se deve fazer, apenas isso. Não recebemos nada por fora, vai tudo diretamente para a federação.»
ATFA esclarece investigação judicial
Em comunicado oficial, a ATFA demarcou-se totalmente dos atos de Mancuso, sublinhando que o antigo atleta «não integra a Direção, não ocupa cargos de autoridade na ATFA, não mantém qualquer vínculo contratual com a instituição e não possui autorização para agir em seu nome ou representá-la», sendo qualquer cobrança ou proposta completamente alheia ao organismo.
A entidade revelou ainda que a matéria já esteve sob a alçada das autoridades: «Os factos descritos já foram objeto de investigação pela Justiça Federal Criminal e Correcional da República Argentina durante o ano de 2025. No referido processo, investigou-se a suposta emissão irregular de diplomas e licenças de treinador a favor de antigos futebolistas estrangeiros, bem como a eventual participação de autoridades e funcionários da ATFA.»
O processo relativo a alegadas irregularidades na emissão de diplomas, registos académicos e carteiras profissionais na Associação de Técnicos de Futebol Argentino (ATFA) foi formalmente arquivado pela Justiça Federal argentina, tendo assumido o caráter de caso julgado por inexistência de crime.
A deliberação do Juízo Federal Criminal e Correcional ocorreu em dezembro de 2025, na sequência de um pedido de arquivamento por parte do Ministério Público Fiscal com base no artigo 195.º, segundo parágrafo, do Código de Processo Penal da Nação. O desfecho surgiu após diligências probatórias, incluindo buscas e apreensões nas instalações da ATFA, nas quais não foram recolhidos quaisquer documentos comprovativos de atos ilícitos.