Os parasitas e facilitadores no futebol
O futebol é um desporto com enorme protagonismo na nossa sociedade e, por esse motivo, tem a capacidade de atrair um conjunto de personalidades que podem ter boas ou más intenções. Saber distinguir o que cada um pretende é a chave para se poderem tomar boas decisões.
O FUTEBOL COMO ÍMAN
N UM mundo cada vez mais superficial, onde mais importante do que ser é parecer, o futebol ganha cada vez mais dimensão, sobretudo pela forma instantânea como consegue promover individualidades que, de um dia para o outro, ganham notoriedade e palco. No centro deste fenómeno estão diferentes personalidades. Temos aqueles que pretendem apenas estar em eventos desportivos, marcando presença nas tribunas, nos aviões e com isso terem acesso a um reconhecimento social, que os próprios acabam por destacar nas redes sociais. Em termos concretos, estas pessoas não trazem nenhuma mais-valia, mas também não são tóxicas. Existem outros que entram para o futebol com o objetivo de ganharem protagonismo mediático e conhecimentos, de forma a poderem criar uma rede de contactos que lhes permite dar dimensão aos seus próprios negócios, beneficiando do estatuto que o futebol lhes confere. Estes intervenientes podem ter um papel positivo, se perceberem que o extra que o futebol lhes proporciona pode ou deve estar assente numa relação win-win, isto se tiverem a atitude e perceção certa: acrescentar e contribuir de uma forma positiva. Contudo, podem ter igualmente uma função nefasta, se a sua única preocupação for procurar um trampolim para se poderem projetar, não se importando com o meio envolvente, mas sim consigo mesmos. Por último, temos o grupo de pessoas que percebe a dinâmica que está instalada, que se aproxima de algumas presas e que se instalam no futebol única e exclusivamente para tirarem benefício deste fenómeno social, sem que consigam acrescentar qualquer mais-valia adicional. Estes são os mais perigosos, são aqueles que não acrescentam nada e que pretendem viver do que o futebol lhes proporciona, sendo capazes de tudo para atingir os seus fins.
QUEM É QUEM?
NO último grupo de personalidades, incluem-se dois tipos de indivíduos que encontramos, com frequência, no mundo do futebol: os parasitas e os facilitadores. Os dois têm características similares, mas comportamentos e posicionamentos diferentes. Assim, os parasitas são os mais básicos. Por norma, procuram tirar proveito do facto de serem amigos de um jogador, ou serem amigos de amigos de um jogador, para poderem aproximar-se e oferecer algo de extraordinário e único, que mais tarde percebemos tratar-se de uma mão cheia de nada. Ao longo da vida, criam raízes através dos contactos que vão angariando, e conseguem com isto ganhar dimensão financeira e mediática. Já os facilitadores dividem-se nos mais refinados e nos soldados. Os mais refinados são aqueles que percebem e estudam as fragilidades que existem nas posições de topo do futebol português. Através da sua astúcia, conseguem aproximar-se dos centros de decisão, criando uma imagem assente num aparente know-how, que, de uma forma inteligente, é trabalhada nos bastidores. Quando ganham espaço, conseguem influenciar as decisões, muitas vezes em benefício próprio, fazendo-se muito bem pagos para um serviço de ilusão. Entre estas personagens, temos os famosos escritores de cartilhas, os conselheiros presidenciais, entre outros. A outra figura - os soldados - são figuras criadas, na maior parte das vezes, por pessoas com cargos de liderança. Estes soldados são os elementos perfeitos para fazerem certo tipo de serviços e para criarem formas de retirar transparência a uma indústria que se quer cada vez mais séria. Tanto os parasitas como os facilitadores têm características fáceis de identificar e que se vão revelando com o passar do tempo: são egocêntricos, não têm humildade, pensam que estão acima da lei, são manipuladores, quando se sentem ameaçados disparam para todos os lados e vivem da aparência.
EFEITO MANADA
C OMO ex-jogador profissional de futebol e alguém que trabalha na área de gestão de património, possuo experiências diferentes, que me permitem ter uma opinião fundamentada sobre este tema. Recentemente, Ronaldo o fenómeno afirmou que 97% dos jogadores de futebol, passados cinco anos, estão falidos. O mesmo sucede em outros desportos que são muito bem remunerados, como a NBA. Porque é que isto acontece? Existem vários motivos para este facto. Em primeiro lugar, os jogadores de futebol ou de outros desportos estão preparados para jogar mas não estão preparados para gerir, da melhor forma, o seu património. Por este motivo, acabam (quase) sempre por delegar esta missão em familiares ou (supostos) amigos. Não duvido das boas intenções da maioria destas pessoas. Numa entrevista recente, Magic Johnson, um conhecido jogador de NBA e empresário de sucesso, referiu o seguinte: «Quando me vêm pedir conselhos, a primeira pergunta que faço é: quem gere o teu património?» Quando a resposta é um amigo ou um familiar, Magic Johnson termina a conversa imediatamente, referindo o seguinte: «Estás a contratar pessoas, não por causa do seu know-how ou expertise, mas sim porque são teus amigos ou familiares. Eles vão falhar!». Façamos uma comparação, se um jogador tem um problema de saúde recorre a um médico especialista ou a um familiar/amigo? Se tem um problema jurídico, recorre a um advogado especializado ou a um familiar/amigo? Todos estes alertas são feitos de uma forma regular, mas a realidade é que os protagonistas só percebem isto quando já é tarde demais. Muitas destas pessoas, que assumem a responsabilidade de influenciar ou aconselhar os atletas, não têm conhecimentos para o fazer. Esta situação sempre existiu e continuará a existir e tem como principais culpados: os jogadores. Porquê? Por dois motivos óbvios: o primeiro porque, por exemplo, no futebol existe uma forma de pensar uniforme (efeito manada), ou seja, se um jogador diz que algo é bom a outro, esse outro também vai querer experimentar sem colocar em causa. No limite, sem pensarem pelas suas cabeças, vão todos na mesma direção, permitindo que o caminho fique escancarado para bons profissionais ou possíveis impostores, sendo a sorte a decidir o rumo! O segundo motivo, e talvez o que mais justifica a presença contínua de parasitas, é a vergonha de assumir o erro. Ao não assumirem que erraram e ao não identificarem quem os ajudou a caminhar para o abismo, fazem com que outros passem pela mesma situação, caindo precisamente nas mesmas armadilhas, permitindo que os parasitas continuem a minar o seu habitat.
O CASO ÉDER
O exemplo recente do Éder é paradigmático. Quem estava um pouco por dentro deste tema sabia que a relação Éder/Susana Torres já tinha terminado há muito tempo e de uma forma negativa. Contudo, ao não se pronunciar sobre esta questão, Éder permitiu que Susana Torres (ST) se fosse alimentando do seu nome para ganhar dimensão, não só como coach, mas também na literacia financeira. Não vou nem devo analisar as competências de Susana Torres, até porque não é esse o meu papel. A minha crítica centra-se em dois pontos fundamentais: o primeiro, alguém que trabalha como coach, com um atleta, não pode partilhar emoções, fraquezas, conversas que teve com o seu cliente, porque este é o mais importante de tudo e o sigilo deve imperar. Neste caso, Susana Torres quis assumir o protagonismo, colocando o êxito de Éder nas suas mãos, como que querendo passar a mensagem de que tudo de bom que o Éder conseguiu foi fruto do trabalho por ela produzido, desvalorizando aquele que deveria ter o papel principal: o próprio futebolista! O segundo ponto tem a ver com a forma como a imagem de Éder foi sendo utilizada por ST, que assim conseguiu chegar a um público-alvo muito maior e com um estatuto inquestionável. O principal culpado de toda esta situação é o próprio Éder, que deu demasiado protagonismo a alguém, que segundo as suas palavras, não o merecia. Volto a reforçar, quem trabalha no desenvolvimento da performance de um atleta, deve ter a noção de que o atleta é o protagonista, o ator principal. Quando se invertem os papéis, há que desconfiar.
A VALORIZAR
Roger Schmidt
Chegou há 9 meses e acrescentou qualidade ao futebol português, sendo unanimemente considerado a figura deste Benfica. A forma atrativa e intensa que apresenta no seu jogo é o seu melhor cartão de visita. Renovou até 2026 com o objetivo de continuar o caminho até aqui percorrido.
A DESVALORIZAR
De la Fuente
Está a tentar efetuar uma renovação na seleção espanhola. Ao segundo jogo, uma derrota com Escócia, que coloca Espanha em segundo na classificação para o apuramento de Euro 2024.