Com o Mundial a iniciar-se, a existência ou não de lesões será fator decisivo para o trajeto de todas as seleções na prova - Foto: Imago
Com o Mundial a iniciar-se, a existência ou não de lesões será fator decisivo para o trajeto de todas as seleções na prova - Foto: Imago

Os pequenos sinais que podem antecipar uma lesão

'Tribuna Livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Sérgio Loureiro Nuno, fisioterapeuta olímpico dedicado a performance e recuperação de lesões desportivas; professor universitário; doutorado em Ciências da Saúde e Motricidade Humana

Quando ouvimos falar de lesões no desporto, a tendência é olhar apenas para o momento em que o jogador cai, leva a mão ao músculo ou articulação e a forma como abandona o jogo. No entanto, a maioria das lesões não começa nesse instante. Começa dias, semanas ou até meses antes. Começa quando o corpo começa a dar pequenos sinais de que algo não está bem. Sempre que o rendimento começa ligeiramente a baixar sem motivo aparente e a recuperação entre treinos e jogos a demorar mais do que o habitual, é sinal de que algo não está bem. É nessas condições que o cansaço se acumula e, quase sempre, esses sinais passam despercebidos a quem está de fora.

Por isso, tenho duas propostas para fazer a quem nos lê. A primeira vou-vos dizer agora: na próxima vez que assistirem a um jogo, experimentem olhar para além do resultado e das estatísticas. Questionem-se se o jogador parece tão explosivo como habitualmente era, bem como se está a chegar atrasado aos lances em que normalmente se antecipava. Estejam também atentos a possíveis sinais de desgaste físico ou emocional e se a linguagem corporal transmite confiança ou fadiga.

Naturalmente, ninguém consegue diagnosticar uma lesão através da televisão. Nem é esse o objetivo. O desafio é perceber que a performance não muda de um dia para o outro, sem razão. Também na nossa vida, existem sinais silenciosos que costumamos ignorar. O cansaço persistente, a falta de concentração, a irritabilidade ou a perda de energia, raramente aparecem sem explicação. Tal como acontece com os atletas, o corpo costuma avisar antes de cobrar. O problema é que estes sinais são frequentemente normalizados.

Num calendário cada vez mais exigente, com competições sucessivas, viagens constantes e a pressão permanente dos resultados, muitos jogadores aprendem a conviver com o desconforto. A sobrecarga raramente resulta apenas de treinar demasiado. Normalmente, é o resultado da soma de vários fatores: pouco descanso, recuperação insuficiente, stress competitivo e acumulação de minutos de jogo.

É precisamente por isso que as equipas técnicas do futebol moderno, fazem a monitorização de vários indicadores de saúde e performance, que vão muito além da condição física visível. A qualidade do sono, o estado de humor, a perceção de fadiga e a capacidade de recuperação, tornaram-se ferramentas essenciais para antecipar problemas, antes que estes se transformem em lesões.

Estas indicações começaram a surgir porque se estuda cada vez mais o futebol, para além da parte técnica e tática. Desde 1998, o Centro de Avaliação e Pesquisa Médica da FIFA (F-MARC) realiza de forma sistemática a monitorização de lesões em todas as competições da FIFA e de futebol dos Jogos Olímpicos. A metodologia aplicada serviu de base para os sistemas de avaliação de lesões de outras federações desportivas.

Com o Mundial de 2026 a iniciar-se, este será um dos fatores decisivos para muitas seleções: a existência ou não de lesões, ao longo da prova. Nesta competição, não tenho receio em afirmar, que muitos jogos não serão ganhos apenas pela qualidade técnica ou pela estratégia. Serão ganhos (ou perdidos), quando a fadiga se começar a sentir na equipa. É precisamente nos últimos 30 minutos que o corpo revela aquilo que acumulou ao longo dos dias, das semanas e dos meses anteriores. Isto tem um nome científico: fadiga neuromuscular. Em termos simples, significa que a comunicação entre o cérebro e os músculos deixa de ser tão eficiente como no início da partida. O jogador continua em campo, continua a correr, mas já não reage com a mesma velocidade nem executa os movimentos com a mesma precisão. As diferenças podem parecer pequenas. Um sprint ligeiramente mais lento. Um atraso de décimos de segundo na reação. Um passe menos preciso. Uma mudança de direção menos explosiva. Mas ao mais alto nível, esses pequenos detalhes fazem toda a diferença. É aqui que Portugal terá de estar atento…

É muitas vezes nos minutos finais que surgem os erros de posicionamento, as perdas de bola evitáveis, os duelos perdidos e, não raras vezes, as lesões musculares. Quando a fadiga aumenta, a capacidade de controlo dos movimentos diminui e o risco de lesão sobe significativamente. A fadiga não surge apenas quando faltam forças para correr. Acontece quando o corpo deixa de conseguir fazer, com a mesma qualidade, aquilo que parecia simples no primeiro minuto. E é aí que muitos jogos (carreiras e também títulos) começam a ser decididos.

O corpo humano possui uma extraordinária capacidade de adaptação, mas essa capacidade tem limites. Nem sempre é uma questão de atitude. Depois de um jogo de alta intensidade, o organismo inicia um processo complexo de reparação muscular, reposição de reservas energéticas e recuperação neuromuscular. Esse processo não termina quando o árbitro apita para o fim da partida. Em muitos casos, prolonga-se durante vários dias. É por isso, que períodos inferiores a 72 horas entre jogos representam um desafio tão exigente para os atletas.

Quando um jogador entra em campo ainda com sinais de fadiga acumulada do encontro anterior, o risco de quebra de rendimento aumenta. Ao mesmo tempo, cresce a probabilidade de surgirem lesões musculares e outros problemas associados à sobrecarga. Não se trata de uma questão de vontade ou de compromisso. Trata-se de fisiologia.

Por muito talentoso ou preparado que seja um atleta, o organismo tem limites biológicos que não podem ser ignorados indefinidamente. A recuperação não pode ser acelerada apenas pela motivação. A gestão dos minutos, da recuperação e da carga competitiva poderá ser tão importante, quanto a preparação tática. Um jogador menos explosivo, mais lento na pressão, menos eficaz nos duelos ou com dificuldades em repetir ações de alta intensidade pode estar simplesmente a revelar aquilo que o calendário lhe retirou: tempo para recuperar.

A minha segunda proposta, não é sobre lesões. É acerca de ganhar. Lembro-me de ir ver a final do Euro-2004, ao Estádio da Luz, com o meu pai. Foi o meu melhor presente até ao dia de hoje. Mas não ganhámos, como bem se lembram. Por outro lado, acredito que foi esse o momento de mudança, para os bons resultados que Portugal tem atingido até agora. Elevou o país com um ambiente incrível entre jogadores e adeptos. Nunca vi o país entender tão bem uma derrota e desculpá-la, como nesse dia. Essa final, serviu para lançar as bases do sucesso atual. Portugal, neste momento, tem tudo para ser campeão. 19 de julho, será o dia Portugal. Para quem festeja o aniversário nesse dia, a minha segunda proposta é essa. Alguém que lance uma onda de apoio extra para ganharmos a competição. Só assim, conseguirão superar o presente do meu pai em 2004.

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