É extremamente difícil haver rendimento desportivo consistente dentro das quatro linhas sem uma cultura organizacional forte - Foto: Imago
É extremamente difícil haver rendimento desportivo consistente dentro das quatro linhas sem uma cultura organizacional forte - Foto: Imago

É a cultura, estúpido!

'O lado invisível' é o espaço de opinião quinzenal de Rui Lança, Diretor executivo de outros desportos do Al Ittihad, da Arábia Saudita

Em 1992 surgiu a expressão «é a economia, estúpido!», por James Carville, estratega da campanha de Bill Clinton, como forma de explicar, e sem ser dirigida a ninguém em particular, o que estava a acontecer na sociedade norte-americana e de recentrar o debate no tema que realmente explicava um dos principais problemas do país. Parece-me mais do que apropriado adaptar essa expressão para explicar muito do que se passa em determinados contextos e o impacto da existência (ou inexistência) de uma cultura organizacional e desportiva forte num clube desportivo, tenha ele um cariz financeiro, empresarial ou multifundos muito marcado.

O tema divide-se, à partida, em dois mundos distintos. Existem aqueles que acreditam que o que se passa numa direção, nas reuniões de administração ou nos corredores dos bastidores do clube tem pouca influência no rendimento das equipas dentro das quatro linhas. E existem outros, onde me incluo, que acreditam que é extremamente difícil haver rendimento desportivo consistente dentro das quatro linhas sem uma cultura organizacional forte, sem uma direção, estratégia ou liderança sólidas, focadas nas decisões estruturais e não apenas nas fragilidades momentâneas.

Este é daqueles temas que, em alguns meios ou contextos, nem chega a ser considerado um tema. Não se investe, não se avança para a esquerda ou para a direita sem existir uma relação direta com aquilo que se pretende alcançar, alinhada com a estratégia, o propósito e a cultura organizacional existente, e sem se avaliar se contribui ou não para o que está definido.

Sei, por experiência própria, que a emoção, o impacto da gestão de fora para dentro e as consequências quase sempre imediatas dos resultados no desporto de alto rendimento, particularmente no futebol, em Portugal e em muitos outros países, tendem a destruir e a desorganizar quando se tenta colocar na mesma a estratégia, a cultura, os planos e os resultados. Ou existe uma estrutura sólida e robusta, ou o resultado vai anarquizar tudo ao ponto de fazer com que qualquer montanha-russa pareça insignificante em comparação com aquela mesa.

O que é então uma estratégia e estrutura sólida e robusta num clube desportivo? Antes de mais, nos dias de hoje, designações como clube-empresa ou clube multifundo não deveriam chocar ninguém. Esta é a primeira dimensão a sublinhar: o ecossistema atual é muito diferente. É necessário existir um enorme equilíbrio entre a flexibilidade que a vertente desportiva deve ter com as áreas de negócio, mas, por outro lado, cabe à direção defender, a todo o custo, aquilo que é a dimensão desportiva e de rendimento das equipas, porque esse continua a ser o core de qualquer clube desportivo.

É evidente que o resultado tem e terá sempre muito impacto no dia a dia de um clube. O que não pode, nem deve, permitir é a constante alteração das decisões tomadas ontem. Um plano ou uma estratégia devem ter um caminho definido, com limites claros, mesmo sabendo que não existe uma percentagem exata da flexibilidade a existir.

Por fim, para situações excecionais, medidas excecionais. Mas quando o acaso passa a ser normal, aquilo que deveria ser investimento começa a confundir-se com simples despesa. Não é por se ter que se deve gastar.