O nadador britânico Ben Proud, vice campeão olímpico, anunciou que vai estar nos Enhaced Games que se realizam em Las Vegas, este fim de semana. IMAGO
O nadador britânico Ben Proud, vice campeão olímpico, anunciou que vai estar nos Enhaced Games que se realizam em Las Vegas, este fim de semana. IMAGO

Os polémicos Jogos do Doping, o teste ao limite humano, realizam-se este domingo

Um milhão de euros é quanto contém o pote de ouro para os atletas que consigam bater recordes mundiais. Os participantes podem utilizar qualquer substância aprovada para uso humano, o que incluiu substâncias proibidas pela Agência Mundial Antidopagem como a eritropoietina (EPO), testosterona, hormona do crescimento e nandrolona

Este domingo, um grupo de atletas, incluindo nomes com medalhas olímpicas como Fred Kerley, Ben Proud, Cody Miller e Leidy Solís, irá competir em Las Vegas nos chamados Enhanced Games, os Jogos do Doping. O evento, realizado num complexo hoteleiro com casino, será transmitido em direto no YouTube, com prémios que podem chegar a um milhão de dólares para quem bater recordes mundiais. A grande maioria dos participantes fá-lo-á sob o efeito de doping, ou, como preferem dizer os organizadores, «melhorados».

A premissa é simples: atletas de modalidades como atletismo, natação e halterofilismo submetem-se a um processo de doping com supervisão médica, onde constam nomes de especialistas como Guido Pieles, doutorado em cardiologia por Oxford, o neurocirurgião Brian Kopell, o endocrinologista Michael Sagner e o farmacologista Ali Ghanem, que defende que o principal objetivo do século XXI deve ser o fim da morte por meios médicos.

Os participantes podem utilizar qualquer substância aprovada para uso humano pela FDA (a agência norte-americana de alimentos e medicamentos), o que abrange substâncias proibidas pela Agência Mundial Antidopagem (AMA) como a eritropoietina (EPO), testosterona, hormona do crescimento e nandrolona. O objetivo é estabelecer novos limites de desempenho, ainda que estes não venham a ser validados por qualquer organismo desportivo oficial.

Este fenómeno já captou a atenção dos meios de comunicação internacionais e dos organismos reguladores, que reagiram judicialmente. A AMA classificou a iniciativa como «perigosa e irresponsável», enquanto a World Aquatics aprovou uma norma que bane das suas competições qualquer atleta que participe nos Enhanced Games. Em resposta, a Enhanced processou ambas as entidades em 800 milhões de dólares, mas o caso foi indeferido, levando à saída do empreendedor australiano Aron D’Souza, cuja missão declarada é «construir a super-humanidade».

Contudo, o verdadeiro objetivo da Enhanced parece ser outro. Num folheto para investidores, a própria empresa admite: «O desporto não é o núcleo do nosso negócio». O que a empresa pretende comercializar é uma gama de suplementos alimentares e comprimidos personalizados, como terapias de reposição de testosterona, estimulantes da hormona do crescimento para rejuvenescimento e estradiol para a menopausa. Os atletas, atraídos por prémios monetários que dificilmente ganharão, funcionam como cobaias para estes produtos.

O projeto, que entrou na bolsa NASDAQ em novembro através de uma associação com a Paradise Acquisition Corp, um conglomerado de Hong Kong, conta com o financiamento de figuras como Donald Trump Jr. e Peter Thiel. Este último, um dos primeiros investidores do Facebook, tem ligações a Donald Trump e Javier Milei, é próximo de Elon Musk e presta serviços a agências de inteligência dos EUA e de Israel, defendendo um mundo governado por inteligência artificial.

O futuro do negócio é incerto. Embora os tratamentos já estejam à venda no seu site, a promoção depende do sucesso dos Enhanced Games. Esta primeira edição não terá transmissão televisiva, o que impede a geração de receitas com direitos de transmissão. Além disso, a organização tem tido dificuldades em atrair atletas de renome, em parte devido a medidas como as da World Aquatics. A poucos dias do evento, a lista de participantes contava com apenas 42 nomes, muito abaixo da meta inicial de mais de cem. Por trás do que parece ser um desafio ao desporto profissional, esconde-se uma complexa operação que procura expandir as fronteiras da ciência e da medicina com um propósito, no mínimo, inquietante.

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