Os fantasmas da grande casa verde
ACHO que todos nós temos os nossos fantasmas. Alguns são, até, divertidos, deliciosamente maléficos, mas outros são perturbadores e podem condicionar-nos mentalmente. O problema maior do Sporting é que os seus fantasmas são um exército demolidor, capaz de ser implacável com mortos e vivos e de estoirar com qualquer obra de sucesso, o que, invariavelmente, torna esse sucesso transitório. São conhecidos como os terríveis fantasmas da grande casa verde. Um filme que passa, em Alvalade, à frente dos nossos olhos, que sempre se renova sem mudar de guião e com realizadores muito diferentes. Um filme negro. Um Monte dos Vendavais que se repete com as suas paixões, as suas angústias e muitos ódios e invejas. É uma teia que envolve os sportinguistas e que cresce, cresce, até entrar no relvado e, como diria Rúben Amorim, prender as pernas dos jogadores.
Para um jovem e ainda pouco experiente treinador, este Sporting é difícil de compreender e de manter fora das quatro linhas do campo. Por isso, depois do jogo desta última quinta feira, Rúben, que ainda goza de uma certa margem de prestígio interno porque os fantasmas da casa verde precisam de dividir para reinar, veio falar-nos, na sua habitual genuinidade ingénua, de «falta de confiança dos jogadores» e de «pernas pesadas» por razões que só os que entendem que o Homem é um corpo e um espírito uno e indivisível, podem compreender.
Também se ouvem queixas quase murmuradas pelos jogadores. Juram a vontade de vencer, de passar obstáculos, mas deixam cair a mensagem de que «cá dentro» é preciso que «todos remem para o mesmo lado». Sentem falta de apoio e, pior do que isso, sentem que a agenda do momento obriga a um confronto que os envolve, quer queiram, quer não.
Amorim ainda tem margem de prestígio
Sejamos claros: sobretudo desde que Varandas lançou um anátema sobre as claques organizadas e que não raras vezes tiveram ações marginais e violentas, abriu uma guerra que o transformou no alvo a abater. Como se sabe, nada disto é novo e se estivermos suficientemente atentos, percebe-se que, no futebol português (mas não só), sobretudo ao nível dos principais clubes nacionais, as claques organizadas lutam pela conquista de um poder que lhes permita ingerências consideráveis no clube e espaço aberto para a realização de interesses particulares e de grupo, que a ausência da cobertura institucional poderá pôr em causa. Este é um tema muito sensível e que, de facto, raramente tem sido abordado com realismo e com um mínimo de coragem. Há, por esse mundo fora, muitos clubes reféns dessas claques e, por vezes, dessas máfias que operam sustentadas na impunidade que o poder desses clubes lhes oferece.
Pode-se criticar Frederico Varandas por nem sempre parecer ter um projeto linear e firme, por não ser uma figura empática e por ser um desastre nas técnicas de comunicação, mas sabe-se que aproveitou o ano fatal da pandemia para ter as bancadas vazias e assim ganhar condições para ser campeão. Mas esses tempos, felizmente para o país e para o mundo, passaram e o Sporting voltou a abrir as portas do seu estádio aos fantasmas do passado e por isso volta a viver tempos de crise sistémica.
Não importa as consequências que essa luta traz à equipa para se atingirem os inconfessáveis fins em vista. Aliás, quanto mais o Paulinho falhar golos e o Antonio Adán os facilitar, melhor para os objetivos em vista, porque se ganha, desde logo, o apoio da maioria, ou seja, dos que olham para o essencial com os olhos do acessório. E esses são mesmo muitos. São aqueles que dizem: eu ganhei, nós empatámos, vocês perderam.
DENTRO DA ÁREA – A ARBITRAGEM VIVE NAS TREVAS
Devemos, em primeiro lugar, distinguir. Uma coisa é a arbitragem e outra são os árbitros. Claro que há árbitros competentes e árbitros incompetentes. É assim em todos os ramos de atividade. O problema estrutural não está nos árbitros, mas na arbitragem, porque a entidade é cega, surda e muda à civilização. Vive nas trevas, em matéria de consciencialização do que é o mundo de hoje. Um género de Carmelitas descalças, mas com apito na boca para todos termos a certeza de que, assim, ninguém pode falar. O silêncio não é inocente.
FORA DA ÁREA – A POLÍTICA E A COSMÉTICA
O governo assumiu, em definitivo, uma visão assistencialista do regime. Vamos dando alguma coisa à medida do que o gentil povo for precisando, tendo em atenção que o que há não chega para todos. Não é política, é uma caridade. Ora o que o país precisa é de política competente e séria, sob risco do eleitor comum não conseguir distinguir e começar a lenga-lenga de que são todos iguais. Ponto essencial: a inflação subiu, os juros subiram, os preços cresceram, os salários têm de ser revistos. Tudo o resto é cosmética, não é política.