Os emigrantes já escolheram o onze para a estreia (e há lições para Martínez)
PALM BEACH - Se Roberto Martínez ainda tiver alguma dúvida sobre as peças a colocar no tabuleiro na próxima quarta-feira, em Houston, basta dar um salto à areia de Palm Beach e ouvir quem sofre à distância.
A poucas horas da estreia de Portugal frente à RD Congo, no arranque do Mundial 2026, A BOLA testou o pulsar de seis emigrantes portugueses radicados na Flórida. Num improvisado tribunal da praia, o veredicto popular foi ditado.
Entre banqueiros, lutadores, pais e filhos, o onze ideal para o primeiro assalto na caminhada da Seleção está escolhido. E desengane-se quem pensa que a comunidade se limita a debitar os nomes mais sonantes por mero clubismo; há critério tático, debate aceso nas faixas e uma coerência que devia fazer o selecionador nacional tomar notas.
O escrutínio revela que a fasquia está alta e que a comunidade confia no bloco que dominou a qualificação. Feitas as contas aos votos, a equipa do povo monta-se num claro 4x3x3.
Diogo Costa mereceu a totalidade dos votos na baliza, sem dar qualquer hipótese de defesa a Rui Silva. Na linha defensiva, porém, surgiram os primeiros volte-faces. Para a lateral-direita, Nélson Semedo ganhou a corrida a Diogo Dalot por quatro votos contra dois. O camisola 2 do Manchester United convenceu o benfiquista Ian Rosário, mas o favoritismo popular pendeu para a experiência de Semedo.
Do lado esquerdo, Nuno Mendes foi totalista, mas Carlos Belo, o homem do icónico chapéu das quinas, operou uma engenharia tática: colocou João Cancelo no corredor direito e deixou a esquerda para o craque do PSG.
No eixo central da defesa, Rúben Dias é a primeira grande certeza unânime deste Portugal americano. Ao seu lado, a comunidade dividiu-se num debate geracional que espelha as dores de cabeça do próprio Martínez. Gonçalo Inácio acabou por vencer a corrida com três votos, fixando-se como o parceiro ideal do central do Manchester City. Contudo, o jovem benfiquista Tomás Araújo recolheu a preferência do banqueiro Rafael Martins, enquanto Renato Veiga mereceu a confiança de Carlos Belo e do jovem Miguel Marques, demonstrando que a juventude do plantel agrada aos adeptos.
Onde não há margem para qualquer dissidência ou discussão é no miolo e na frente. O meio-campo eleito pelos emigrantes é uma verdadeira máquina de tricotar futebol: João Neves, Vitinha e Bruno Fernandes recolheram a unanimidade absoluta com seis votos cada. Para esta comunidade, a criatividade e a intensidade deste trio são inegociáveis para travar o fulgor físico dos congoleses.
Na frente de ataque, a história repete-se. Bernardo Silva é dono e senhor da ala direita com cinco votos, deixando apenas um espaço de irreverência para Francisco Conceição, o eleito do veterano David Martins.
Na esquerda, Rafael Leão bateu João Félix por 4-2, com o público a exigir a vertigem do extremo do Milan para estraçalhar a defesa adversária. No entanto, David Martins deixou um aviso em formato de profecia: «Aposto no João Félix, fez um final de época muito bom e vai ser a grande surpresa deste Mundial.»
Ao centro, como não poderia deixar de ser, e ao contrário do que vai centrando discussões em Portugal, o comando pertence ao homem que move multidões na Flórida. Cristiano Ronaldo recolheu seis em seis.
Para Sérgio Marques e o seu filho Miguel, o capitão tem de jogar os noventa minutos. Já David Martins introduz uma gestão realista: «Ronaldo joga 50 ou 60 minutos e depois entra o Gonçalo Ramos. Por muito que valha, já não tem pernas para os 90.»
O povo votou, o xadrez está montado. A bola está agora do lado de Martínez.
Diogo Costa; Nelson Semedo, Rúben Dias, Gonçalo Inácio e Nuno Mendes; João Neves, Vitinha e Bruno Fernandes; Bernardo Silva, Cristiano Ronaldo e Rafael Leão.