«Pedi ajuda psicológica ao Sporting e deixaram-me 45 minutos sozinho no túnel»: Mathieu arrasa leões
A transição para o pós-carreira está longe de ser um processo simples no futebol e Jérémy Mathieu voltou a falar sobre o choque que é a transição de jogador de futebol para a 'reforma' e 'ainda' com 40 anos. É conhecido que o antigo defesa do Barcelona e do Sporting procurou conforto a trabalhar numa loja de artigos desportivos, a Intersport, e agora voltou a falar dos motivos para essa opção de vida, que coincidiu com uma fase mais sombria da vida.
Em entrevista à revista So Foot, seis anos após pendurar as chuteiras, o antigo jogador reconheceu que este trabalho como vendedor numa loja de desporto se tornou o seu ponto de viragem, mas também disse que, quando finalmente decidiu pedir ajuda ao Sporting, esta não chegou.
Os problemas começaram no início em 2020, quando uma grave lesão nos ligamentos cruzados ao serviço dos leões, aos 36 anos, ditou o término abrupto dos relvados profissionais. Ainda representou o Luynes, nas divisões regionais de França, até 2023, mas seguiram-se tempos de tristeza e isolamento. «As coisas complicaram-se depois da minha lesão no Sporting. Terminei a minha carreira em 2020, na sequência de uma rotura dos ligamentos cruzados. Tudo acabou de forma abrupta. Tinha uma joelheira e não podia fazer grande coisa. Depois, entrei numa espiral negativa. Entrei em depressão, não vale a pena esconder isso», começou por explicar.
«Sentia falta do relvado, dos balneários e de tudo aquilo que tinha vivido. Devido a esta lesão, não tive tempo para me preparar para a vida depois do futebol. Pensava que ainda iria jogar durante mais dois anos, por isso, a nível psicológico, foi difícil aceitar a situação. Sabia bem o que significava uma rotura dos ligamentos cruzados: já tinha passado pelo mesmo em Toulouse, quando estive nove meses sem jogar. Psicologicamente, por vezes, já tinha cada vez menos vontade de ir treinar. Só queria jogar. Por isso, decidi terminar a carreira de um dia para o outro», recordou também.
«Ficava em casa 24 horas por dia»
A mudança repentina levou a que se fechasse sobre si mesmo. «Foi complicado. Vi tudo negro durante quatro anos. Felizmente a minha mulher estava lá para me ajudar a superar. Já não sabia o que fazer. Estava totalmente perdido», confessou o antigo internacional francês (cinco internacionalizações), detalhando a rotina desgastante que viveu em casa: «Durante quatro anos não fiz nada. Ficava em casa 24 horas por dia. Saía de vez em quando, mas nunca muito tempo. Ficava no sofá, em frente à televisão, com o telemóvel. Nem o futebol me interessava. Via uma parte e, se o jogo fosse fraco, mudava de canal. Andava em círculos: levantava-me do sofá, caminhava pela casa e suspirava. [Nestras alturas] O dinheiro não significa nada. O que faz toda a diferença é o lado humano.»
Mathieu não quis recorrer a apoio psicológico, contando com a família para o ajudar. Encontrou na Intersport de Aix-en-Provence uma saída há dois anos, ao mesmo tempo que lida com um processo extradesportivo nos tribunais sobre o qual não deu pormenores. «Foi aí que se deu o clique para sair daquela má fase. Este trabalho permitiu-me recuperar o ânimo, reencontrar uma vida social e, no fundo, voltar a viver», explicou, destacando o regresso a um ambiente similar ao de um balneário: «A minha mulher também retomou pequenos trabalhos, calmamente. Antes estávamos sempre juntos e isso tornava-se cada vez mais difícil. Trabalharmos cada um pelo seu lado fez-nos bem. Também voltei a ver amigos.»
Pedido de apoio ao Sporting
Ultrapassada a fase crítica, Jérémy Mathieu pensou melhor na questão da ajuda psicológica e recorreu ao último clube profissional: o Sporting.
«Não quero apontar o dedo a ninguém. Em 2025, pedi ajuda ao Sporting, nomeadamente acompanhamento psicológico, mas não só. Tinha um projeto em mente, mas não se concretizou. É uma pena, sobretudo porque tinha ajudado o clube quando me pediu para baixar o salário. Do ponto de vista humano, não consegui compreender. Ainda hoje não sei porque é que recusaram», contou, referindo que chegou a pensar num projeto com os leões.. Queria criar uma pequena academia em França e estabelecer uma ligação com o Sporting. Contactei o diretor desportivo por mensagem e disse-lhe: 'Vou a Lisboa. Podemos encontrar-nos?' Encontrámo-nos na segunda-feira, no centro de treinos. Conversámos e contei-lhe os problemas por que tinha passado. Ele disse-me que iria falar do meu projeto com o presidente, para tentar ajudar-me. Na quarta-feira, o Sporting jogava contra o FC Porto para a Taça. Assisti ao jogo e colocaram-me num camarote. Quando o jogo terminou, fiquei à espera do presidente durante dez a quinze minutos. Liguei ao meu contacto para lhe perguntar se podia descer aos balneários. Foi então que deixou de me responder.Por fim, outro contacto veio buscar-me. Desci ao túnel e fiquei à espera, sem que ninguém aparecesse, durante 45 minutos. Sentia-me um estranho. Tinha a impressão de não ter feito nada pelo clube. Tinham-se esquecido de mim, e isso magoou-me. Prefiro que me digam que não a que me deixem à espera sem qualquer explicação. Acabei por conseguir contactar o diretor desportivo, que me disse que o presidente já se tinha ido embora. Fiquei profundamente desiludido e regressei.»
Em abril de 2025, a divulgação de uma fotografia sua com a farda de funcionário da loja gerou enorme repercussão nas redes sociais, acompanhada por comentários depreciativos que o ex-jogador, atualmente com 42 anos (completará 43 a 29 de outubro), lamentou. «Não, não compreendo. É mesquinho. A maior parte dessas pessoas está atrás do computador. Não conhecem a minha vida nem o que passei. Só olham para o dinheiro, nunca para o lado humano. Muitos escreveram que estava arruinado e que não tinha investido. Quando os clientes se cruzavam comigo na Intersport, alguns também perguntavam: 'Porque estás aqui? Jogaste no Barcelona, tens tanto dinheiro!' Mas não tinha nada a ver com isso», frisou.
Former Barcelona player Jérémy Mathieu currently works as an employee of the Intersport store in France. https://t.co/wcJGFln1cJ
— Barça Universal (@BarcaUniversal) April 6, 2025
O recomeço longe dos holofotes
O jogador virou-se então para o treino e contactou o Sochaux, clube de formação, que lhe ofereceu posto como adjunto numa equipa de jovens. Está a tirar os cursos de treinador a nível regional para treinar na formação, a sua paixão, e assumiu entretanto o comando técnico dos sub-15 de Aix-en-Provence.
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