O rei Willem-Alexander e a rainha Maxima dos Países Baixos celebraram, na cabina de Curaçao, o empate a zero, dos estreantes em Mundiais, frente ao Equador. A autonomia de Curaçao permite-lhe ter voz ativa na política interna, mas a defesa do país e os negócios estrangeiros são matéria destinada aos Países Baixos, que assim mantêm uma relação ‘especial’, do ponto de vista do direito internacional, com o território das Antilhas. Aliás, rezam as crónicas, Curaçao não deriva da palavra portuguesa ‘coração’, mas sim de ‘curação’, porque muitos marinheiros, padecendo de escorbuto, foram salvos pelos frutos ricos em vitaminas que encontraram na ilha.

Em cada Mundial há heróis prováveis e improváveis e alguns vilões. Para se chegar aos heróis prováveis e aos vilões haverá que esperar pelo fim da competição. Quanto aos heróis improváveis, eles vão surgindo, aqui e ali, por feitos realizados ao serviço de ‘underdogs’, que encantaram o Mundo.

Depois de Vozinha, 40 anos, de Cabo Verde, de nome próprio Josimar Higino Pereira, em honra do lateral direito do Brasil, Josimar, que no Mundial do México/86 marcou dois golos (num deles, contra a Irlanda do Norte, contou-me Elzo, antigo trinco da ‘canarinha’ e do Benfica, quando decidiu rematar sem ângulo, da direita, ele começou a gritar-lhe, «não chuta, não chuta»; quando Josimar rematou e marcou um golo de bandeira, Elzo saiu para o abraço dizendo-lhe, «você fez bem em chutar, assim é que é») ter entrado na história ao parar a poderosa Espanha, chegou agora a vez de Eloy Room, 37 anos, ‘pegar até o vento’, como dizem os brasileiros, garantindo o nulo de Curaçao contra o favorito Equador (país que esteve em guerra, em 1969, com El Salvador, por causa do futebol).

Nem Cabo Verde nem Curaçao vão ser campeões do Mundo, mas o lado romântico, feito de heróis que desafiam as probabilidades e o destino, um elemento saudável que faz parte de todas as edições dos Mundiais, está, desde já, salvaguardado.

João Saldanha, antigo jornalista e selecionador do Brasil, dizia que «goleiro não ganha jogos, só perde.» Porém, desta vez, a Vozinha e Room bastou-lhes manterem a baliza a zero para entrarem pela porta grande no salão das lendas dos Campeonatos do Mundo de Futebol.

É por estas e por outras que há 2,5 mil milhões de pessoas interessadas na competição que decorre na América do Norte.

* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…

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