Um VAR para os donos do VAR
Ainda sou do tempo em que era preciso esperar pelo início da época para assistir a casos de arbitragem. Agora até a época do caracol convida a tais polémicas, ainda que o foco não esteja propriamente nos homens do apito, pelo menos aqueles que estão ainda no ativo, mas sim em quem os lidera(va).
A demissão do Diretor Técnico, Duarte Gomes, resultante de desavença séria - ao fim de pouco mais de um ano - com Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, deixa evidente que o setor, eterno parente pobre do futebol português, não está com as defesas reforçadas, ao contrário do que seria de esperar, tendo em conta que a representação na estrutura federativa nunca foi tão vincada, desde logo na figura do presidente.
Mesmo com os jornalistas ali à mão, entre Palm Beach e Toronto, Pedro Proença não teve reação firme e imediata ao caso, mas nem sempre podemos esperar pelos momentos oportunos para dizermos aquilo que queremos, e como queremos. O silêncio não é a melhor forma de afastar a ideia de que os árbitros, por vezes tão corporativistas, podem ser os maiores inimigos de si próprios.
Forte abalo para a liderança de Proença, o caso é também outro abre-olhos para todos aqueles que ainda depositaram fé numa nova geração de dirigentes recrutada no terreno de jogo. Se Rui Costa, André Villas-Boas e Frederico Varandas têm desapontado no relacionamento institucional, agora constatamos que nem os (ex-)árbitros confiam uns nos outros.
Por mais ferramentas que sejam introduzidas, no futebol e no desporto em geral, a reputação da arbitragem será sempre proporcional à integridade e idoneidade daqueles que a representam, dentro de campo ou fora dele.
Os erros fazem parte do jogo, e a suspeita será impossível de erradicar, mas a margem para duvidar da intenção tem de ser mantida num patamar mínimo.
Se a desconfiança vem dos principais responsáveis do setor, entre si, então como podem os árbitros sentir que estão protegidos?
Perante tudo isto, qualquer dia teremos clubes a pedir acesso aos áudios e vídeos das reuniões que os rivais tiveram na Cidade do Futebol, seja com o Conselho de Arbitragem ou com outros responsáveis federativos.
Muito mal estaremos quando for preciso implementar o VAR para controlar precisamente aqueles que são donos do VAR.