João Almeida contou que tem saudades de vencer        Fotografia Imago
João Almeida contou que tem saudades de vencer Fotografia Imago

João Almeida: «Precisava de um 'reset'. Estou bem, volto para ganhar»

A três dias de celebrar mais um aniversário, o português da UEA Emirates está de regresso à competição na Volta à Polónia, da qual foi vencedor há cinco épocas e onde espera conseguir afirmar-se física e psicologicamente para dar o primeiro passo para a segunda metade da temporada e para estra presente na Vuelta com ambições, pois tem saudade de ganhar. Mas se tivesse sido o próprio a decidir, preferia estar na Volta a Burgos

A menos de 24 horas de começar a 83.ª Volta à Polónia — prova composta por sete etapas que venceu em 2021, ainda ao serviço da Quick-Step —, e a três dias de celebrar o 28.ª aniversário, João Almeida (UAE Team Emirates) conversou via online com a imprensa portuguesa sobre uma época que não tem corrido nada bem, desde que ficou doente na Volta ao Algarve até este regresso à competição, que se espera que sirva de preparação para a Volta a Espanha, com ou sem Tadej Pogacar.

O ciclista falou de tudo: estado de espírito, recuperação física e psicológica, os motivos de ter ido ao Critérium du Dauphiné mesmo sabendo que não se encontrava em forma, e não escondeu que a prova polaca não é a ideal para as suas características, ao contrário da Volta a Burgos. Por revelar ficou apenas qual foi o mal que o afectou na Volta ao Algarve, que o próprio acredita saber do que se tratou. Contudo, neste regresso à estrada, o corredor português vem com a convicção de que poderá fazer um bom final de temporada, pois trabalhou para tal, física e psicologicamente.

- Tendo em conta que é a sua primeira aparição em algum tempo e depois de um período complicado, a primeira questão é natural: como é que se sente?
- Sinto-me bem. Acho que estou pronto para competir e esperemos que corra tudo bem e não haja azares nesta Volta à Polónia.

Fotografia Imago

- Porquê a Volta à Polónia em substituição de San Sebastián e Burgos no seu calendário?
- Eles [UAE Emirates] substituíram uma pela outra. Não fui eu que escolhi. Mas creio que são duas opções bastante boas. Obviamente que desta tenho boas memórias do passado [venceu em 2021, ainda pela Quick-Step]. São duas boas corridas de preparação, com bom nível, para ver como é que estou na realidade.

Precisava de fazer um reset mental, voltar a reencontrar-me e começar a trabalhar como deve ser em preparação parca a segunda parte da época.

- Quanto à parte mental, como é que foram estes meses a nível psicológico e se foi bom ou mau ter ido ao Critérium du Dauphiné, tendo em conta a forma em que estava?
- Mentalmente foi bom. Precisava de fazer um reset mental, voltar a reencontrar-me e começar a trabalhar como deve ser em preparação parca a segunda parte da época. Mas foi bastante bom.

- E quais são as ambições para o final da temporada?
- A ambição é voltar a vencer corridas, obviamente, mas esperemos que não haja azares pelo caminho outra vez.

É claro que as etapas de montanha são as minhas favoritas e as que acompanho mais. As de sprint não são bem as preferidas, mas, como disse, foi um bom Tour, com bom nível. Tive foi pena que o [Jonas] Vingegaard [Visma-Lease a Bike] tivesse caído, assim como todos os outros

Fotografia Imago

- E assistiu à Volta a França e como analisa o domínio do Tadej Pogacar [penta vencedor]?
- O Tour foi giro de ver. Foi um bom Tour. Como equipa [UAE Emirates] estivemos muito bem, mesmo com alguns percalços e doença pelo meio, ainda que hoje em dia já seja mais normal isso acontecer em todas as equipas.Mas foi engraçado de assistir e a acompanhei bastante. É claro que as etapas de montanha são as minhas favoritas e as que acompanho mais. As de sprint não são bem as preferidas, mas, como disse, foi um bom Tour, com bom nível. Tive foi pena que o [Jonas] Vingegaard [Visma-Lease a Bike] tivesse caído, assim como todos os outros, mas o Vingegaard e o Pogacar tiraram um bocadinho da magia da última semana. As coisas estavam mais decididas no pódio e não houve grandes surpresas. No entanto apreciei ver a equipa em alta, tanto o Tadej como como o Isaac [Del Toro].

A Volta a Portugal é também boa para o país, de forma a tentar atrair cada vez mais as equipas WorldTour ou os desenvolvimentos das WorldTour, o que permite aumentar a visibilidade da corrida.

- E a Volta a Portugal? A UAE vai estar cá, não com a formação do Tour, claro, mas como é que encara esse esse passo para o ciclismo português? Até porque saiu bastante novo do país.
- É bom para Portugal e para a equipa de desenvolvimento  também será positivo. Acaba por ser uma corrida longa, de 10 etapas, com um dia de descanso, e isso é favorável para a malta mais jovem também poder ter um contacto com etapas num terreno mais duro, como é Portugal, com tiradas de montanha e um clima igualmente difícil numa corrida longa de alguns dias. A Volta a Portugal é também boa para o país, de forma a tentar atrair cada vez mais as equipas WorldTour ou os desenvolvimentos das WorldTour, o que permite aumentar a visibilidade da corrida.

Não queria muito lá ter ido [Critérium du Dauphiné]. Acho que não precisava ter ido, mas tinha a corrida no programa. Mas fui e dei para dar o meu melhor. Sabia que não estava em forma. Encarei a corrida da maneira que consegui, mas não me encontrava bem preparado para a disputar.

Fotografia Imago

- Voltando ao Critérium du Dauphiné. Referiu que havia sido importante lá ter ido porque mentalmente precisava de voltar a ter um objetivo. Mas, em concreto, o que é que retirou daqueles dias: físico ou pura e simplesmente mental? E por que é que não terminou?
- Sinceramente, não queria muito lá ter ido. Acho que não precisava ter ido, mas tinha a corrida no programa. Mas fui e dei para dar o meu melhor. Sabia que não estava em forma. Encarei a corrida da maneira que consegui, mas não me encontrava bem preparado para a disputar. Chegou a um ponto que já não era muito útil para a equipa, não estava lá a fazer grande coisa e, basicamente, foi-me sugerido não continuar e ir para casa De forma resumida foi isso.

Às vezes, na brincadeira no grupetto de todos os dias, alguns colegas que têm maior confiança diziam-me: que eu me estava a habituar mal no grupeto; e que ali não era o meu lugar; ou que depois de andar no meio do grupetto não queria outra coisa…

- Mas se não estava preparado, como é que lidou com o facto de às primeiras subidas, às primeiras dificuldades, ter ficado logo para trás, se m capacidade para acompanhar a frente da corrida. Alguém, que está habituado a andar na frente, a pôr os outros em apertos, com a corda na garganta?
- Às vezes, na brincadeira no grupetto de todos os dias, alguns colegas que têm maior confiança diziam-me: que eu me estava a habituar mal no grupeto; e que ali não era o meu lugar; ou que depois de andar no meio do grupetto não queria outra coisa… Faziam umas piadas mais divertidas . Mas como atleta de alto rendimento e de alto nível, o mental é muito importante. Eu, naturalmente, tenho treinado a parte psicológica. A expectativa real é tudo nessas corridas e é preciso saber geri-la. Por isso, ter ido com a expectativa de que não ia estar bem, pois sabia o que tinha nas pernas, já fui com uma que ia ser esse o meu lugar. Dei o meu melhor, mas era a realidade que tinha e por isso não saí de lá desapontado nem nada. Aconteceu o que achava que ia ser.

Neste momento vou focar-me na Volta à Polónia, que não é uma das corridas que se adequa a 100 por cento às minhas características. Não temos montanha, nem subidas longas e duras, mas vai ser um bom primeiro contacto com a competição.

Fotografia Imago

- Há uma decisão importante a tomar na equipa: se o Tadej Pogacar vai ou não à Volta a Espanha. Tendo essa oportunidade, se o Tadej não for à Vuelta, sente-se com capacidade para lutar pela vitória?
- Primeiro temos a Volta à Polónia, mas posso dizer que sim. Neste momento vou focar-me na Volta à Polónia, que não é uma das corridas que se adequa a 100 por cento às minhas características. Não temos montanha, nem subidas longas e duras, mas vai ser um bom primeiro contacto com a competição. Boas etapas, num país que gosto. Terá um final mais duro, com algumas etapas exigentes e um contrarrelógio, que apesar de ser curto será benéfico para tornar a competir em contrarrelógio. Tenho trabalhado imenso, sinto-me em forma, sinto-me bem, razões para termos aqui uma boa primeira corrida para ter contacto com o pelotão e alguns adversários.

Ainda quero ganhar esta época, o que ainda não consegui, e é aí que a cabeça está neste momento. Mas, claro que uma coisa é treinar e outra correr.

- Disse, logo no início, que se encontrava bem fisicamente, mas está a 100 por cento? Trabalhou como queria? Chegou aí como queria? O João Almeida que estamos habituados a ver ainda se irá apresentar esta temporada ou existe a possibilidade de que este seja simplesmente um ano não, com problemas físicos e que estejas com o pensamento já em 2027?
- Sinto-me bastante bem. Estou numa forma bastante boa. Aproveitei imenso estes últimos meses para estar o possível. Acredito que me encontro a 100 por cento. Realizei bons treinos, uma boa preparação, portanto, acho que tenho tudo para correr bem a última parte da temporada. Ainda quero ganhar esta época, o que ainda não consegui, e é aí que a cabeça está neste momento. Mas, claro que uma coisa é treinar e outra correr, no entanto, para já tenho bons indicativos e boas sensações. Acredito que vou estar competitivo. Só espero não estar enganado… [risos].

Fotografia Imago

A Volta a Burgos seria uma corrida que se encaixava melhor a mim e onde quem vai à Vuelta vai estar presente. Acaba por ser uma corrida com as mesmas características, até se passa no mesmo país, portanto faz sentido. Mas creio que foi uma boa opção estar aqui e será igualmente uma corrida de preparação para a Vuelta

- Já analisou o pelotão que vai estar na Volta à Polónia? Isto porque, comparando com a Volta a Burgos, parece que esta tem um nível de voltistas quase superior. A Polónia tem, sobretudo, grandes sprinters. Como salientou é uma corrida que não se adequa a 100 por cento às suas características: bastante subida curta, explosiva, super inclinada, mas sem subidas longas: O contrarrelógio também não é propriamente longo. Provavelmente será o grande nome dentro da corrida, até como ex-campeão. Referiu que está na Polónia bem fisicamente, que queres ganhar, mas vai para vencer a geral ou numa etapa? E olha para quem na corrida?
- Sinceramente, ainda nem vi a startlist, portanto não é algo com que esteja propriamente muito preocupado. Estou mais focado em mim e no que posso controlar. Vamos ter um meeting mais logo ou amanhã e depois logo vejo quais serão os adversários.

Claramente, a Volta a Burgos seria uma corrida que se encaixava melhor a mim e onde quem vai à Vuelta vai estar presente. Acaba por ser uma corrida com as mesmas características, até se passa no mesmo país, portanto faz sentido. Mas creio que foi uma boa opção estar aqui e será igualmente uma corrida de preparação para a Vuelta. Vai-me fazer bastante bem, com os esforços que necessito de realizar. É óbvio que gostava de ganhar uma etapa. E a geral ainda mais, mas vamos dia a dia, sem pressão e a dar o máximo que conseguir.

- Voltando um pouco ao passado, durante a Volta à Catalunha disse que não sabia qual era a condição física que o estava a afetar. Chegou a obter resposta quanto a isso e se tal foi importante na sua recuperação?
- Mais ou menos. Nem os médicos da equipa sabem grande coisa, sinceramente. Mas depois de pensar muito sobre isso, acho que sei exatamente o que me aconteceu. É uma questão de apenas descansar, deixar o corpo recuperar e repor o que é preciso.

Fotografia Imago

Se estiver na Vuelta poderei realizar uma corrida muito boa, dá para desfrutar de ambas as maneiras, em que posso apontar para os lugares de topo, para o pódio.

- Apenas amanhã será anunciado se o Tadej Pogacar vai ou não à Volta a Espanha. E existe uma Vuelta com ele e outra sem ele. Como é que se encaixa pessoalmente em cada um desses?
- É natural que numa Vuelta com ele a probabilidade de eu ganhar é quase zero! [risos] E numa sem ele essas probabilidades sobem drasticamente. Mas, de todas as maneiras, creio que se estiver na Vuelta poderei realizar uma corrida muito boa, dá para desfrutar de ambas as maneiras, em que posso apontar para os lugares topo, para o pódio. Se estiver bem, é onde tenho de estar.

- Nestes meses em que trabalhou para voltar ao seu melhor, recebeu alguma mensagem, seja de um companheiro de equipa ou da direção, que guarde porque o faz sentir bem e ainda mais motivado para continuar?
- No geral algumas. Mas assim de repente não me estou a lembrar de ninguém em específico. Mas houve vários companheiros a darem mensagens de apoio mais pessoalmente. Sabe sempre bem, mas a motivação tem de vir sempre de dentro de nós e por vezes não importa muito o que as pessoas dizem, seja bom seja mau.

A iniciar sessão com Google...