O alegado episódio no Dragão Caixa é um sinal de alarme — Foto: D. R.
O alegado episódio no Dragão Caixa é um sinal de alarme — Foto: D. R.

Onde estão os valores que importam?

Desportiva_MENTE é o espaço de opinião de Liliana Pitacho, psicóloga e docente no Instituto Politécnico de Setúbal

Há linhas que não podem ser ultrapassadas. No desporto, como na vida, nem tudo pode ser justificado pela competição.

O alegado episódio no Dragão Caixa, no contexto do andebol, envolvendo a presença de um cheiro intenso a amoníaco, não é apenas mais uma polémica. É um sinal de alarme e, se o ignorarmos ou normalizarmos. Um daqueles momentos em que o desporto é obrigado a confrontar-se consigo próprio e a perguntar: até onde estamos dispostos a ir para ganhar? Felizmente existe um inquérito aberto e esperamos que factos sejam devidamente apurados, pois tenho pouca crença em acasos de sintomas que levam mais do que uma pessoa a sentir-se mal. 

Independentemente da confirmação factual e das conclusões legais, o simples facto de este cenário ser plausível já nos diz muito. Diz-nos que, em determinados contextos altamente competitivos, a fronteira entre o aceitável e o inaceitável pode tornar-se difusa.

 O desporto é, por natureza, um espaço de construção social e educativa. É nele que se aprendem e, se reproduzem, valores como o respeito pelas regras, a justiça, a responsabilidade coletiva e a capacidade de lidar com a vitória e com a derrota. Aquilo que acontece dentro do campo não fica no campo: molda comportamentos, influencia gerações e contribui para a forma como entendemos o mérito, o esforço e o outro.

Do ponto de vista psicológico, este tipo de situações enquadra-se numa lógica de “desvio normativo progressivo”. Pequenas transgressões vão sendo toleradas, depois normalizadas, até que práticas claramente problemáticas deixam de ser percecionadas como tal dentro do grupo. É um processo silencioso, mas perigoso. Acontecimentos como estes, semelhantes, e ainda os discursos acusatórios e viscerais que têm sido produzidas (e, meus senhores, não há inocentes, todos têm brincado com o desporto), colocam em causa estes princípios básicos. Está em causa a função social do desporto enquanto escola de valores. Porque aquilo que se normaliza no jogo tende a ser legitimado fora dele.

Mais do que isto, chegamos ao ponto em que estes comportamentos incendeiam os ânimos, estas provocações (caso se confirme a situação do andebol estamos a falar em muito mais do que provocações) legitimam comportamentos agressivos de adeptos. Neste momento assistimos a comportamentos perigosos e altamente inflamatórios que colocam claramente a causa os futuros jogos e nos próximos tempos aproximam-se jogos grandes e não estamos só a falar de futebol. Aquilo que se espera é que se tenha responsabilidade e que não se desrespeite os valores base do desporto. A continuarmos assim arriscamos a que algo muito mau venha a acontecer e claramente que cada um terá de colocar a mão na sua consciência e fazer o mea culpa.

Este episódio deve, por isso, ser mais do que um caso isolado. Deve ser um ponto de viragem. Um momento de reflexão séria sobre regulação, fiscalização e cultura desportiva. O desporto não pode permitir zonas cinzentas quando está em causa a integridade dos atletas. E quando começamos a tolerar o intolerável, o problema já não está no resultado. Está no que estamos dispostos a sacrificar para o alcançar.