Parrott faz Mourinho cair onde já viveu a glória (crónica)
MADRID — José Mourinho regressou ao estádio onde, há 23 anos, conquistou ao serviço do FC Porto a Taça UEFA, o seu primeiro título europeu. Nesta nova visita, a missão era clara: passar no exame mais difícil até à data nesta segunda etapa ao leme do Real Madrid e pôr fim a um longo enguiço de cinco anos sem vencer no reduto do Betis. Nem uma coisa, nem outra: os merengues caíram e «Special One» provou o sabor amargo da primeira derrota.
Mourinho apresentou o seu onze base, mas com surpresas: Bernardo Silva começou no banco, cedendo o lugar a Camavinga, enquanto na ala direita da defesa Dumfries foi o eleito em detrimento de Alexander-Arnold. Com a artilharia habitual em campo, o Real entrou a mandar, empurrando os homens da casa para o seu reduto e criando perigo sério — a mais soberba das ocasiões pertenceu a Vinícius Júnior, que enviou a bola à trave com a baliza escancarada.
Pouco a pouco, o Betis libertou-se da rédea curta graças à batuta de Isco no miolo e às investidas de Bellerín e, sobretudo, de Antony pela direita, que deixou Cucurella em maus lençóis. Courtois ainda teve de aplicar o reduto defensivo, mas foi Álvaro Valles, na baliza contrária, quem teve de vestir o fato de super-herói com várias intervenções decisivas.
Até ao descanso, as oportunidades sucederam-se em ambas as balizas, mas com claro sinal mais do Real. Em cima do intervalo, Bellingham isolou Vinícius na esquerda e o brasileiro, pecando por excesso de generosidade, serviu Mbappé: o francês viu o primeiro remate ser salvo sobre a linha por Natan e a recarga travada por Bartra. Duas soberbas ocasiões desperdiçadas no mesmo suspiro. Antes do apito para o descanso, ainda houve tempo para Huijsen acertar na barra, numa nova nesga de eficácia dos madrilenos.
A segunda metade abriu com Mourinho a ver o primeiro cartão amarelo nesta Liga por protestos vehementes, minutos após o árbitro ter sido indulgente com Arda Güler, poupando-lhe o segundo amarelo e a consequente expulsão. Percebendo o risco, o técnico setubalense lançou uma tripla alteração: tirou o turco, Camavinga e Dumfries para lançar Bernardo Silva, Diomande e Alexander-Arnold. A mudança de figurino retirou discernimento à equipa, que sentiu de imediato a falta do cérebro de Guler.
Apesar de o ritmo ter baixado, o Real mantinha o ascendente, mas foi o Betis a dar a estocada fatal. Courtois ainda sacudiu um tiro do meio da rua de Deossa, mas a bola sobrou à boca da baliza para Troy Parrott encostar para o golo da vitória. Ironia do destino: foi precisamente Mourinho quem lançou o avançado irlandês no Tottenham, com apenas 17 anos. O futebol tem destas coisas.
O quarto de hora final foi de loucura total. O Real Madrid encostou o adversário às cordas e tentou tudo para evitar o pesadelo: Espi viu um golo ser-lhe anulado por fora de jogo, Mbappé voltou a devolver a bola à trave e, para coroar uma exibição para esquecer, permitiu que Valles lhe defendesse uma grande penalidade. Ocasiões não faltaram à turma da capital para empatar ou até dar a volta ao marcador, mas a eficácia foi nula.
De forma porventura injusta, o Real Madrid de Mourinho sofreu o primeiro dissabor da temporada. Fica o registo de uma noite negra para Mbappé, um Vinícius claramente fora de forma, um Bellingham longe do brilho habitual e um Diomande — a contratação mais cara da história do clube — que continua sem conseguir fazer a diferença.